Vale a pena apostar em produtores sem consistência em seus vinhos?

A vida é feita de escolhas. Um exemplo é quando vamos a um restaurante. Embora seja ótimo visitar locais diferentes para conhecer novos sabores e texturas, todos nós temos aquele grupo de restaurantes que nos toca mais fundo. Em geral, além da qualidade da comida e do serviço, são locais onde nos sentimos confortáveis, onde existe consistência, mesmo quando o menu muda. “Hoje quero comer bem” é o pensamento mais recorrente quando optamos por voltar a um restaurante, com aquela sensação de quase certeza de que a experiência será prazerosa.

Mas o que acontece quando esta experiência acaba ficando abaixo do esperado? Ou seja, a comida ou o serviço não agradaram. No meu caso, busco entender o motivo. Será que mudou o chefe ou o pessoal de salão? Ou algo com os ingredientes? Em geral, costumo colocar isso na balança e dar “uma nova chance”, mas sempre com um “porém”. Se for para correr riscos, prefiro experiências com novos restaurantes. Na minha visão, quando pensamos em nossos “favoritos”, consistência é fundamental.

E no vinho?

Levando em consideração a inerente diversidade nos vinhos, meu pensamento é o mesmo: consistência é fundamental. Sim, vinhos contam com um diferencial extra (safra) que os fazem normalmente muito mais diversos e sedutores do que outros produtos que consumimos. Aliás, um dos fascínios do vinho é este – a capacidade de provar criações do mesmo produtor a partir de uvas do mesmo terroir, porém com condições de safra diferentes.  

Diversidade, porém, não significa variações extremas na qualidade do vinho. E é este o ponto que quero aprofundar nesta coluna. Até que ponto variações de qualidade são aceitáveis, sobretudo quando falamos de vinhos de maior valor, elaborados por produtores que já ganharam fama e grande número de “seguidores”?

As duas pontas do debate

Como escrevi acima, creio que o vinho de um mesmo produtor e do mesmo terroir deve variar, mas nem tanto. Assim, dois extremos me preocupam: vinhos quase que homogêneos e aqueles totalmente heterogêneos. No primeiro caso, isso geralmente acontece no que chamo de “produtores industriais”. São aqueles que exageram no uso de técnicas de vinificação para produzir “vinhos seriais”, garrafas que sempre entregam o mesmo, apesar da variação de safra.

Um exemplo claro é o segmento de vinhos de custo mais acessível e grande volume, onde, geralmente, a técnica de vinificação fala mais alto que o terroir. Porém, isso pode se estender também a produtos de maior valor agregado, como, por exemplo, os Champagnes de entrada de Maisons de grande porte. Faça chuva ou faça sol, é difícil ver grandes diferenças entre os vários lançamentos.

Já do lado exatamente inverso, aparecem aqueles produtores nos quais a heterogeneidade extrema é regra, muitas vezes impactando na qualidade dos vinhos. Se no caso anterior o uso excessivo de técnicas de vinificação era o problema, geralmente aqui é o contrário. Por conta de posições que chegam a ser dogmáticas, muitas vezes a qualidade e a integridade do vinho acabam ficando em segundo plano.

Dogmatismo versus qualidade

Aí o debate entra nos chamados vinhos naturais. Confesso que, mesmo sendo um partidário do cultivo sem substâncias tóxicas sintéticas nos vinhedos e baixa intervenção na vinificação, alguns destes vinhos me cansam. Sim, em algumas circunstâncias são puros, equilibrados e deliciosos, mas em outras chegam ao ponto de irritar pela quantidade de falhas (como acidez volátil, mousiness, etc.). Para muitos produtores, alguns dos quais quase figuras lendárias, falta consistência.

Para uma pessoa que gosta de descobrir novos produtores e vinhos, a falta de consistência pode ser aceitável em produtores menos experientes. Elaborar vinhos de qualidade exige conhecimento, dedicação e, boa parte das vezes, traquejo. Porém, na minha opinião, um produtor já estabelecido, com vinhos caros e raros, assume riscos desnecessários ao trilhar o caminho de zero intervenção. Se o extremo de intervir demais pode tornar um vinho pouco interessante, deixar de intervir quando necessário pode torná-lo impossível de beber.

Deste modo, assim como no caso dos restaurantes, vejo um imenso valor na consistência. Não dá para pagar uma fortuna por uma garrafa de vinho de um produtor cult e não conseguir passar da primeira taça, por conta de aromas e sabores que nada têm de puros. Mas isso ocorre com frequência (embora muita gente ainda siga com o moto “é preciso entender a proposta”), o que é difícil de aceitar.

Franqueza, sem modismos

A solução? Para quem pensa como eu, a solução é geralmente simples. Eu deixo de comprar vinhos destes produtores, a não ser que tenha acesso anterior a amostras do mesmo vinho e da mesma safra. Já falando de forma coletiva, nada melhor do que assumir uma postura honesta com estes vinhos. É comum influenciadores e críticos rasgarem elogios aos exemplares de alta qualidade, mas o silêncio em falar de vinhos que não agradaram chega a ser quase embaraçoso.

Obviamente, a percepção do que é um vinho bom ou ruim, assim como a aquela do que é defeito ou qualidade, varia bastante. Mas existem avaliações e percepções que são quase universais. Cabe a quem produz, importa, escreve ou comercializa estes vinhos adotar uma postura mais franca e objetiva, sem cair em radicalismos ou modismos.

Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, um autodidata que segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem, basta procurar!

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Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal

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