Last Updated on 3 de março de 2021 by Wine Fun
Marsala é um tipo de vinho fortificado, na maioria das vezes doce, produzido nos arredores da cidade que lhe empresta o nome, no oeste da Sicília. A exemplo de outros vinhos fortificados, viveu períodos de glórias, seguido de uma lenta e longa decadência. E no caso do Marsala, em especial, a decadência foi ainda mais aguda e se arrasta até os dias atuais.
Nesse post iremos visitar a trajetória desse vinho muito especial, mas que é frequentemente subestimado. Veremos que motivos não faltam para sua imagem negativa. Por outro lado, no meio de tantos tipos de Marsala, existem alguns estilos que merecem atenção especial dos enófilos. E aqui vale a regra de ouro do mundo do vinho: o conhecimento é o melhor atalho para descobrir tesouros escondidos e, por consequência, permitir consumir vinhos de boa qualidade a preços relativamente inferiores do que seus pares

O insight de um comerciante que criou o Marsala
Corria o ano de 1773 quando o comerciante oriundo de Liverpool, na Inglaterra, John Woodhouse, navegava rumo a Mazara del Vallo, no oeste da Sicília, onde iria buscar uma carga de carbonato de sódio, um insumo industrial. Uma enorme tempestade, porém, obrigou-o a interromper a rota original e desembarcar em Marsala. Uma vez em terra, Woodhouse teve a oportunidade de provar um vinho local e que o agradou à primeira vista. Tal vinho o fez lembrar os bons fortificados doces disponíveis no mercado inglês.
Vale lembrar que, nessa ocasião, os vinhos fortificados, especialmente os doces, eram um enorme sucesso no maior mercado consumidor do mundo, a Inglaterra. E não apenas na sede da Coroa, mas também nas colônias e demais mercados importantes do norte da Europa.
O vinho que encantou o comerciante inglês era chamado pelos locais de “Vinho Perpétuo”. Era envelhecido através um método similar ao utilizado em Jerez de la Frontera, a solera. A diferença era que o Vinho Perpétuo não era fortificado, ou seja, não era adicionado álcool no seu processo de produção.

John Woodhouse, o comerciante inglês que inventou o Marsala
Aperfeiçoamento
Os produtores locais não conheciam a técnica da fortificação e, como o consumo era restrito a região de produção, não havia a necessidade de preservar o vinho para suportar longos transportes em condições bastante desafiadoras para a estabilidade da bebida.
E por ser envelhecido da forma como era, o vinho ganhava concentração de aromas, sabores e teor alcoólico. Tinha, portanto, aos olhos de Woodhouse um grande potencial de ser aperfeiçoado e vir a ser tornar um grande sucesso no mercado inglês.

Animado com a possibilidade de encontrar um bom concorrente para os vinhos doces que reinavam no mercado inglês, John Woodhouse decidiu encomendar 50 barricas do “Vinho Perpétuo”. A ideia era fazer um teste de mercado, no melhor estilo das técnicas contemporâneas de lançamento de produtos. Como era de se esperar, o vinho que Woodhouse planejava vender teria um custo muito abaixo dos potenciais concorrentes, como o Porto, Madeira e Jerez. Além disso, como ele descobriu o vinho, teria o benefício de chegar na frente e controlar todo o canal de distribuição.
Nasce o Marsala que conhecemos hoje
Assim, a oportunidade de obter grande rentabilidade o fez esquecer do objetivo original de sua viagem, que era importar matéria prima para as indústrias inglesas. A meta agora era dedicar-se a “encher a taça” dos consumidores britânicos com um novo estilo de vinho.
Porém, para suportar o longo trajeto e as condições precárias de transporte, Woodhouse tomou a sábia decisão de fortificar o vinho. Inicialmente o objetivo era proteger o vinho das condições inapropriadas de transporte ao qual ele seria submetido, como exposição ao calor, vibrações e alterações de temperatura.
Ocorre que a fortificação, além de preservar o vinho, adicionou novas características organoléticas e criou uma outra bebida, diferente da versão consumida localmente. Nascia assim o Marsala tal conhecemos hoje.
Sucesso imediato na Inglaterra e no mundo
As 50 barricas levadas para a Inglaterra foram muito bem recebidas. Motivado por esse sucesso inicial, John Woodhouse adquiriu vinhedos na região de Marsala e investiu na criação de uma vinícola para produzir o “seu vinho” que passou a ser chamado de Marsala. No século 19, a popularidade do vinho cresceu, a ponto de ter se tornado o favorito da Marinha Real Britânica, o que abriu a porta para as colônias e mercado internacional.
O sucesso do Marsala atraiu o interesse de outros negociantes ingleses, como Benjamin Ingham, assim como produtores da Sicília, notavelmente Florio, que passou a produzir o “vinho do Woodhouse” a partir de 1830. O vinho Marsala consolidou-se no mercado internacional, passando a concorrer em pé de igualdade com Jerez, assim como os vinhos do Porto e da Madeira.
Quando tudo ia bem, surgiu a filoxera
O surgimento da filoxera, no final do século dezenove, provocou uma gradual decadência da qualidade do Marsala. Pressionados pela falta das variedades das uvas tradicionalmente usadas, os produtores recorreram ao que conseguiam encontrar, geralmente “bulk wine” (vinho a granel ou “de mesa”). Com isso, o Marsala começou a perder qualidade e tipicidade.
Com o objetivo de garantir a autenticidade do produto, o governo italiano oficialmente delimitou a área de produção e as regras de produção em 1931. Vale lembrar que o sistema de Denominação de Origem Controlada na Itália só foi criado na década de 1960. Portanto, em Marsala a “tentativa” de proteger a marca e definir os critérios de produção ocorreram três décadas antes. Mas o termo “tentativa”, como veremos adiante, poderia ser melhor definido como “tentativa não tão bem sucedida”.

E para complicar, a Segunda Guerra Mundial
No meio do caminho, estourou a Segunda Guerra Mundial, com efeitos devastadores para a Itália, e a Sicília, em particular. Desesperados para obterem novas fontes de receita, os produtores decidiram ampliar o portfolio e criar tipos diferentes de Marsala. Esses novos estilos (hoje são 29, mas já foram mais) criaram uma complexidade que não ajudava em nada a aproximação do vinho do consumidor.
Mas a má fama é decorrente especialmente de um estilo de Marsala, que inundou o mercado nas décadas de 1950 a 1970, o Marsala Speciali, criado logo depois da 2ª Guerra Mundial. Esse estilo era produzido com a adição de uma série de ingredientes no vinho fortificado, como frutas, ervas, amêndoas, chocolate, especiarias e até ovo. Em outras palavras, era uma bebida, a base de vinho, mas aromatizada. Esse estilo se tornou popular como ingrediente da gastronomia, foi produzido e comercializado em grande volume e maculou a imagem do Marsala como um vinho de primeira linha.
Em 1984, após várias tentativas anteriormente frustradas, o Marsala Speciali foi finalmente extinto. Vale lembrar que a DOC, criada em 1969, já havia proibido a produção e comercialização desse estilo. Mas ainda assim foram necessários 15 anos para que isso fosse cumprido.
Os tipos de Marsala
Existem 29 estilos de Marsala. Tais estilos derivam do tipo de uva utilizada (brancas ou tintas), do processo de envelhecimento (mínimo de um ano até 10 anos ou mais) e o grau de doçura (do seco ao doce) resultante do processo de produção.

A qualidade varia bastante entre os diferentes estilos que se dividem em três grandes grupos: Fino, Superiore e Vergine.
Marsala Fino – representa aproximadamente 80% da produção e passa por um período mínimo de um ano de envelhecimento e deve conter um mínimo de 17,5% abv. Apesar de ser produzido e bebido como aperitivo ou para acompanhar sobremesa, o Fino é destinado ao mercado de ingredientes da culinária e majoritariamente vendido para a preparo de pratos.
Marsala Superiore – envelhecido em barricas pelo período mínimo de dois anos e com um percentual mínimo de 18% abv. Pode ser lançado como Riserva depois de estagiar quatro anos em madeira e pode utilizar uvas de uma mesma safra. Nesse caso é engarrafado como vintage. Algum dos melhores Marsalas são engarrafados como Superiore. Em termos de volume, representam aproximadamente 20% da produção.
Marsala Vergine – o vinho base é produzido apenas com uvas brancas. Representa uma minúscula parcela da produção. Esse estilo não permite a adição de nada, além do álcool vínico. O açúcar residual deve representar, no máximo 4% e apresentar um mínimo de 18% abv. Marsala Vergine é considerado o mais autêntico e complexo estilo de Marsala. Numa rápida e despretensiosa pesquisa realizada em janeiro de 2021 não foi possível encontrar nenhum Vergine a venda no Brasil. Até 2020 a importadora Mistral distribuía um vinho desse estilo, mas infelizmente não está mais disponível.
Os desafios do Marsala
Não são poucos os desafios Marsala para ocupar um lugar de destaque no cenário do vinho. A começar pela queda de volume, observada nas últimas duas décadas, no consumo da categoria de vinhos fortificados e doces.
E para além disso, o desgaste do Marsala e sua associação como um simples ingrediente da gastronomia, complicam ainda mais a construção da imagem de um vinho a ser apreciado por enófilos exigentes. Por fim, a existência de 29 estilos, tão diversos, assusta e afasta os leigos.
Mas no meio disso tudo, há vinhos incríveis para quem curte o estilo. Como sempre o conhecimento, aliado a uma boa dose de curiosidade, pode render belas experiências, com boa relação de qualidade versus preço.
Renato Nahas é Professor da ABS-Campinas. Concluiu a certificação de Bourgogne Master Level da WSG, é Formador homologado pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS, pela WSG. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWE e CWS, este último pela Society Wine Educators.
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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal
Imagems: Pixhere