Polêmica: qual o limite da reação dos consumidores ao comportamento dos produtores?

Uma polêmica recente na Itália trouxe o foco para a reação que os consumidores de vinhos devem ter em relação às práticas adotadas pelos produtores. Está longe de ser a primeira vez que isso ocorre, já que acusações de racismo e xenofobia já foram reportadas entre produtores. Porém, desta vez a diferença é que o alvo das denúncias é um produtor de vinhos naturais.

O pai de Valentina Passalacqua, uma produtora de vinhos naturais da Puglia, no sul da Itália, foi colocado em prisão domiciliar pela polícia italiana.  Settimio Passalacqua foi acusado de exploração sistemática e ilegal de trabalhadores, sobretudo imigrantes, na produção de seus vinhos.

Limites de envolvimento

Os vinhos de Valentina ganharam projeção dentro do universo de vinhos naturais, sobretudo nos EUA, após terem sido escolhidos para compor o portfólio de marcas de dois dos mais influentes importadores de vinhos  de baixa intervenção de Nova York, Zev Rovine Selections e Jenny & François Selections. Além disso, o clube de vinhos naturais Dry Farm Wines também passou a distribuir seus vinhos.

As autoridades italianas não indicaram se Valentina estava ciente ou foi cúmplice das acusações sofridas pelo seu pai. Porém, a reação foi imediata nos Estados Unidos, sob a justificativa de que ela havia se beneficiado economicamente das ações de seu pai, independentemente de sua culpa pessoal. Como resultado, seus vinhos foram retirados do catálogo dos três distribuidores no final de julho.

Direito de defesa

Valentina afirmou que sua vinícola e seus vinhedos são independentes daqueles de seu pai, e negou veementemente qualquer envolvimento com as atividades ilícitas. “Estou indignada com as condições de trabalho que meu pai é acusado de criar nesta propriedade, e ele deve ser punido se ele fez o que é acusado”, disse ela em um comunicado da Goldin Solutions, uma empresa de relações públicas com foco em crises, baseada em Nova York.

O crime pelo qual pai foi acusado é chamado de caporalato, no qual os intermediários atuam como fonte de obtenção de mão-de-obra. Eles criam condições para que imigrantes, neste caso do norte da África e da Europa Oriental, executem trabalho agrícola em condições precárias e com salários abaixo do padrão. Esta não é a primeira vez que acusações nesta linha surgem no sul da Itália, inclusive com possível envolvimento do crime organizado.

Tamanho importa?

Este episódio é emblemático. Tem aumentado a preocupação dos consumidores com a práticas adotadas por produtores, não somente no mundo dos vinhos. Porém, isso ainda não havia respingado no universo dos vinhos naturais ou de baixa intervenção. E um dos principais motivos é o tamanho das propriedades, geralmente de pequeno porte, dentro de uma proposta mais próxima ao conceito de trabalho artesanal.

No caso dos Passalacqua, o tamanho da propriedade, com cerca de 80 hectares de vinhedos, chamou a atenção. Ele destoa bastante da área média de vinhedos de outros produtores de vinhos deste segmento, que raramente supera 20 hectares.

Com isso, surge a questão: a reação de excluir os vinhos dos catálogos teria somente a ver com as acusações ou também com o fato de que, neste caso, temos um produtor de grande porte e sem práticas artesanais? A polêmica continua. Opine!

Fonte: diversas publicações e mídias sociais, com destaque para um artigo de Eric Asimov no New York Times.

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