Vinho, alcoolismo e câncer: muita discussão e uma nova proposta

Esta semana, a Comissão Europeia lançou as linhas mestras para o plano Europe’s Beating Cancer Plan. O objetivo é delinear uma série de medidas visando contar a incidência de câncer na Europa. E um dos pontos de destaque é combate ao consumo abusivo de álcool, visto como um importante fator de risco para o desenvolvimento desta doença.

Segundo o documento, em 2016 o câncer foi a principal causa de morte atribuível ao álcool. De acordo com estudos científicos, seria responsável por 29% das fatalidades, seguida por cirrose hepática (20%), doenças cardiovasculares (19%) e lesões (18%).

Definição de consumo abusivo

Um ponto importante de discussão diz respeito à definição de consumo abusivo. E isso é algo que afeta diretamente o segmento do vinho, já que não há no documento uma diferenciação entre consumo de vinhos e cervejas, de um lado, e destilados, do outro. Em documentos anteriores, a Comissão Europeia usava o termo “consumo de álcool”, sem incluir a palavra “abusivo”.

A Comissão afirmou que aumentará o apoio aos governos para implementar as melhores práticas e atividades de capacitação para reduzir o consumo abusivo de álcool. Isso inclui uma meta para alcançar uma redução relativa de pelo menos 10% no uso abusivo de álcool até 2025.

Medidas para reduzir o consumo

A Comissão afirmou que revisará a legislação da União Europeia sobre a tributação do álcool e sobre as compras feitas por habitantes da região em outros países do bloco. Por conta da diferença de tributação, é comum na Europa que pessoas se desloquem a outros países para adquirir bebidas alcóolicas. O objetivo é que a legislação permaneça apta para equilibrar os objetivos da receita pública e da proteção à saúde.

Além disso, a Comissão revisará sua política de promoção sobre bebidas alcoólicas. Além disso, propôs uma indicação obrigatória da lista de ingredientes e da declaração nutricional nos rótulos de bebidas alcoólicas antes do final de 2022 e de avisos de saúde (como os existentes, por exemplo, em cigarros) nos rótulos antes do final de 2023.

Colaboração das vinícolas

A CEEV, associação europeia de empresas vinícolas, foi bastante diplomática, afirmando que “expressa seu apoio à iniciativa Europe’s Beating Cancer Plan e seu objetivo geral”. Enfatizou também que “as vinícolas europeias continuarão a colaborar com as instituições da União Europeia para reduzir o uso abusivo do álcool”, disse Jean-Marie Barillère, presidente da CEEV.

Porém, o dirigente ressaltou que “o setor vitivinícola da União Europeia demonstrou, nos últimos 12 anos, seu forte compromisso, através do programa Wine in Moderation, promover o consumo responsável de vinho e reduzir os danos relacionados ao consumo excessivo e irresponsável”.

Consumo moderado

Já Sandro Sartor, chefe da UIV Wine and Health Table e presidente da Wine in Moderation, associação europeia que promove a cultura do consumo consciente e da bebida responsável, se mostrou preocupado. “Estou surpreso ao ler que não é feita distinção entre uso e consumo abusivo neste texto”.

Ele completou afirmando que “Estamos absolutamente convencidos de que o consumo moderado e responsável de vinho, particularmente dentro da dieta mediterrânea e combinado com um estilo de vida saudável, é completamente compatível com uma vida saudável. Como confirmado por inúmeras evidências científicas disponíveis e acessíveis a todos, não parece aumentar o risco de câncer”.

Discussão conceitual

O ponto levantado por Santor é fundamental, já que existe uma enorme diferença entre, de um lado, o consumo moderado e dentro de um contexto cultural e gastronômico com, de outro, o consumo abusivo, sobretudo de destilados. A raiz do problema parece ser definir de forma mais precisa o que seria consumo abusivo, sobretudo considerando as enormes diferenças regionais dentro da Europa.

Esta questão, porém, não é exclusiva da Europa. Recentemente, a África do Sul implementou uma série de medidas para proibir o consumo de bebidas alcóolicas no país, por conta da COVID-19. A justificativa foi de que o consumo abusivo de álcool acaba resultando em uma maior ocupação de leitos hospitalares, em alta demanda por conta da pandemia. O resultado, porém, foi a proibição também do consumo, mesmo que moderado, de vinho, praticamente paralisando e colocando em risco a indústria vitivinícola do país.

Fonte: Europe’s Beating Cancer Plan; WineNews

Imagem: PDPics via Pixabay

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