Safra 2019 na Borgonha: melhor em 150 anos ou exagero?

Last Updated on 1 de fevereiro de 2025 by Wine Fun

A safra 2019 na Borgonha está dando o que falar. A percepção de uma safra espetacular em termos de qualidade ficou evidente após um artigo no jornal britânico Financial Times, questionando se esta seria a melhor safra desde 1865. E, considerando diversos comentários de produtores, realmente a impressão é que estamos diante de uma safra especial.

Mais do que um ano isolado, 2019 parece coroar uma tendência que segue, pelo menos desde 2015. Se, no passado, a Borgonha era sujeita a uma variação de safras muito maior, por conta do aquecimento global isso mudou. O sol parece, literalmente, brilhar mais forte nesta região francesa. A combinação entre verões quentes e poucas chuvas tem impulsionado os vinhos da Borgonha a patamares ainda mais elevados.

Características únicas

Um ano especial. Em entrevista ao Financial Times, Bernard Hervet, ex-diretor de Faiveley e Bouchard, duas das maiores maisons da região, não conteve seu entusiasmo. O longo, quente e seco verão de 2019 criou as condições perfeitas na Borgonha para uma safra espetacular, que poderia “talvez rivalizar com 1865, a maior safra de todas”.

A crítica e escritora Jancis Robinson também destacou as qualidades da safra, mas não chegou a mostrar tanto otimismo. Curiosamente, ela mostrou uma preferência pelos vinhos brancos, que conseguiram manter um perfil excepcional de acidez, mesmo com um verão tão quente.

Por conta das altas temperaturas em 2019, o rendimento dos vinhedos plantados com uvas brancas foi maior que o normal, gerando vinhos de alta qualidade e sem perda de safra por conta de geadas.

Vinhos excessivamente concentrados?

Mas 2019 é um consenso de qualidade? Embora a maioria pareça indicar uma safra espetacular, há vozes discordantes. Em entrevista para Jancis, Jean-Marc Roulot, um especialista em Meursault e vinhos brancos, confessou que não se mostrou um grande fã da safra 2019. Os vinhos seriam mais extraídos e menos elegantes, lembrando a safra 1990.

Jancis Robinson destaca também que o potencial de evolução desta safra talvez seja comprometido. Este, porém, parece ser um problema menor na Borgonha, por conta da enorme demanda por seus vinhos e mudança no perfil de degustadores. Se, anteriormente, o maior mercado ficava nas mãos de degustadores com paciência para guardar estes vinhos em suas adegas, hoje o público mudou. Por conta dos preços absurdos dos vinhos, os principais consumidores são mais ricos, menos especializados e de perfil de consumo mais rápido.

Fim de um ciclo?

Mas até que ponto os vinhos da Borgonha conseguirão manter as suas características, em um mundo marcado pelo aquecimento global? Estudos mostram que a Pinot Noir e a Borgonha, em particular, serão afetados de forma intensa pelas temperaturas mais altas ao redor do globo.

Para o enólogo da Domaine de Montille, Brian Sieve, talvez um ciclo esteja se encerrando. “Estamos em uma janela na Borgonha, que está se fechando lentamente – precisamos de mais água e menos sol”, diz ele. Se no passado o problema na Borgonha era de falta de sol e calor, o quadro atual parece indicar o oposto.

Caso o aquecimento global continue, com temperaturas mais altas e menos chuvas sendo a regra, a Borgonha sofrerá e a janela atual de vinhos, feitos sob condições climáticas quase perfeitas, pode se fechar. Por conta disso, Sieve aconselhou, também em entrevista ao Financial Times, que quem puder adquirir e estocar vinhos destas safras espetaculares o faça. O futuro pode ser diferente.

Fontes: Financial Times; Jancis Robinson; Berry Bros & Rudd

Imagem: thecitywino via Pixabay

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