Simplicidade e conhecimento: por um vinho mais democrático

Você já analisou de perto um quadro de Pablo Picasso? Me recordo de uma tarde em um museu na Europa, quando ouvi um casal comentar a quão “primária” e “feita com linhas simples, quase infantis” era uma obra exposta deste gênio espanhol, algo que, segundo eles, “qualquer um poderia fazer”. No entanto, quando observamos a trajetória de Picasso com atenção, sobretudo nos trabalhos iniciais e nas fases azul e rosa, fica evidente uma precisão técnica impressionante. Picasso dominava o desenho a um ponto que beirava o fotográfico.

Pablo Picasso – Famille de Saltimbanques – 1905

Deste modo, as formas aparentemente simples de sua obra madura não decorrem da falta de capacidade técnica, mas de uma escolha consciente: a busca por uma linguagem própria, autoral, que refletisse sua visão de mundo. E o que isso tem a ver com o vinho? De certa forma, tudo.

Desvio de trajetória

Vivemos hoje um momento peculiar no mundo do vinho. Ele se tornou, para muitos, um produto elitizado, complexo, quase inacessível. Um universo cercado por regras, termos técnicos e códigos implícitos que afastam quem está de fora. Talvez não seja coincidência que o consumo de vinho venha caindo em diversos países, especialmente entre as faixas mais jovens da população. Evidentemente, há outros fatores envolvidos, como mudanças de hábitos, concorrência com outras bebidas, questões de preço. Mas é difícil ignorar o peso dessa percepção de que o vinho é “difícil”.

Um dos grandes desafios do setor é justamente reverter esse movimento. E talvez o primeiro passo seja simples na teoria, ainda que difícil na prática: facilitar o vinho. Torná-lo mais acessível, mais livre, mais democrático. O vinho, em primeiro lugar, não precisa ser um objeto de análise constante a cada encontro ou refeição.

Pense na gastronomia. Quando você pede um espaguete à bolonhesa em um restaurante, raramente sente necessidade de discutir se a massa é de grão duro, qual variedade de tomate foi usada, o grau exato de maturidade da colheita ou se a carne era orgânica ou não. Esses detalhes existem, são relevantes em determinados contextos, mas não fazem parte da experiência cotidiana da maioria das pessoas.

Claro, há sofisticação na gastronomia. Basta olhar para os menus criativos de restaurantes estrelados. Mas essas são experiências específicas, pontuais, que não representam o nosso dia a dia. No cotidiano, o que buscamos é comer bem, sentir prazer à mesa, ter uma refeição equilibrada e saborosa. Um prato simples, quando bem-feito, não é sinônimo de baixa qualidade. Muito ao contrário.

Diferentes jornadas

O vinho é, antes de tudo, um companheiro de momentos especiais e de nossas refeições. Uma bebida que acompanha pratos, momentos, conversas. Ele pode ter múltiplas personalidades: simples ou complexo, despretensioso ou profundo, direto ou contemplativo. Assim como na obra de Picasso, a aparente simplicidade não implica ausência de conteúdo ou de valor.

Pablo Picasso – La Rêve – 1932

Quem conhece muito de vinho pode (e deve) usar esse conhecimento para colocar cada garrafa em perspectiva: entender a uva, o método de produção, o terroir, as escolhas do produtor. Isso ajuda a avaliar o vinho segundo critérios mais técnicos e, muitas vezes, mais pessoais. Mas esse conhecimento não é um pré-requisito para o prazer.

Conhecer o vinho de perto pode enriquecer a experiência, mas não é condição para aproveitá-lo. O vinho deve poder ser desfrutado tanto por quem estuda, degusta e analisa quanto por quem simplesmente abre uma garrafa para acompanhar um encontro com os amigos, aproveitar uma piscina ou uma boa refeição. Ambos têm o mesmo direito ao prazer.

Aprofundar-se no mundo do vinho é, para muitos (como eu), um projeto apaixonante. Uma jornada de aprendizado contínuo. Para quem optou por investir no estudo do vinho, vale o exemplo de Picasso: para chegar ao simples, talvez o conhecimento profundo seja o melhor caminho. Porém, investir em aprendizado e conhecimento deve ser visto como uma jornada que alguns desejam percorrer e outros não.

Rumo a um vinho inclusivo

Há méritos para ambas as partes. Quem não escolhe esse caminho jamais deve se sentir excluído da experiência. O prazer de beber vinho não pertence a uma elite de conhecedores. Degustar, conversar, compartilhar vinho deve ser um processo leve, alinhado aos objetivos, ao tempo e ao interesse de cada pessoa. Há espaço para quem busca sofisticação e para quem busca apenas uma boa bebida em momentos prazerosos. Há espaço para todos.

No fim das contas, o mais importante é isso: que o vinho cumpra seu papel essencial de ser uma forma de prazer, de convivência e de celebração da vida.

Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, que estudo continuamente e que segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem; basta procurar!

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Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal

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