Apesar da crise decorrente da COVID-19, com estoques elevados em diversas regiões, como Itália, Espanha ou África do Sul, parece ainda existir interesse em aumentar a área de vinhedos em alguns países. E este é o caso da Itália. Mesmo em uma situação de crise, os produtores italianos de vinhos disputaram ferozmente os direitos de plantio de novos vinhedos.
Com a mudança da legislação da União Europeia (UE) sobre novas plantações de vinhedos, em 2016, foi estabelecido que cada Estado-membro pode expandir sua área de vinhedos em no máximo 1% ao ano. No caso da Itália, esta limitação, somada a outros fatores, levou à definição de um teto de 6.722 novos hectares de vinhedos em 2020. Mas os produtores quiseram mais. Muito mais.
Pedidos quase 10 vezes maiores que o teto
Dados publicados pela publicação Corriere Vinicolo, da Unione Italiana Vini, mostram que a demanda, por parte dos produtores, foi de 64.036 hectares em 2020. Isso é quase dez vezes a cota disponível. Mais do que o volume em si, também chamou a atenção a radical mudança geográfica das requisições.
Desde que as regras da UE sobre os direitos de plantio entraram em vigor em 2016, o foco das requisições mudou completamente. Nos dois primeiros anos, cerca de 70% dos pedidos vieram de apenas duas regiões, Veneto e Friuli, principalmente devido ao sucesso do DOCs Prosecco (Delle Venezie e Valpolicella). Porém, desde 2018, a corrida por licenças mudou para o sul, mais especificamente para Puglia e Sicília. De acordo com o Corriere Vinicolo, a Puglia representou 44% (28.000 ha) da cota de 2020 e a Sicília respondeu por 21% (15.500 ha).
Mudanças estruturais
No entanto, ao analisar os dados mais detalhadamente, a mudança de tendência parece fazer sentido. Embora a demanda por novos vinhedos no nordeste da Itália tenha caído, a área de videiras no Veneto e Friuli cresceu. O Veneto ultrapassou 100 mil hectares em 2020 (+12% em relação a 2016) enquanto o Friuli fechou em 28.000 hectares (+13%). Esse crescimento inclui também os direitos adquiridos pelos produtores nos dois primeiros anos desde a implementação das novas regras.
No sul, a situação é completamente diferente. A forte demanda recente na Sicília ocorre em um cenário onde há um declínio de 2% na área de vinhedos desde 2016. Na Puglia, a área sob videiras cresceu 3% no mesmo período. Porém, a explosão de requisições desde 2018 sugere que o interesse não se deve apenas aos produtores locais, mas também viria do norte. Embora a legislação ateste que os direitos não são transferíveis entre regiões, ainda parece existir uma certa “flexibilidade” no caso italiano.
Fontes: Corriere Vinicolo; Meiningers Wine Business; Decanter
Imagem: Jörg Peter via Pixabay