A Società Agricola Sandro Fay foi criada em 1971 na região italiana da Valtellina e hoje está em sua segunda geração, cultivando cerca de 15 hectares de vinhedos, sobretudo na subzona de Valgella. Foi um prazer degustar quatro de seus vinhos em evento recente realizado em Grinzane Cavour, evidenciando o enorme peso que as safras têm em uma região de viticultura heroica como a Valtellina. Se 2019 foi uma safra equilibrada (não no nível de anos como 2006, 2010 e 2016, porém), 2020 e 2021 foram mais frias. E isso pode ser uma vantagem ou desvantagem, dependendo do estilo de vinho produzido.
Valtellina Superiore Valgella 2021, 13,5%
Antes de mais nada, vale lembrar que todos os vinhos com denominação de origem da região usam a Nebbiolo (chamada localmente de Chiavennasca) como única uva. Neste caso, as uvas, de cultivo sustentável, provêm de vinhas plantadas em menores altitudes (abaixo de 450 metros). Na vinificação, fermentação natural em rotofermentadores de inox, com conversão maloláctica e 12 meses de estágio em botti.
Um vinho simples, delicado e leve, um cartão de entrada para sua linha de vinhos dentro da denominação Valtellina Superiore. Olfativo discreto, com aromas de morango, frutinhas de bosque, especiarias, rosas e toque de erva verde. Na boca, refletiu a safra 2021: um vinho “frio”, com alta acidez, taninos leves e corpo médio a baixo, com fruta mais verde e certa rusticidade. Na Itália, custa cerca de € 22
Valtellina Superiore Valgella Vigna Cà Moréi 2020, 13,5%
Esta cuvée conta com uvas de um vinhedo específico (Cà Moréi) situado a cerca de 550 metros de altitude também na zona de Valgella. Vinificação em linha com anterior, à exceção do envelhecimento, que ocorreu em botti de 30 hectolitros e tonneaux de 500 litros. Com mais estrutura e profundidade que o anterior, porém também com uma personalidade “mais fria”. Usando uvas de maior altitude, trouxe mais destaque no olfativo para notas de ervas verdes, com fruta vermelha discreta. Palato fresco e vertical, também com notas verdes, alta acidez e fruta em segundo plano. € 29.
Valgella Riserva Carterìa 2019, 13,5%
Outro vinho de vinhedo específico (Carterìa), que tem uma área de três hectares situada em Valgella a cerca de 500 metros de altitude. Na vinificação, sendo um Riserva, a diferença fica no tempo de envelhecimento, com 12 meses botti e tonneaux e mais 18 meses em garrafas. Que diferença faz a safra nesta subzona da Valtellina! Um vinho delicioso e equilibrado, com a combinação de frescor, elegância e profundidade que faz os vinhos da Valtellina tão especiais. Olfativo intenso, com aromas de frutas vermelhas (cereja), acompanhados por aromas florais (rosa) e especiarias, sem qualquer nota verde. Na boca, um vinho vertical, mas com ótima fruta, alta acidez, taninos presentes e mais profundidade e densidade, com final longo. € 36.
Sforzato Ronco Del Picchio 2021, 15%
Além da maior altitude dos vinhedos (cerca de 750 metros) o que muda aqui é o estilo de vinificação. As uvas são colhidas na primeira semana de outubro (uma semana antes do normal) e mantidas em caixas dentro de uma sala arejada (fruttaio) até meados de dezembro, em um processo conhecido como appassimento. Na vinificação, fermentação alcoólica durante 20 dias com maceração de 10 dias, seguido por maloláctica e estágio de 24 meses em botti de 30 hectolitros.
Neste caso, a safra mais fria trouxe elegância e frescor, com menos potência e teor alcóolico bem mais baixo que em colheitas mais quentes. Por exemplo, a mesma cuvée da safra 2022 teve 16,5% de álcool. Olfativo com frutas mais negras (cereja preta e ameixa), com notas de especiarias e tabaco, trazendo um palato vertical, porém mais rico, denso e guloso. Bem seco (açúcar residual abaixo de dois gramas por litro, bem abaixo de um Amarone, por exemplo), com taninos elegantes e redondos, mais estrutura e final longo. Delicioso e complexo. € 52.