Last Updated on 3 de junho de 2025 by Wine Fun
O vinho acompanha a humanidade há pelo menos 25 séculos. No acervo do Museu Nacional da Geórgia, há um jarro de nove litros que registra uma das primeiras evidências da existência da bebida. Com data estimada entre 5.400 e 5.000 a.C., o recipiente contém resíduos de suco de uva e vinho, além de traços de resina – uma substância utilizada na conservação do produto em tempos antigos.
No chamado “Velho Mundo”, a produção de vinho consolidou-se como expressão da identidade regional. Os famosos “vinhos de terroir” refletem as características naturais e culturais do lugar onde são produzidos, baseando-se no uso de uvas autóctones e em métodos de vinificação transmitidos por gerações. A partir da Idade Média, cada região desenvolveu um estilo próprio, geralmente alinhado à sua gastronomia. Assim, vinho e comida tornaram-se parte inseparável de uma mesma cultura.
Ciência e modernidade no vinho
Há menos de um século, a ciência passou a influenciar de forma mais sistemática a vitivinicultura. A partir da década de 1960, a Universidade da Califórnia (UC Davis) começou a aprofundar os conhecimentos sobre o tema, integrando disciplinas como geologia, agronomia e microbiologia. Técnicas tradicionais passaram a ser compreendidas, otimizadas e reproduzidas com base em evidências científicas.
Na coluna publicada em 15/05/2024, aqui no Winefun, foi relatado o caso de uma vinícola francesa que utilizou inteligência artificial (IA) para desenvolver um vinho do zero. O resultado? Um vinho típico da região onde foi produzido — sem grandes surpresas. Isso não espanta: o vinho continua sendo, majoritariamente, um produto tradicional e a ferramenta apenas refletiu isso. Ainda assim, inovações tecnológicas estão surgindo e se disseminando, especialmente no campo.
Agricultura de precisão e sensores inteligentes
O avanço tecnológico no campo é evidente, e a viticultura não ficou de fora. Um bom exemplo foi a Agrishow 2025, realizada em Ribeirão Preto, onde soluções, que já são largamente utilizadas na viticultura, como drones, sensores de umidade e temperatura foram destaque. Essas tecnologias permitem o monitoramento em tempo real das condições do vinhedo, como pragas, doenças e o grau de maturação das uvas – que, como se sabe, não amadurecem uniformemente.
A técnica da poda invertida, já uma inovação climática por si só, ganha ainda mais eficácia quando aliada à análise de dados coletados por sensores. A produção torna-se mais precisa, sustentável e adaptada às condições específicas de cada vinhedo.
Dentro da vinícola: fermentações controladas por algoritmos
A fermentação do mosto, processo em que as leveduras consomem o açúcar do suco da uva e o transformam em álcool e gás carbônico, sempre foi algo natural e espontâneo. Hoje, a tecnologia permite o uso de leveduras selecionadas por meio de análise genética, muitas delas derivadas de cepas nativas. Há também iniciativas em que algoritmos de IA ajudam a prever o perfil aromático do vinho, baseando-se nas características da uva e nas condições de fermentação.
Inteligência artificial a serviço do vinho
A figura do sommelier surgiu na Idade Média. Era o carroceiro encarregado do transporte do vinho — e responsável por prová-lo para garantir que não estava envenenado. Curiosamente, o ritual de provar o vinho ainda persiste, embora hoje o objetivo seja verificar defeitos.
Atualmente, o papel do sommelier tem se transformado. Em muitos restaurantes, o ritual da prova foi simplificado, e seu foco passou a ser a curadoria da carta de vinhos e o auxílio ao cliente na escolha. Chatbots e sistemas de recomendação personalizados com base em IA já são capazes de sugerir rótulos conforme as preferências do consumidor. Não é difícil imaginar um futuro em que vinhos sejam “customizados” com base em dados sensoriais.
Claro, o trabalho do sommelier vai além — envolve conhecimento técnico, sensibilidade e hospitalidade. No entanto, há uma necessidade crescente de adaptação. Por curiosidade, vale a pena perguntar à sua IA de confiança qual vinho escolher para acompanhar um jantar a dois com pratos à base de atum e filé-mignon. Melhor ainda se a pergunta especificar um restaurante que divulga o menu e a carta de vinhos.
Tradição e inovação devem andar juntas
Não há como remar contra a maré. A tecnologia deve ser encarada como aliada da cultura do vinho, não como ameaça. O papel do enólogo permanece insubstituível, mas agora ele dispõe de ferramentas poderosas para aprimorar sua arte. O mesmo vale para o sommelier, que precisa repensar sua atuação em um cenário em que o “tinto com carne, branco com peixe” já não é suficiente.
As inovações tecnológicas já alteraram profundamente o cenário da viticultura. Os tempos idílicos de um vinho puramente “de lugar” ficaram para trás. Hoje, uma nova safra de inovações está em curso, com impactos ainda não totalmente compreendidos.
O vinho, que antes era feito apenas de tempo, solo e alma, agora também é feito de dados.
Renato Nahas é um grande apreciador de vinhos que adora se aprofundar no tema. Concluiu as certificações de Bourgogne Master Level da WSG, e também de Bordeaux ML. É formador com homologação pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS e Spanish Wine Specialist – SWS.. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWS e CWS, este último pela Society Wine Educators.
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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal