Transparência: é hora dos rótulos de vinho trazerem mais informações sobre ingredientes e processos?

Uma tendência que parece inexorável é a busca por maior transparência quando falamos de alimentos e bebidas. Atualmente, os fabricantes de praticamente todos os alimentos são obrigados a informar nos contra-rótulos de suas embalagens todo o tipo de informação sobre seus produtos. Isso vai desde os ingredientes até informações nutricionais.

Porém, o vinho aparece como uma exceção. Não há obrigatoriedade de divulgação detalhada deste tipo de informação nos rótulos, apenas algumas informações básicas, como grau de álcool ou presença ou não de sulfitos. São raros os produtores que se dão ao esforço de trazer informações mais detalhadas. Todavia, isso deve mudar em breve, ao menos na Comunidade Europeia (CE).

Novos rótulos na Europa

Informações muito mais detalhadas possivelmente serão obrigatórias para que um vinho possa ser vendido na Comunidade Europeia, provavelmente já a partir do início de 2023. E esta mudança conta com o apoio dos produtores europeus de vinho, representados pelo Comité Européen des Entreprises Vins (CEEV).

Desde 2017, esta associação de produtores, sediada em Bruxelas, vem considerando a questão da rotulagem do vinho. E parece que agora a CEEV convenceu tanto os produtores quanto os órgãos regulatórios da CE que uma mudança é necessária. Assim, tanto a listagem de ingredientes quanto a rotulagem nutricional (calorias, por exemplo) devem entrar em vigor.

E esta obrigação não vale apenas para os vinhos produzidos na Europa, mas para todos aqueles comercializados no Velho Continente. Portanto, a expectativa é que se tornem um padrão mundial, pois a Europa segue como o maior mercado de vinhos do mundo e poucos produtores ou regiões de destaque podem abrir mão deste mercado.

Quais informações

A proposta da CEEV contempla dois novos rótulos. O primeiro seria o rótulo usado por quase todos os alimentos comercializados, com informações nutricionais, porém possivelmente simplificado, com destaque para a quantidade de calorias. O segundo traria as informações sobre os ingredientes usados. E isso iria desde uvas até aditivos utilizados na produção, como ácido tartárico, sulfitos, conservantes e outros produtos, com suas respectivas quantidades.

Considerando a quantidade de idiomas na CE (são 24 no total) e o limitado espaço disponível no contra-rótulo, a proposta deve passar por um e-rótulo eletrônico (como um QR code, por exemplo) através do qual o consumidor possa facilmente acessar estas informações.

Aumento na transparência?

A proposta pode melhorar a transparência, porém ainda deixa muitas áreas cinzentas. O motivo é que, possivelmente, não incluirá a obrigatoriedade de divulgação das técnicas de vinificação utilizadas. Por exemplo, algumas técnicas extremamente intervencionistas de filtração ou estabilização não seriam citadas, pois não deixam aditivos no vinho.

Da mesma forma, é sabido que alguns produtores, sobretudo nos Estados Unidos e Austrália, adicionam água a seus vinhos. O objetivo é reduzir a graduação alcoólica. Porém, para evitar que esta informação conste em seus rótulos, podem passar a adotar técnicas como osmose reversa ou spinning cones para atingir o mesmo objetivo, porém sem a obrigatoriedade de divulgação.

De qualquer forma, o aumento na quantidade de informações pode ser encarado como algo na direção correta, embora sem a profundidade necessária para que o consumidor tenha ciência dos ingredientes e técnicas usados na elaboração dos vinhos. Agora, é aguardar que estas propostas sejam aprovadas e torcer para uma transparência nos rótulos ainda maior em um futuro não tão distante.  

Fontes: Wine Searcher; Jancis Robinson

Imagem: eendeckel via Pixabay

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