A queda no consumo global de vinhos tem se consolidado na última década, e os sinais desse movimento são cada vez mais evidentes. A Revista Exame publicou em sua edição de 07/10/2024 que a França obteve um financiamento de € 120 milhões da União Europeia para reduzir parte de seus vinhedos, como resposta à queda na demanda. Na Austrália, o caso do produtor Tony Townsend, que destruiu metade de seus vinhedos, foi relatado na Folha de São Paulo em 11/03/2024.
Se tudo isso já não fosse o suficiente para preocupar os grandes produtores mundiais, a proposta de aumento das tarifas de importação, divulgada pelo governo americano em abril de 2025, acrescentou mais “camadas” de incerteza. Mesmo que o aumento de tarifas não se concretize — afinal, em se tratando de Donald Trump, é possível esperar qualquer coisa —, a confusão já foi instalada em um mercado já instável como o do vinho.
Um novo foco?
Em um cenário de queda no consumo global de vinhos, especialmente na Europa, o crescimento das importações na América Latina foi uma das poucas boas notícias para os exportadores de vinho. A 9ª edição do Seminário do Mercado de Vinhos da Revista Adega revelou um crescimento de 8% nas importações na América Latina em 2024. No Brasil, o número foi ainda melhor: 10%.
Apesar de um panorama ainda “cambaleante”, a evolução do consumo de vinhos no Brasil mostra-se promissora. Embora os números ainda não indiquem crescimento expressivo, há uma clara migração do consumo de vinhos de mesa para os vinhos finos, indicando uma “gourmetização” da categoria. Há cada vez mais consumidores dispostos a consumir o produto que sobrou nos grandes centros produtores.
Não é por acaso que, na edição do Valor Econômico de 31/03/2025, Arnaud De Saiges, CEO da Chandon, do grupo LVMH, ao reconhecer que a desaceleração no consumo de espumantes no mundo tem deixado a indústria em alerta. Ele vê o Brasil como uma enorme oportunidade, pois o consumo per capita de espumantes no Brasil é de apenas 175 ml por ano. Enquanto um brasileiro consome menos de um terço de uma garrafa por ano, um alemão consome, em média, 4 garrafas!
O que pode mudar
A tendência dos grandes produtores globais em buscar espaço no Brasil é uma questão de sobrevivência, como foi amplamente abordado na 9ª edição do Seminário do Mercado de Vinhos da Revista Adega, realizada no primeiro trimestre de 2025. Esse movimento abre uma série de oportunidades, mas também representa uma ameaça para alguns atores que não consideraram essa variável em seus planos de negócios. Variáveis externas, como o câmbio e as tarifas, podem alterar peças importantes do tabuleiro.
A bagunça gerada pela desorganizada política comercial de Donald Trump pode acelerar o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, adicionando um novo ingrediente a essa discussão. Historicamente, o lobby dos produtores argentinos de vinho tem pressionado para impor tarifas elevadas aos europeus. No cenário atual, no entanto, convicções e certezas estão frequentemente sendo questionadas e alteradas. É plausível esperar qualquer mudança.
Renato Nahas é um grande apreciador de vinhos que adora se aprofundar no tema. Concluiu as certificações de Bourgogne Master Level da WSG, e também de Bordeaux ML. É formador com homologação pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS e Spanish Wine Specialist – SWS. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWS e CWS, este último pela Society Wine Educators.
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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal