Tabelas de safras e avaliações de vinho: quais as limitações?

Opiniões de críticos e tabelas de safras podem ser úteis e muito bem usadas, desde que o bom senso prevaleça. Por outro lado, tomar sua decisão de que vinho tomar somente de acordo com uma leitura fria de notas e avaliações de safra pode ser um erro. Como conciliar estas duas visões?

Não são poucas as situações nas quais há discordância significativa entre a avaliação de uma safra ou vinho em particular, mesmo considerando críticos muito reconhecidos. Vale lembrar, que, ao menos na teoria, estes críticos deveriam lançar mão mais de recursos técnicos do que gostos pessoais na avaliação. Mas isso, aparentemente, nem sempre acontece.

Bordeaux 2003

Talvez um dos maiores exemplos desta dicotomia de opiniões seja a comparação das avaliações da safra 2003 do Bordeaux. Mais especificamente a prova de um vinho em particular: Château Pavie 2003. E a controvérsia colocou, de um lado, Robert Parker e, de outro, Jancis Robinson.

Esses dois degustadores altamente conceituados tiveram opiniões muito distintas da safra 2003 deste produtor de classificação Premier Gran Cru Classé. Para Parker, que avaliou o vinho com 95 pontos em sua escala de 100, o vinho representou “um esforço fora da curva” e “mostrou riqueza sublime, mineralidade, delineamento e nobreza”.

Já Jancis foi ainda mais direta, mas em sentido oposto. Ela se referiu ao vinho como “ridículo, mais lembrando um Zinfandel de colheita tardia do que um Bordeaux tinto”. O vinho recebeu apenas 12 na escala de 20 pontos, tradicionalmente mais usada na Europa. Se o ditado diz que “gosto não se discute”, o que fazer em uma hora destas?

Objetiva ou subjetiva?

Mais do que os nomes em particular, talvez este episódio exemplifique a enorme diferença (ao menos considerando a maioria dos críticos) na forma de avaliar vinhos entre norte-americanos e britânicos. Não faltam exemplos nos quais publicações como Wine Spectator (dos EUA) e Decanter (do Reino Unido), parecem comentar vinhos completamente diferentes, quando se referindo ao mesmo cuvée, da mesa safra.

Mas como o consumidor pode “avaliar os avaliadores”? Afinal de contas, impressões tão distintas indicam que, talvez, não tenham sido usados apenas critérios objetivos, mas sim uma certa dose de subjetividade. Por exemplo, cabe a discussão: estes críticos consideram o vinho condizente com seu estilo favorito ou com as características de sua denominação de origem?

Califórnia 2011

Se cuidados devem ser tomados na hora de comparar avaliações de vinhos específicos, o mesmo pode ser aplicado ao julgamento de safras. E um artigo publicado por Eric Asimov, do New York Times, deixa isso evidente. A safra em questão é a de 2011, referente à avaliação dos vinhos do norte da Califórnia.

A colheita 2011 foi muito diferente das demais desta ensolarada região. A primavera foi fria e úmida, atrasando a floração das videiras e o ciclo de amadurecimento das uvas. O verão não foi quente e tempestades pesadas na época de colheita forçaram muitos produtores a colher uvas mais cedo. E os críticos e os produtores reagiram a isso.

James Laube, colunista da Wine Spectator, se referiu a 2011 como “a safra mais condenável em, talvez, 15 anos”. Usando sua escala de 100 pontos, a publicação classificou a safra com 86 pontos, a única no norte da Califórnia entre 2006 a 2016 com nota abaixo de 94. Já a Wine Advocate, publicação na época conduzida por Robert Parker, deu uma nota 82. Mesmo produtores mostraram sua preocupação: “Eu nunca vi uma safra mais difícil”, disse a Cathy Corison, se referindo a 2011.

E os vinhos?

Apesar de todas estas dificuldades, os vinhos, ao menos aqueles degustados por Asimov, se mostraram de grande qualidade. Ele, todavia, concentrou sua prova somente nos vinhos de produtores de alta gama, como Corison, Ridge e Inglenook. Para o colunista do New York Times, grandes produtores, muitas vezes, identificam a fórmula certa, mesmo nas situações mais difíceis.

Além disso, ele ressalta a distância entre a qualidade dos vinhos e a sabedoria convencional sobre 2011 no norte da Califórnia. Este exemplo evidencia as limitações das classificações de safra e as possíveis consequências para os consumidores que seguem isso à risca.

Mais do que analisar somente a tabela de safras, conhecer bem o produtor e entender como eles superam estes momentos difíceis podem fazer a diferença. E o melhor de tudo: safras “mal avaliadas” abrem oportunidades para barganhas, vinhos de qualidade a preços mais baixos, ou seja, de excelente custo-benefício.    

Fontes: How to Think About Wine Vintages, The New York Times; Robinson, Parker have a row over Bordeaux, The Chronicle

Imagem: Arek Socha via Pixabay

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *