Do ponto de vista das características naturais do terroir, Barolo e Barbaresco são denominações de origem de muita diversidade. Além de uma enorme variedade de exposições e altitudes, há também uma significativa variação no tipo de subsolo. Embora sejam todos de origem sedimentar, muda bastante a textura e composição, com significativa diferença nas características dos vinhos produzidos. Por muito tempo no fundo do mar, gradualmente estes terrenos emergiram em função do movimento das placas tectônicas, começando pelas áreas mais ao sul.
A área onde hoje fica Barolo e Barbaresco (assim como outras regiões vinícolas importantes, como a Borgonha) foi fundo de mar por um período relativamente longo de tempo. Isso ocorreu entre 30 e 2,5 milhões de anos atrás. Chamado de Bacino Terziario Ligure-Piemontese, este braço de mar do Mediterrâneo era delimitado pelos Alpes e chegou a ter profundidade de centenas de metros.

Diferentes subsolos
Por conta do longo período como fundo de mar, a acumulação de materiais sedimentares foi impressionante, superando em alguns casos cinco quilômetros de profundidade. Já a proximidade com os Alpes acabou trazendo uma composição particular de minerais, com alta proporção de magnésio e potássio.
Porém, a acumulação de sedimentos no fundo deste braço de mar variava bastante, dependendo de fatores como profundidade, clima, correntes submarinas e distância da costa. Por exemplo, em fases mais tranquilas havia maior concentração de materiais mais leves, como limo e argila. Já a proporção de areia aumentava em fases turbulentas. Por conta disso, houve a criação de diferentes formações geológicas, que até hoje podem ser observadas nos subsolos da região de Langhe. De forma geral, se consideram cinco formações principais, dos quais a mais comum pode ser dividida em três grupos distintos. Vale a pena analisar cada uma delas de forma individual e por ordem cronológica.

Formazione di Lequio
Das formações presentes na região, é a mais antiga em termos de idade geológica (Serravaliano), ficando entre 13,8 e 11,6 milhões de anos. Neste tempo, a área era coberta por um mar de profundidade entre 300 e 400 metros, gerando diversos extratos alternados de margas (que corresponde ao limo do fundo do mar compactado) e areia. Mostra uma alta concentração de calcário (a mais alta dentre as cinco), com média capacidade de retenção de água, sendo um solo que permite vigor médio a baixo para as videiras.
Representado pela letra B no mapa acima, sua maior incidência na área de Barolo fica na parte sul-oriental, sobretudo ao sul da comuna de Serralunga d’Alba. Alguns vinhedos de destaque com este subsolo são Francia, Briccolina, Vignarionda, Lazzarito e Gabutti. Em Barbaresco, se concentra na parte sul, em Menzione Geografica Aggiuntiva (MGAs) como Rizzi, Pajoré e Bricco di Neive.
Marne di Sant’Agata
Ainda dentro da época Mioceno, a idade Tortoniana é a que deixou presença mais marcante nos subsolos de Barolo e Barbaresco. Há cerca de 10 milhões de anos, o braço de mar já mostrava menor profundidade (em torno de 200 metros), o que mudou as características geológicas. Por conta de sua diversidade, porém, é comum separar esta formação em três grupos distintos: típicas, laminadas e arenosas.
A menos comum entre as três, Marne di Sant’Agata Tipiche é um subsolo com alta proporção de limo, com pouca areia (entre 10% a 15%) e concentração média de calcário. Em geral são colinas suaves, com média capacidade de retenção de água e grande vigor, gerando solos mais ricos e pesados. Algumas das MGAs com alta com esta formação são Sorano, Fontanafredda, Bricco Ambrogio, Serra dei Turchi, Parussi, Montebello, além de partes de Cannubi, Brunate e Sarmassa
Com maior quantidade de argila e presença abundante de fósseis, as Marne di Sant’Agata Laminate têm concentração média de calcário, alta capacidade de retenção de água e muito vigor. São terrenos de boa adaptabilidade a condições secas, por conta da maior concentração de argila. Alguns dos melhores vinhedos tanto de Barolo (Monvigliero, Massara, San Lorenzo, Rocchetevino, Rocche dell’Annunziatta, Cerequio, Fossati, Ravera) como Barbaresco (Asili, Martinenga, Rabajá, Ronchi, Montestefano, Montefico, Gallina e Albesani) contam com este subsolo.
Por fim, as Marne di Sant’Agata Sabbiose são aquelas com maior concentração de areia (entre 25% a 30%). Contam também com alta proporção de calcário e capacidade média de retenção de água, com médio vigor. A lista de Crus de alta gama com este subsolo é também ampla, como Bussia, Villero, Monprivato, Bricco Boschis, Mosconi e parte de Annunziata e Cannubi (Barolo), além de Basarin, Currà, Cottá, Marcorino, Serragrilli, Serraboella, Rivetti e Canova (Barbaresco)
Arenarie di Diano
Também criadas na idade Tortoniana, as Arenarie di Diano provêm possivelmente de canyons submarinos que foram preenchidos por avalanches de areias costeiras. Por conta de sua maior resistência à erosão, estes solos de arenito hoje estão presentes somente em partes mais altas, inclusive nos vilarejos medievais ali construídos por questão de segurança.
Com cerca de 50% a 60% de areia e alta concentração de fósseis, tem baixa concentração de calcário, baixa capacidade de retenção de água e vigor irregular (alto em períodos chuvosos e muito baixo em épocas secas). Dentre as MGA de maior destaque estão Rocche di Castiglione, Gramolere e parte de Perno.
Formazione di Vene di Gesso
Há cerca de 6,5 milhões de ano, na idade Messiniana, o Mediterrâneo sofreu um evento catastrófico, com o fechamento do estreito de Gibraltar. Isso levou a um processo de evaporação e salinização intensa, criando lagunas salinas sem vida animal ou vegetal. Resultou em bancadas de cristais de gesso, com média concentração de carbonato de cálcio e alta capacidade de retenção de água. Ocorre somente em partes de La Morra e Verduno, como nas MGAs Brandini e parte de Rocche dell’Olmo e Rivarocca. Curiosamente, é o subsolo favorito da variedade Perlaverga, por conta de seu vigor muito alto.
Formazione di Cassano-Spinola
Encontrada basicamente em La Morra e Verduno, é uma formação composta por duas unidades diversas: Marne di Sant’Agatha Laminate e areia (porém sem qualquer calcário), gerando um subsolo ácido (pH entre 5 a 5,5), o único não alcalino da região. Dependendo da área, são subsolos com baixa a média concentração de calcário, média a baixa retenção de água e muito vigor. Entre os vinhedos estão Serradenari (com mais areia), Castagni, Ascheri e Bricco Cogni (mais limo).
Fontes: Barolo e Barberesco Academy Studybook; Consorzio di Tutela Barolo Barbaresco Alba Langhe e Dogliani; Barolo MGA, Alessandro Masnaghetti
Imagem: Canva