Last Updated on 1 de dezembro de 2023 by Wine Fun
O vinho é atualmente uma bebida universal, mas suas origens foram identificadas na região do Cáucaso, na atual Geórgia, onde há cerca de 8.000 anos a Vitis vinifera foi domesticada e desde então é utilizada para elaborar vinhos. De lá, as videiras domesticadas gradualmente se espalharam, atingindo a região do Mediterrâneo, que banha os três maiores produtores de vinho do mundo da atualidade: Itália, França e Espanha.
Mas esta expansão no sentido leste-oeste, na direção do Mediterrâneo, foi gradual. Durante a segunda metade do quinto milênio, as videiras chegaram ao sul da Grécia e, posteriormente, aos Balcãs e sul da Itália. E foi a partir do sul da Itália, na época chamado de Magna Grécia, que as videiras chegaram a boa parte do Mediterrâneo.
Magna Grécia e seu papel na expansão da viticultura
Relatos históricos e arqueológicos colocam a Magna Grécia em uma posição chave na expansão do vinho na Europa Ocidental. E agora análises mais recentes, usando DNA de diversas variedades de várias regiões europeias, parecem corroborar esta trajetória. Assim, dentro do processo de migração da viticultura do Cáucaso para a Europa Ocidental, o sul da Itália teve um papel fundamental.
Lembrando um pouco de história, Magna Grécia é o antigo nome de partes do sul da Itália (atualmente as regiões de Basilicata, Calábria, Campânia, Puglia e Sicília). Ela foi colonizada pelos gregos a partir do século VIII a.C e fortemente influenciada pela civilização grega, em termos de costumes e tradições, como língua, ritos religiosos e agricultura. E isso inclui também a viticultura e as variedades de uvas usadas.
Gradual adaptação
A análise do DNA de diversas variedades, de regiões distantes como a Georgia e a Península Ibérica, dá pistas importantes sobre o processo de expansão da viticultura. Até hoje, as variedades autóctones da Georgia mostram um perfil genético mais distinto das demais, que reflete a forma como ocorreu esta expansão.
É importante lembrar que Vitis vinifera, com suas diferentes espécies, era presente em praticamente todo o sul da Europa e leste do Mediterrâneo, mesmo antes da domesticação das vinhas e consequente produção de vinho no Cáucaso. Por este motivo, a expansão da viticultura envolveu o uso de uvas locais com aquelas “importadas” pelos vinhateiros antigos. Isso explica por que existe uma diferença genética relativamente pequena entre as variedades da Geórgia e as da Ásia Menor (mais próximas), com as da França e Espanha (mais distantes).
Papel central da Magna Grécia
E estas diferenças genéticas ajudam a destacar o papel central da Magna Grécia. O estudo da estrutura genética de diversas uvas apoiou a hipótese de que, durante a colonização grega, a Calábria e a Sicília desempenharam um papel importante na avaliação do potencial das variedades provenientes do Mediterrâneo Oriental. E isso foi fundamental na sua disseminação, em primeiro lugar para todo o sul da Itália e depois para a Itália Central, França e Espanha.
No caso da Itália Central, a análise mostra uma relação muito forte entre as variedades provenientes da Magna Grécia e as atualmente cultivadas na região. Por exemplo, a Sangiovese, hoje a uva mais cultivada na Itália, tem uma estrutura genética muito próxima com diversas variedades do sul da Itália, como Frappato, Cilegiolo, Gaglioppo ou Negrodolce.
Menor relação com uvas francesas e espanholas
Já a proximidade genética com uvas atualmente presentes em parte da França e no norte da Itália é menor. Isso ocorre porque, nestas últimas, existe também uma contribuição genética importante de variedades originárias da Europa Oriental, boa parte das quais introduzidas na região na época do Império Romano.
A surpresa do estudo ficou na relação entre as uvas da Magna Grécia e da Península Ibérica. Embora a viticultura no que hoje é Espanha e Portugal possivelmente tenha sido introduzida por mercadores ou colonos provenientes do sul da Itália, existe uma diferença genética significativa. O motivo disso é a presença de espécies autóctones de Vitis vinifera na Península Ibérica, em um bolsão isolado que sobreviveu à era glacial. Assim, mesmo com a influência da Magna Grécia, as variedades locais acabaram ganhando destaque, explicando a diferença genética existente atualmente entre as espécies de uvas das duas regiões.
De qualquer forma, o papel da Magna Grécia na expansão da viticultura pelo Mediterrâneo foi enorme, ajudando a moldar o mapa do vinho que conhecemos hoje. Seja pelas contribuições na agricultura ou no comércio, a tradição vinícola do sul da Itália chegou ao Mediterrâneo Central e Oriental, criando bases para que países como Itália, França e Espanha ganhassem a posição de destaque que desfrutam atualmente no mundo do vinho.
Fontes: Ancient Wine, Patrick McGovern; SNP genotyping elucidates the genetic diversity of Magna Graecia grapevine germplasm and its historical origin and dissemination, De Lorenzis et al.
Imagem: Georg Schmitt via Pixabay