Um percurso pela obra “O Banquete” de Platão e pelo “Banquete dos Eruditos” de Ateneu de Náucratis
Falar de vinho na Antiguidade Clássica, referenciando as obras literárias da história, é muito mais do que falar de bebida. É adentrar um universo simbólico em que civilização, prazer, medida e sabedoria dançam no mesmo compasso. Das obras que estudei e pesquisei como historiadora, poucas ilustram isso tão bem quanto O Banquete, conhecido também como O Symposium de Platão, do século IV a.C. (por volta de 380 a.C.) e O Banquete dos Eruditos, conhecido também como O Banquete dos Sofistas (Deipnosophistae) de Ateneu, escrito aproximadamente seis séculos depois, já sob a longa sombra do Império Romano (por volta de 193/197 d.C.).
Curiosamente essas duas obras, mesmo que separadas por transformações profundas na pólis, no direito, na arte e até na estrutura social do Mediterrâneo, mantêm o vinho no centro de sua tessitura literária. Mas o fazem à sua maneira: Platão erguendo-o quase como instrumento filosófico, Ateneu celebrando-o em referência enciclopédica e hedonista.
O vinho na Grécia clássica: um catalisador do logos
Na Atenas do século IV a.C., em que Platão escreveu seu Banquete, o symposium era muito mais que um simples beber social. Tratava-se de uma instituição cultural: um pós-jantar exclusivamente masculino, em que se discutia poesia, política, moral e onde a presença do vinho era condição quase ritual.
A arqueologia corrobora vividamente essas práticas. Foram encontradas em Atenas (inclusive na Ágora) centenas de fragmentos de kraters (ânforas onde o vinho era misturado com água) e grandes taças para compartilhar essa mistura, chamadas kylix, muitas delas pintadas com as cenas dos symposiums: homens reclinados em klinai, bebendo com ânforas próximas, muitas vezes jogando o kottabos (um jogo com restos de vinho). Essas imagens dialogam diretamente com o que Platão descreve — o vinho como elemento estruturante da vida social e intelectual.


O Banquete
Na obra, Platão nos apresenta um grupo de amigos reunidos para celebrar o amor (Eros) em um banquete (chamado de symposium pelos atenienses) na casa de Agatão. A obra é escrita em forma de diálogo. Cada um dos amigos discursa filosoficamente acerca do amor e logo no início desse diálogo, vemos um cuidado quase metódico com a relação entre vinho e razão. É Erixímaco quem propõe, numa voz de médico e moderador, que bebam com parcimônia, pois ainda estão ressacados da noite anterior:
“Parece-me que hoje podemos beber moderadamente, sem exageros. Precisamos recuperar o corpo e o espírito.” (Platão, O Banquete, pág 176)
Esse tom revela muito da cultura ateniense: o vinho não era para embriagar a ponto de obliterar o pensamento, mas para suscitar a fala, o logos, libertar a palavra e permitir à alma elevar-se. Aristófanes, ao se preparar para seu discurso sobre o amor, diz:
“Talvez o vinho, que faz saltar a língua e o coração, me ajude a dizer o que penso.” (Platão, O Banquete, pág 189)
Havia nesses eventos a figura do Simposiarca – aquele responsável por realizar a mistura de partes do vinho e partes de água nos kraters e de ritmar a frequência e medida do servir nos kylix. Esses simposiarcas talvez tenham sido os ancestrais dos sommeliers!
O vinho na obra é interpretado por muitos historiadores ao longo dos séculos, como uma poção que facilita a comunhão de almas em busca do Belo. Sócrates, o último a discursar, é apresentado quase como um milagre humano: capaz de beber sem nunca se desviar do raciocínio, exemplificando o ideal platônico de que o verdadeiro sábio é senhor de si até no porre e conclui que o Amor é a personificação do Belo, do Bom e do Justo (contém spoiler simplificado!)
O vinho no Império: erudição, prazer e cosmopolitismo
Saltamos quase 600 anos no tempo. A Grécia já é há muito uma província cultural sob o domínio romano, e o grego é a língua dos intelectuais do Mediterrâneo. O vinho — longe de ser apenas um pretexto filosófico — se torna objeto de investigação quase científica, espelhando o gosto por colecionar saberes.
As escavações em Pompéia e Herculano, soterradas em 79 d.C., nos fornecem um retrato surpreendentemente vivo dessa época: foram identificadas adegas domésticas, ânforas inscritas com nomes de vinhedos e até thermopolium (espécies de bares), com ânforas embutidas em balcões de pedra. Esse ambiente romano-helenístico descrito por Ateneu encontra eco literal nessas descobertas: o vinho era onipresente, um motor da vida urbana e convivial.

É nesse espírito que Ateneu de Náucratis escreve seu Banquete dos Eruditos, um gigantesco compêndio de 15 volumes, que infelizmente perdeu-se ao longo dos dois milênios. Restam somente 4 ou 5 volumes intactos, porém, felizmente, cheio de citações, anedotas e dissertações gastronômicas, organizado em torno de um banquete prolongado. Uma verdadeira enciclopédia da enogastronomia da época. Ali, o vinho surge não só como vetor de sabedoria moral ou metafísica, mas como tema em si, digno de discussões técnicas sobre procedências, misturas e efeitos.
Um dos convivas lembra um fragmento de Crátilo (filósofo grego), que traduz bem a mentalidade helenístico-romana sobre a mesa:
“Eis a lei antiga: sem vinho, não há banquete.
Pois o vinho é a alma do festim,
e quem banqueteia sem vinho
fica só com o corpo, sem o espírito.”
(Ateneu, O Banquete dos Eruditos, Vol II, pág 36)
Mas não faltam alertas contra o excesso. Um dos trechos é a recitação sobre o número das taças:
“A taça que exalta o coração é a terceira;
a quarta traz o tumulto, a quinta a gritaria,
a sexta o insulto, a sétima o processo judicial,
a oitava os guardas noturnos, a nona a bilis,
a décima a loucura e o arremesso fora de casa.”
(Ateneu, O Banquete dos Eruditos, Vol II, pág. 42)
Entre Impérios, o vinho como cultura
Se tomarmos essas duas obras como janelas para seus respectivos tempos, veremos como o vinho permanece constante como símbolo civilizatório, mas assume nuances distintas.
- Em Platão, 380 a.C., o vinho é servidor do logos, parte do ritual do discurso, disciplinado pela presença da filosofia e pelo ideal de medida.
- Em Ateneu, auge do Império Romano, o vinho é objeto da paidéia (educação virtuosa) tardia, estudado, catalogado, apreciado em toda sua variedade, num deleite que se expande para o conhecimento enciclopédico.
Atualmente, é na literatura e na arqueologia onde encontramos os maiores indícios dessa dualidade. Do Império Grego, as poucas obras literárias que chegaram até nós e uma quantidade considerável de kraters e kylix encenando esses symposiums – estima-se que já foram escavados mais de 8.000 artefatos com essas cenas. Do Império Romano, os afrescos e inscrições em copos de vidro ou ânforas encontradas nas casas romanas cantam a alegria pura do beber: “Bibe, vive: carpe diem.” (Beba, vive: aproveita o dia)
Ambos os banquetes, porém, se unem na convicção de que não há verdadeiro convívio humano sem vinho. Ele é catalisador do diálogo, revelador da alma — como se lembra um dos convivas em Ateneu:
“O vinho revela o homem: é o espelho da alma.
Com vinho, conhecemos os corações;
as máscaras caem, os pensamentos saltam livres.”
(Ateneu, O Banquete dos Eruditos, Vol II, pág 45)
Andrea é historiadora, pesquisadora da fermentação antiga e entusiasta de vinhos. Possui mestrado em História das Civilizações pela Universidade da Pensilvânia e atualmente, integra equipes de arqueólogos apoiados pelo Penn Museum, com estudos focados na função antropológica do vinho nas civilizações antigas (a.C.). Co-autora do livro científico Patrimonio Cultural da la Vid y el Vino. Formada sommelière pela ABS-SP e certificada WSET3 pela East London Wine School.
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Referências: Para quem gosta de história e vinho e/ou quer saber mais, tanto os estudos interpretados na obra de Platão quanto o volume II da obra de Ateneu são fontes riquíssimas em conteúdo desses momentos.
Foto: Andrea Ramos, arquivo pessoal