Não são poucos os críticos e as publicações especializadas que avaliam e classificam os vinhos em uma escala quantitativa. Na Europa (sobretudo no Reino Unido), uma parte considerável dos críticos ainda adota uma escala de até 20 pontos, mas o modelo mais adotado mundialmente é o que avalia os vinhos em uma escala de até 100 pontos, principalmente por conta da influência do crítico norte-americano Robert Parker, que lançou este conceito em 1978.
Nem vamos entrar aqui no delicado assunto da relevância de um sistema que resume, em apenas um número, todas as múltiplas características de um produto complexo, como o vinho. Ler que um vinho recebeu nota 92 não traz qualquer informação sobre suas qualidades, seus defeitos ou mesmo sobre o estilo. Mas isso é assunto de outro artigo.
Mas como funciona esta escala? Vamos primeiro analisar a descrição “teórica” das duas publicações que mais contribuíram para globalizar este conceito: a Wine Advocate, do já mencionado Robert Parker, e a também norte-americana Wine Spectator. A escala de Robert Parker, de acordo com a descrição do seu site (que, aliás, não é mais dele; já foi vendido em 2012 a um grupo de investidores asiáticos e, posteriormente, para o Guia Michelin), vai de 50 a 100 pontos. Literalmente usando a descrição dele, os vinhos recebem classificação de acordo com os seguintes critérios:
Wine Advocate/Robert Parker
- 96-100: Um vinho extraordinário, de caráter profundo e complexo, exibindo todos os atributos esperados de um vinho clássico de sua variedade. Vinhos deste calibre valem o esforço especial para encontrá-los, comprá-los e consumi-los.
- 90 – 95: Um vinho excepcional de grande complexidade e caráter. Em suma, são vinhos fantásticos.
- 80 – 89: Um vinho pouco acima da média para muito bom, exibindo vários graus de finesse e sabor, bem como caráter sem falhas perceptíveis.
- 70 – 79: Um vinho médio com pouca distinção, porém bem feito. Em essência, um vinho simples e inócuo.
- 60 – 69: Um vinho abaixo da média, com deficiências perceptíveis, como acidez excessiva e/ou tanino, ausência de sabor ou possivelmente aromas ou sabores sujos.
- 50 – 59: Um vinho considerado inaceitável.
Wine Spectator
A Wine Spectator também divulga em seu site como chega à sua pontuação, também dentro de uma escala de 50 a 100:
- 95-100: Clássico, um ótimo vinho
- 90-94: Excelente, um vinho de caráter e estilo superior
- 85-89: Muito bom, um vinho com qualidades especiais
- 80-84: Bom, um vinho sólido e bem feito
- 75-79: Medíocre, um vinho potável que pode ter pequenas falhas
- 50-74: Não recomendado
Convergência?
Olhando as duas descrições lado a lado, a partir dos 90 pontos, as escalas parecem bastante próximas. Só entram neste seleto clube os vinhos que realmente se diferenciam; “muito bom” é pouco para estes vinhos que, pelos descritivos acima, realmente fazem a diferença.
A distinção entre as duas escalas, portanto, encontra-se no meio e, sobretudo, na parte inferior da classificação. Se, para Parker, um vinho de 70 pontos é simples, mas bem feito, para a Wine Spectator ele é pior que medíocre; possivelmente é melhor beber água. Mas não vamos nos preocupar com isso, pois, na prática, achar um vinho assim classificado é mais difícil do que encontrar um político honesto.
Dando notas
E no dia a dia, como funciona isso? Na prática, é muito raro encontrar um vinho classificado por estas publicações com menos de 80 pontos. Não me pergunte por que a escala teórica começa em 50, mas, na prática, o que realmente vemos é uma forma de avaliação com seu ponto mais baixo em torno de 80 pontos.
E isso não vale somente para os críticos, mas principalmente, com raras exceções, para os degustadores não profissionais que gostam de pontuar os vinhos que degustam. De forma geral, é raro achar vinhos acima de 95 pontos e muito raramente são vistos exemplares abaixo de 80. Portanto, falamos de uma escala, na verdade, de 15 a 20 pontos (esta última quando o pessoal tira o escorpião do bolso e traz aquele vinho inesquecível).
Usar a escala ou ser “educado”?
Mas, mesmo nessa escala tão restrita, ainda há muita polêmica. Outro dia fui a uma degustação para uma revista especializada e, às cegas, de vinhos best buy. Em resumo, são aqueles vinhos de entrada das vinícolas, os mais simples, os mais baratinhos. São aqueles que, até pelo maior volume de produção, acabam sendo mais populares nas gôndolas dos supermercados.
Tive a “ousadia” de dar 78 pontos (obviamente só revelei a nota após o fim da degustação) a um vinho intragável, aquele que a gente bebe e faz careta, tipo criança comendo jiló. E quase fui linchado, não fisicamente, mas no sentido de receber olhares de desaprovação de alguns, por ter sido tão crítico. Minha média geral dos 36 vinhos degustados ficou na faixa de 86 pontos, dois pontos abaixo do consenso dos demais degustadores e, obviamente, fui tratado com a mesma ironia.
Pelas descrições dos críticos mencionados acima, os vinhos, na média, teriam sido: “muito bons, vinhos com qualidades especiais” ou “vinhos pouco acima da média, para muito bons, exibindo vários graus de finesse e sabor, bem como caráter, sem falhas perceptíveis”. Nada mal para vinhos de entrada, na faixa de preço entre R$ 80 e R$ 170. Nestas horas fico pensando: quais seriam as notas de algumas pessoas para aqueles vinhos mais raros, de grandes safras, dos mesmos produtores.
Subjetiva ou objetiva?
Este exemplo prova apenas um ponto: há muita subjetividade neste processo de pontuação. Por mais que se busque um consenso ou um padrão comum, é complicado chegar a uma classificação que agrade a todos. Vários fatores acabam influenciando nossa avaliação, desde a “litragem” de cada um, a qualidade média dos vinhos que bebemos fora das degustações, nosso humor na hora de degustar e mesmo gostos pessoais (o que não deveria acontecer em uma degustação objetiva).
Em resumo: não se apegue tanto a estes conceitos, mesmo que você participe de degustações mais formais, com avaliação por meio de uma escala de notas. Cada um terá algum argumento relevante para defender seu ponto de vista.