Essa é uma pergunta que muita gente faz, até mesmo quem já bebe vinhos faz algum tempo. Tampa de rosca é a forma que muita gente se refere no Brasil ao screw cap, uma tecnologia que foi criada na França, mas popularizada pelos países da Oceania, como Austrália e Nova Zelândia.
Além de responder à pergunta do título, vale a pena analisar um pouco a história desta alternativa que vem se popularizando cada vez mais. E também entender os mecanismos que fazem dela uma vantagem em algumas circunstâncias e uma desvantagem em outras.
História do screw cap
O uso da tampa de rosca na indústria de alimentos tem mais de 150 anos. Porém, após uso em destilados já a partir do começo do século XX, foi somente em 1959 que efetivamente chegou ao mundo dos vinhos. Foi criada pela empresa francesa Le Bouchage Mecanique (que pode ser traduzida como “fechamento mecânico”), porém causou pouco impacto inicialmente.
Foram os australianos que, sofrendo com problemas referentes às rolhas de cortiça, decidiram investir de forma mais pesada nesta tecnologia. Os direitos da tecnologia criada pelos franceses foram adquiridos pela Australian Consolidated Industries em 1970. Foi renomeada Stelvin para o mercado australiano, com os primeiros resultados de seu uso sendo divulgados em 1976, em um artigo na publicação The Australian Grapegrower and Winemaker. A conclusão é que eles funcionavam bem, desde que alguns cuidados fossem tomados.
Porém, a popularização definitiva veio com decorrência de uma iniciativa tomada na Nova Zelândia em 2001, com o intuito de popularizar o screw cap. O resultado foi muito favorável, atualmente mais de 90% dos vinhos da Nova Zelândia usam tampa de rosca. E o uso está crescendo rapidamente ao redor do mundo.
Por que usar?
O impulso inicial veio por questões de custo e qualidade. Rolhas de cortiça vem sendo usadas há séculos como a melhor forma de fechamento para vinhos. Porém, dois problemas decorrentes da mesma causa (estamos falando de um produto natural) surgiram. O primeiro é que as rolhas têm imperfeições, e isso pode prejudicar o seu funcionamento. O segundo é custo, mais alto, já que é um recurso natural e finito.
Além disso, rolhas podem resultar em um tipo de contaminação que praticamente inutiliza o vinho. Isso ocorre quando o vinho se apresenta bouchonée, ou seja, infectado por um composto chamado TCA. Este defeito resulta da presença de um fungo que pode estar presente na área de vinificação ou nas próprias rolhas.
A rolha tem origem no sobreiro, uma árvore muito popular em Portugal, na Espanha e no norte da África. A cortiça é retirada da casca desta árvore, que lentamente se regenera após o uso. Boa parte desta cortiça é de alta qualidade e as partes menos nobres custam menos, mas tem mais imperfeições. Ou seja, rolhas de qualidade são mais caras e as mais baratas mostram menos qualidade.
A tampa de rosca, além de mais prática (dispensa o uso de abridor), é mais barata. Se para um vinho vendido a R$ 500 o custo da rolha pode fazer pouca diferença (e nestes vinhos são usadas as rolhas de melhor qualidade), para um vinho de R$ 20 não é o caso. Entre ficar com uma rolha mais barata (e de menor qualidade) e uma tampa de rosca, a opção pela segunda é crescente.
Vantagens e desvantagens
Você já deve ter reparado que, independente se é usada rolha ou tampa de rosca, existe um espaço dentro da garrafa, que é tomado por ar. Isso serve para garantir que exista oxigênio no interior da garrafa, para que ocorram reações químicas com o vinho. Porém, existe uma quantidade certa de oxigênio. Se houver demais, o vinho oxida (pense em uma maçã cortada ao meio, é um processo de oxidação). Caso, por outro lado, houver deficiência, ocorre redução.
A rolha tem como característica permitir que um fluxo pequeno de oxigênio gradualmente penetre na garrafa. Isso permite que estas reações químicas ocorram e o vinho envelheça bem. O grande desafio da tampa de rosca foi reproduzir o processo, já que as versões iniciais evitavam esta troca de gases e resultavam em vinhos reduzidos.
Porém, a tecnologia evoluiu e as tampas de rosca hoje fazem bem este papel, embora testes estejam sendo feitos para ver o efeito no longo prazo, mais do que 20 ou 30 anos. Por outro lado, já ficou provado que elas são plenamente eficientes para vinhos de consumo mais rápido, sendo mais baratas e eliminando a possibilidade de contaminação por TCA.
Rolha ou tampa de rosca?
Do ponto de vista técnico, portanto, não há motivo para achar que a opção por tampas de rosca seja pior. Aliás, podemos dizer que vinhos correm menos riscos ao usarem screw cap, principalmente no caso de rolhas de pior qualidade (embora a tecnologia de rolhas também esteja evoluindo rapidamente).
Por outro lado, se você estiver pensado em comprar um vinho para consumir daqui a vinte anos, talvez tenha algo a pensar. Mas, mesmo para estas situações peculiares, dois pontos merecem atenção. A maioria dos vinhos mais caros da Nova Zelândia já tem engarrafamento com screw cap. Além disso, depois de muito tempo, também as rolhas de cortiça necessitam de troca (procedimento comum em vinícolas que guardam vinhos por tanto tempo) .
Se do ponto de vista técnico não há qualquer motivo para alimentar preconceito com vinhos de tampa de rosca, uma questão fica em aberto. Qual a importância que aquele barulho característico da rolha saindo da garrafa, ou de todo o ritual para a saída dela, tem para você? Abrir uma garrafa com rolha é mais sedutor e divertido. Mas esta é uma escolha sua, do ponto de vista técnico as tampas de rosca não devem nada a ninguém e, de forma alguma, devem ter qualquer associação com vinhos de pior qualidade.
Imagem: Matthias Böckel da Pixabay
COMO ESCOLHER UM BOM VINHO SEJA ELE SECO OU SUAVE
Bom dia Lelio. Excelente sugestão de pauta, iremos trabalhar nela!
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