O vinho tem muita história. E parte dela é difícil de ser documentada, até porque a origem do vinho foi possivelmente acidental. É muito provável que algum ancestral nosso deixou uvas em um recipiente que se provou adequado, e isso, juntamente com outras condições do local, permitiu que a fermentação começasse espontaneamente. Daí para frente foi somente copiar e aprimorar o processo.
Mas quando começou a vinificação como conhecemos hoje? Embora livros e documentos do passado possam ajudar neste processo, hoje a ciência conta com ferramentas muito mais poderosas. E boa parte deles está no ramo da arqueobotânica, que explora resíduos vegetais de pesquisas de sítios arqueológicos para saber quais plantas usavam no passado.
Como funciona?
A arqueobotânica usa um conjunto de técnicas bastante completo para tentar explicar a interação entre homens e plantas no passado. Por exemplo, para saber se havia presença de uvas em um determinado local em um certo período de tempo, é só identificar evidências físicas, como sementes, por exemplo. Foi o que foi feito para identificar o apogeu e queda da vinicultura no Império Bizantino.
Obviamente, a interpretação das análises botânicas depende do contexto da presença de evidências, como seu número, estado de preservação (carbonizado, tostado, não carbonizado, e de que parte da planta eles vêm (sementes, cascas, grãos etc.). Por exemplo, em material botânico antigo, sementes podem vir de plantas que foram usadas para consumo.
Além dos macrofósseis, os pesquisadores examinam microfósseis, ou seja, polinizadores, fitolitos e esqueletos de sílica de plantas remanescentes após a morte do organismo. Por fim, vestígios nas paredes de vasos ou ânforas podem também ser investigados, usando métodos de biologia molecular, por exemplo, análises de DNA.
E quais as evidências para o vinho?
Atualmente, considera-se que os primeiros vestígios de produção de vinho foram encontrados em vasos cerâmicos, nos quais foram identificados os resíduos de ácido tartárico (que aparece em grande quantidade somente nas uvas). Os vasos, datados entre 6.000 e 5.800 anos antes de Cristo, foram descobertos nos sítios arqueológicos de Shulaveris Gora e Gadachrili Gora, na Georgia.
Os achados foram corroborados pela reconstrução climática e ambiental, juntamente com evidências arqueobotânicas, incluindo pólen de uva, amido e restos epidérmicos associados a um frasco de tipo e data semelhantes.
O Indiana Jones do vinho
O autor da descoberta, que mudou a cronologia do vinho em cerca de 1.000 anos, foi o professor de antropologia da Universidade da Pensilvania Patrick E. McGovern. Ele, que é chamado por muitos de o “Indiana Jones do vinho” e sua equipe usaram técnicas como espectrometria infravermelha, cromatografia líquida e testes químicos para mostrar que humanos já produziam vinhos há cerca de 7.800 anos.
Portanto, na próxima vez que você tomar uma boa taça de vinho, pense que está dando sequência a uma tradição milenar. Beber vinhos começou pelo menos 3.200 anos antes da construção das Pirâmides do Egito, 4.800 antes do Templo de Salomão em Jerusalém ou 5.800 antes do Coliseu de Roma. E é muito provável, pelo menos nos dois últimos, que a festa de inauguração tenha sido regada por bons vinhos.
Fontes: Early Neolithic wine of Georgia in the South Caucasus, Patrick McGovern et al, Roman Wine in Barbaricum. Preliminary Studies on Ancient Wine Recreation, Iwona Feier, Aleksandra Migała, Marta Pietruszka e Mateusz Jackowski