Revolução em Saint-Émilion: Château Ausone e Cheval Blanc fora da classificação regional

Last Updated on 19 de julho de 2021 by Wine Fun

Uma decisão surpreendente e impactante. As duas vinícolas mais admiradas de sua denominação de origem, Château Ausone e Cheval Blanc, decidiram bater de frente com o conselho da denominação Saint-Émilion. Elas anunciaram, em decisões separadas, sua intenção de se retirar da classificação da denominação de origem, que é renovada a cada dez anos e está sendo revisada para 2022.

O prazo para submeter a documentação se encerrou em 30 de junho e os dois nomes mais icônicos de Saint-Émilion decidiram não participar do processo. Assim, a denominação francesa deixa de ter dois de seus produtores classificados em 2012 como Saint-Émilion Premier Grand Cru Classé ‘A’, a mais alta na escala local, na sua próxima classificação. E isso não se deveu a uma falha burocrática, já que ambos os produtores deixaram claras suas razões: não concordam com os critérios do sistema de classificação.

Topo da pirâmide

A classificação da denominação Saint-Émilion divide os principais produtores da região em três categorias principais. Na sua última revisão, em 2012, a base da pirâmide era formada pela classificação Grand Cru Classé, com 64 produtores. A categoria seguinte é a de Saint-Émilion Premier Grand Cru Classé, com 14 produtores, com o topo da pirâmide sendo formado por um restrito grupo de quatro produtores, classificados como Premier Grand Cru Classé ‘A’.

Anteriormente os únicos nesta categoria, em 2012 Château Ausone e Cheval Blanc passaram a ter a companhia de dois outros produtores, Château Angélus and Château Pavie, na categoria mas alta da denominação de origem. Agora a decisão anunciada reduz novamente o topo da pirâmide a apenas duas vinícolas, desta vez sem a presença dos dois nomes mais icônicos da região.

Discordância com critérios adotados

As decisões das duas vinícolas foram independentes, mas a reclamação é comum: não concordam com os critérios adotados para a reclassificação prevista para 2022. A publicação britânica Decanter cita uma carta enviada pelos principais executivos da Cheval Blanc, relatando que não concordam com os critérios adotados.

“Em 2012 (última reavaliação da classificação), notamos uma profunda mudança na filosofia da classificação, especialmente no que se refere a novos critérios que equivalem à “uma importância maior ao marketing”, como colocação do produto, com que frequência uma propriedade aparece na mídia, incluindo RP e nas mídias sociais, juntamente com a infraestrutura do enoturismo”. “Totalizando apenas 15% da nota final, pouca importância é dada ao terroir e à viticultura nos critérios para julgar um vinho”, acrescentaram os representantes da Cheval Blanc.

Conselho da denominação defende os critéiros

Já o Conselho da denominação de origem defende os critérios adotados, inclusive uma mudança proposta para 2022. Para os vinhos Grand Cru Classé, 50% da nota final de uma propriedade terá como base uma degustação às cegas das últimas 15 safras. Estas notas de degustação constituíram 30% da nota na classificação de 2012.

Esta alteração foi criticada por uma das proprietárias do Château Ausone, Pauline Vauthier. Para ela, um período de reavaliação de dez anos baseado em verticais de quinze anos é “muito curto” para julgar adequadamente a capacidade de envelhecer de um vinho”. Vaulthier completou, citando que “marketing e enoturismo são coisas muito boas, mas a medida do grande vinho se resume ao terroir, viticultura e tempo.”

Impacto da decisão

Ainda é cedo para julgar o impacto da decisão. Do ponto de vista dos dois produtores, possivelmente a decisão deve trazer poucas mudanças.  Château Ausone e Cheval Blanc possuem o status de principais produtores da região, com seus vinhos ficando entre os mais caros e mais bem avaliados não somente de Saint-Émilion, mas também de todo o Bordeaux.

Para a denominação de origem, o impacto deve ser mais sentido. Embora os critérios adotados pelo Conselho não sejam alvo de crítica pela maioria dos produtores, fica o gosto amargo de perder os dois nomes mais icônicos da região. Curiosamente, Saint-Émilion é considerada uma das mais dinâmicas denominações do Bordeaux no sentido de classificação de seus vinhos. Isso contrasta com os vinhos da margem direita, cuja classificação, ao menos no topo da pirâmide, somente registrou uma mudança desde 1855.

Fontes: Decanter; The Drinks Business

Imagem: Jordy Meow via Pixabay

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