Na última semana de agosto de 2024, o governo estadual de São Paulo lançou oficialmente, e com muita pompa, a Rotas do Vinho de São Paulo. Esse foi exatamente o tema da nossa coluna de março de 2024, aqui no WineFun. Por ser um tema recente, um livro ainda com várias páginas a serem escritas, vale a pena voltar ao assunto e comentar as medidas do governo paulista.
Rotas do Vinho de São Paulo
Divulgado com todas as pompas típicas de eventos oficiais, o governo paulista lançou, no dia 27 de agosto de 2024, no Palácio dos Bandeirantes, a Rota do Vinho de São Paulo. Segundo o que foi divulgado, o objetivo desse trabalho é:

“Promover o desenvolvimento econômico e regional sustentável com geração de emprego e renda para a população… reconhecimento das vocações regionais e incentivo à produção de vinho em São Paulo… Mais do que a indicação de nossas vinícolas, a iniciativa é a valorização do potencial econômico e turístico… ao se falar em roteiros turísticos, cria-se uma infinidade de possibilidades de novas visitas a vinícolas… além do reforço da infraestrutura das localidades, para que deem conta de apoiar o turismo…”

O material divulgado conta com cerca de 120 páginas e é bem redigido e editado. Alguns poderiam argumentar que “não foi feito mais do que a obrigação”, mas é importante reconhecer a qualidade do trabalho. Não é incomum encontrar materiais desse tipo com baixa qualidade.
Seu conteúdo explora não apenas os aspectos relacionados ao vinho da região, mas também sugere roteiros de visita, com endereços de vinícolas e, o que é bastante positivo, busca uma conexão com outros temas, como a rota dos queijos artesanais, hotéis e outras atrações locais. Contém uma pequena introdução sobre a viticultura paulista, citando as variedades de uvas cultivadas e os diferentes estilos de vinho.

Pontos positivos
O foco no enoturismo domina a iniciativa. Como foi defendido na coluna de março, não faria sentido ser diferente disso. Há uma enorme oportunidade a ser explorada. No final das contas, o que se busca promover é a experiência do enoturismo e não o produto em si. Afinal, o vinho paulista é produzido em pequena escala e é comercializado a preços relativamente altos quando comparado a outras opções disponíveis.
Também foi muito feliz a inserção do enoturismo em um ecossistema mais amplo, integrando o vinho com outros pilares relacionados ao turismo rural, como o queijo artesanal. Limitar o roteiro apenas ao vinho seria um problema, pois ainda são poucas as vinícolas com envergadura para atender o turista. Falta estrutura como restaurantes, e muitas das áreas de visitação ainda são precárias, salvo algumas poucas e honrosas exceções. Dessa forma, é importante integrar o vinho com outros produtos para viabilizar uma experiência capaz de motivar consumidores.
O material foi muito hábil em abordar os vinhos produzidos com a técnica da dupla poda. Ao definir os estilos de vinhos, apresentou vinhos finos, vinho de mesa e vinhos de inverno na mesma categoria. Rigorosamente, isso está muito longe de ser correto, mas como forma de comunicação com o consumidor, é bastante adequado. Dessa forma, foi evitada a armadilha da confusão de terminologia, pois a ausência de regulamentação faz circular vários nomes para vinhos produzidos da mesma forma.
Alguns problemas
Se, de um lado, é salutar o esforço de catalogar as vinícolas, por outro, a heterogeneidade dos produtores é marcante. Um material preparado pelo governo estadual não poderia emitir opiniões e muito menos pontuações sobre vinícolas. Mas poderia, sim, buscar ser mais informativo e respeitar um padrão mínimo de informações a serem divulgadas. Algumas vinícolas são descritas com adjetivos, algumas vezes exagerados. Já em outras, o recado é telegráfico, informando apenas onde se localiza e os serviços que oferecem. O turista deveria saber, por exemplo, se uma vinícola específica produz vinhos finos ou apenas de mesa.
O mais grave, porém, é que algumas vinícolas listadas ainda se encontram em estágios iniciais de produção. Algumas vinificam vinhos produzidos com uvas cultivadas e vinificadas em outras regiões do país. Rigorosamente, estariam mais para bares de vinho do que para vinícolas. Inegavelmente, trata-se de uma informação delicada, mas o consumidor tem o direito de saber.
É compreensível que o material tenha sido restrito ao estado de São Paulo. Afinal, é uma iniciativa do governo estadual. Mas, especialmente na fronteira com o sul de Minas Gerais, abre-se uma lacuna enorme. Espírito Santo do Pinhal e Andradas, por exemplo, formam praticamente uma única região. A rota paulista bem que poderia invadir regiões limítrofes, abraçando uma área que o turista certamente considera ser uma só. Combinar a rota do vinho com a rota do café, como aliás a maioria dos visitantes já faz, certamente agregaria muito.
Por fim, como o trabalho foi elaborado com foco no turista, poderíamos compará-lo a uma embalagem. Aliás, uma bela embalagem que pode esconder algumas limitações na infraestrutura. Salvo alguns casos isolados, o risco de prometer e não entregar é grande.
Uma boa iniciativa, mas ainda há uma longa jornada pela frente
A alta demanda pelo turismo rural no estado de São Paulo escancara a enorme oportunidade de investimento no enoturismo. Porém, a consolidação do setor demandará um enorme esforço multissetorial. Poder público e empresários precisam atuar de forma integrada.
E disso dependerá a consolidação da Rotas de Vinhos de São Paulo. Se a lição de casa não for bem-feita, o que veremos será algumas vinícolas se consolidando com sucesso, mas a grande maioria enfrentando dificuldades para se manter. Mas essa ainda é uma história a ser contada.
Renato Nahas é um grande apreciador de vinhos que adora se aprofundar no tema. Concluiu as certificações de Bourgogne Master Level da WSG, e também de Bordeaux ML. É formador com homologação pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS e Spanish Wine Specialist – SWS.. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWS e CWS, este último pela Society Wine Educators.
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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal