Last Updated on 5 de agosto de 2024 by Wine Fun
Como fazer de um limão uma limonada. Atualmente a Áustria é um dos países europeus com legislação mais rigorosa para a produção de vinhos. Além disso, o país alpino conta com um sistema de classificação bastante abrangente, dentre os melhores do mundo. Porém, isso nem sempre foi assim. Foi necessário um enorme escândalo para revolucionar o vinho austríaco.
A eclosão do escândalo ocorreu em 1985, ganhando as manchetes e tendo um impacto devastador sobre as exportações de vinhos austríacos na época. Após denúncias anônimas, laboratórios austríacos, alemães e de outros países detectaram algo muito estranho em diversos vinhos provenientes da Áustria. Foi identificada a presença de dietilenoglicol, uma substância química muitas vezes usadas como ingrediente de anticongelantes, em quantidades muito acima do permitido.
O cenário da época
É fundamental fazer um recuo maior no tempo para entender o cenário em 1985. Já a partir da década de 1970, a Áustria figurava como um dos principais exportadores de vinhos para a Alemanha, com uma concentração significativa em um segmento: vinhos doces. Na época bastante populares e mais baratos, os vinhos doces austríacos supriam as deficiências de produção da Alemanha.
Era um mercado diferente do atual. Quem controlava o engarrafamento e comércio destes vinhos com a Alemanha não eram as vinícolas. Os grandes nomes deste lucrativo negócio eram comerciantes e distribuidores austríacos, que funcionavam como uma espécie de négociants. Compravam mostos ou vinhos das vinícolas austríacas e eram responsáveis pelo engarrafamento e comercialização, sempre com marcas próprias.
Pela grande vantagem competitiva dos vinhos austríacos, sobretudo aqueles de regiões como Burgerland, os contratos de exportação para a Alemanha cresceram rapidamente. Porém, dois obstáculos aparecerem: começavam a faltar vinhedos com condições de gerar vinhos doces também na Áustria e as condições climáticas mostraram uma deterioração importante, com várias safras chuvosas. Como equilibrar uma situação de demanda crescente e produção estagnada?
História de detetive
A alternativa escolhida para manter o lucrativo comércio de vinhos doces com a Alemanha foi a pior possível. E o escândalo veio somente à tona por conta de alguns eventos improváveis. Embora já existissem suspeitas quando à capacidade dos négociants austríacos em sustentar as crescentes vendas à Alemanha, não havia indícios de como isso era possível. Porém, isso mudou a partir de dezembro de 1984.
Foi quando uma pessoa não identificada deixou uma garrafa de vinho no Instituto Federal de Agricultura e Química da Áustria. Análises indicaram a presença de diversas substâncias químicas em quantidades proibidas no vinho, inclusive doses enormes de dietilenoglicol. Começava a ser desvendado o mistério, com um resultado que chacoalhou a indústria vinícola não somente na Áustria.
Buscar dulçor artificial
Mas por que usar o dietilenoglicol? Esta substância incolor e inodora acaba trazendo aos vinhos duas características desejadas na época: mais corpo e maior dulçor. Portanto, servia perfeitamente aos interesses dos négociants, que buscavam vinhos nos estilos Spätlese ou Auslese. Porém, ao fazer isso, a prática, além de burlar as regras da época (foram encontradas concentrações até 45 vezes acima do permitido), o dietilenoglicol tem efeitos muito nocivos à saúde humana.
Não há menção de falecimentos diretos ligados ao dietilenoglicol, porém há suspeitas de casos (não comprovados) nos quais houve consumo em quantidade mais alta ou por mais tempo. Se o impacto no curto prazo não passava de enxaquecas e desarranjo intestinal, os impactos do uso contínuo podem ser devastadores. Além de poder levar à falência renal, ele também afeta o sistema nervoso central, podendo, em ambos os casos, levar à morte.
O escândalo
Mesmo apesar das análises e de uma segunda denúncia anônima, a reação inicial das autoridades austríacas foi tímida. E o mesmo aconteceu na Alemanha, onde análises mostraram presença de dietilenoglicol em diversas amostras de vinhos austríacos. Foi somente em abril de 1985 que o governo austríaco emitiu uma alerta de saúde, enquanto na Alemanha as autoridades proibiram o consumo e realizaram maciças apreensões.
No final de julho, funcionários do governo austríaco concluíram uma lista de vinhos adulterados ilegalmente. Em Viena, o ministro da Saúde, Kurt Steyrer, afirmou que os vinhos de 38 empresas nas províncias de Burgenland, Baixa Áustria, Estíria, Tirol e Viena apareciam na lista. Dois comerciantes foram presos. Em paralelo, a Alemanha divulgou uma lista de 82 vinhos austríacos contaminados, lista ampliada para 350 nas semanas seguintes. Vinho austríaco contaminado também foi encontrado na Suíça, Holanda, Grã-Bretanha, Estados Unidos, França e Polônia.
O escândalo ganhou manchetes e levou a reações ainda mais criminosas por parte de alguns négociants austríacos. A imprensa do país alpino reportou que Anton Schmied, do vilarejo de Mitterstockstall (noroeste de Viena) foi preso por despejar 15.000 litros de vinho tinto no esgoto da cidade. Além de tentar ocultar provas, a consequência foi enfraquecer os microrganismos responsáveis pela purificação de água na estação de tratamento de esgoto, levando à contaminação de riachos próximos e envenenando peixes.
Impactos
O escândalo trouxe um impacto devastador sobre a indústria vinícola austríaca. Porém, respingou também na Alemanha, já que quantidades também fora das regras de dietilenoglicol foram identificadas em vinhos alemães. O motivo? Alguns comerciantes alemães estavam ilegalmente adicionando vinhos austríacos aos alemães, com o intuito de baixar custos e elevar a percepção de corpo e dulçor.
Além da destruição de milhares de litros de vinho, houve também diversas prisões. Elas incluíram um importante consultor de diversas vinícolas e négociants austríacos: Otto Nadrasky, químico responsabilizado como criador da fraude. Diversos négociants e agentes também foram detidos, incluindo os irmãos Josef e Richard Grill, condenados em a 10 anos de prisão. Cerca de 30 négociants faliram, mas não houve qualquer prisão de produtores ou viticultores.
O maior impacto, porém, foi sobre a reputação dos vinhos austríacos no exterior. As exportações de vinho austríaco em 1986 representaram apenas 5% da quantidade anterior ao escândalo. No mercado interno, todavia, as perdas foram menores, até porque a proporção de vendas diretas das vinícolas era muito maior, sem a intermediação dos négociants.
Reconstruindo uma indústria
O escândalo na época acabou atingindo o vinho austríaco como um todo, embora as conclusões finais indiquem que o problema estava restrito a um grupo de négociants, sem envolvimento dos produtores de vinho. No entanto, por conta deste escândalo, o governo austríaco acabou por aprovar uma ampla reforma das regras deste mercado, para um patamar invejável em países onde o vinho tem um papel ainda mais importante.
Além disso, o que ocorreu acabou modificando a própria dinâmica do vinho na Áustria. Os produtores ganharam uma parcela muito maior no processo. Caiu de forma significativa a intermediação de terceiros, permitindo um crescimento acelerado de diversas vinícolas, anteriormente ofuscadas pelos négociants. O resultado foi um imenso ganho em termos de qualidade, colocando o vinho austríaco em um patamar muito acima daquele visto antes do escândalo.
Fonte: New York Times; Los Angeles Times; New York Times; The Wine Stalker
Imagem: kirill_makes_pics via Pixabay