O dilema do vinho na Austrália: o que fazer após a China fechar seu mercado por cinco anos?

A confirmação de que a China taxará de forma agressiva a importação de vinhos australianos nos próximos cinco anos se transformou no maior obstáculo enfrentado pelo quinto maior exportador de vinhos do mundo nas últimas décadas. Em 2019/2020, o mercado chinês foi o primeiro destino dos vinhos australianos, com 39% do valor total das exportações.

Na última sexta-feira as autoridades chinesas confirmaram que as tarifas sobre vinhos australianos, que variam entre 116% a 218%, se estenderão até 2026. A decisão reforça as tarifas provisórias aplicadas a partir de novembro do ano passado e seriam justificadas, segundo os chineses, após uma investigação identificar casos de “dumping e danos ao mercado de vinho chinês”.

Esta decisão praticamente inviabiliza as vendas de vinhos australianos para seu maior mercado externo. De fato, os dados de dezembro (após o anúncio das tarifas, na época temporárias) mostram um fluxo comercial de vinhos praticamente nulo entre os dois países.

Conflito comercial e reação australiana

As relações entre a Austrália e a China começaram a se deteriorar em abril passado. As primeiras tensões vieram depois que o primeiro-ministro australiano Scott Morrison pediu uma investigação internacional sobre as origens do coronavírus. Além disso, a Austrália vetou a participação da chinesa Huawei no desenvolvimento da rede 5G no país. Várias exportações australianas – incluindo madeira, carne bovina e alguns tipos de carvão – logo começaram a encontrar dificuldades para entrar no mercado chinês.

Segundo seu ministro da Agricultura, David Littleproud, em entrevista à rede CNBC, a Austrália “defenderá vigorosamente” sua indústria vinícola. “Enquanto a China… faz jogos com mecanismos de mercado, temos a oportunidade de enviar este produto para outros mercados, por causa da qualidade”,

Na mesma entrevista, o ministro afirmou que “estamos profundamente decepcionados com essa decisão e não subsidiamos nossos agricultores”. “Dos 37 países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), há apenas um país que é visto subsidiando menos seus agricultores do que a Austrália”.

Impacto significativo

A imposição das tarifas praticamente fecha as portas para o maior mercado de exportação de vinhos australianos. A parcela da China, líder absoluta até 2020, é superior à soma dos quatro maiores mercados na sequência (Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Cingapura). Ou seja, o processo de repor estas exportações será longo e complicado.

O segmento mais afetado deve ser o de vinhos tintos, dada a preferência dos chineses por este tipo de vinho. Já mercados como Estados Unidos e Reino Unido concentram suas importações de vinhos australianos sobretudo nos brancos. Em 2019-20, cerca de 60% da produção australiana foi exportada, ou seja, cerca de 23,5% dos vinhos produzidos na Austrália, em termos de valor, tinham a China como destino.

Fontes: CNBC; CNN; Wine Australia

Imagem: Jutta53 via Pixabay

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