Vade retro: as uvas que os degustadores não servem para os amigos

Gosto não se discute. Ou se discute? Todos temos nossas preferências e, quando falamos de vinhos, não poderia ser diferente. De um lado, temos nossas uvas favoritas, aquelas que repetimos constantemente, seja pelo prazer proporcionado, como pela curiosidade de conhecer diversas expressões desta variedade, por produtores ou terroirs diferentes.

De outro, porém, existem aquelas variedades que a simples menção nos dá calafrios. Seja para os mais aventureiros, aqueles que gostam de provar de tudo, ou para os que já fecharam questão, existem algumas uvas que nos fazem torcer o nariz em desaprovação.  E como chegar a uma lista delas?

Uma pergunta e uma ressalva

Para responder esta pergunta, trouxemos as opiniões de dez degustadores distintos. A pergunta foi: quais são as três varietais que você jamais serviria para um amigo que curte vinho? A pergunta é simples, mas cabe uma ressalva. Foram consideradas apenas variedades de Vitis Vinifera, excluindo, portanto, uvas americanas ou híbridas.

O motivo disso é a percepção praticamente unânime de que as uvas não europeias, ou seja, todas as espécies que não sejam exclusivamente Vitis Vinifera, são inferiores para a elaboração de vinhos. Assim, uvas americanas ou híbridas (apesar de serem muito populares no Brasil), por não serem capazes de produzir vinhos comparáveis, devem ser analisadas em uma categoria à parte.

Gostos pessoais e generalização

Algumas observações antes de partir para as variedades escolhidas. Em primeiro lugar, são usados critérios inteiramente subjetivos, não há qualquer critério absoluto para definir o que é melhor ou pior em termos de uva. O que existe é uma percepção, baseada em experiências passadas, de quais menos agradaram, de quais ficaram na memória.

Além disso, falar de uma uva que desagrada não significa que todos os vinhos elaborados a partir dela sejam ruins. Existem processos de vinificação que podem alterar quase que totalmente o perfil da variedade. Uvas brancas, por exemplo, podem ser vinificadas com suas cascas, resultando em um vinho chamado laranja ou de maceração prolongada. E o resultado pode ser completamente distinto do que na vinificação tradicional.

Nosso time

Decidimos escolher um grupo heterogêneo de degustadores, todos com profundos conhecimentos técnicos, porém com gostos e experiências distintas. Jornalistas do vinho, educadores, produtores, apreciadores, todos com uma longa experiência em degustação de vinhos e participação em diversas confrarias, concursos e julgamentos de vinho.

Na ordem alfabética, considerando o sobrenome, votaram nesta enquete: Roberto Acherboim, Alexandre Bronzatto, Álvaro Cézar Galvão, Fabio Miolo, Renato Nahas, José Luiz Pagliari, Paulo Sampaio, Alessandro Tommasi, Walter Tommasi e Aguinaldo Zackia Albert.

Uma disputa acirrada

Duas uvas disputaram até o último voto a condição não tão honrosa de liderar esta lista. E a vencedora, com oito votos, foi a Pinotage. Esta variedade, plantada quase que exclusivamente na África do Sul, é um cruzamento entre a Pinot Noir e a Cinsault, uma das uvas usadas nos cortes do vale do Rhône, na França, incluindo nos vinhos da denominação Hermitage. Daí o nome PINOt + hermiTAGE.

Mas quais os motivos desta percepção ruim? Dois fatores ajudam a explicar: primeiro por ser considerada de baixa acidez, que faz seus vinhos parecerem cansativos e difíceis de beber. Além disso, é uma variedade que traz características distintas no olfativo, com muita gente se lembrando de acetona ou borracha.

Pódio equilibrado

No segundo lugar, com sete votos, ficou a Primitivo. Esta uva muito popular na região da Puglia, na Itália. é exatamente a mesma variedade conhecida como Zinfandel nos Estados Unidos. Mas sua origem é na Croácia, onde é chamada Crljenak Kaštelanski. É difícil apontar os principais motivos por que ela desagrada a tantos, mas possivelmente o fato de ser cultivada em locais de alta temperatura não ajuda, já que isso prejudica a acidez e eleva o seu teor de açúcar e álcool.

O pódio foi completado pela Torrontés, uva branca de elevada presença aromática, muito popular na Argentina. Tendo recebido cinco votos, esta variedade que resultou do cruzamento natural entre Listán Prieto e Moscatel de Alexandria, ficou no primeiro posto entre as uvas brancas.

Outras variedades e mais uma ressalva

Ordenadas inicialmente por número de escolhas e depois por ordem alfabética, também foram eleitas outras variedades. São elas: Carmenére (quatro votos), Silvaner (dois votos) e Müller-Thurgau, Negroamaro e Vinhão (todas com um voto).

Apesar desta lista trazer uvas que não agradem a um grupo de degustadores experientes, nada é absoluto. De um lado, experiências ruins do passado influenciam a disposição que existe para provar novamente vinhos elaborados a partir destas variedades.

Por outro, porém, considerando as grandes mudanças que vem ocorrendo na vinicultura mundial, as portas estão sempre abertas. Nada como algum novo produtor ou método de elaboração que nos faça conhecer mais e, quem sabe, mudar de ideia.

Imagens: Ryan McGuire via Pixabay

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *