Vinho e os Presidentes dos Estados Unidos: casos e curiosidades

Se a eleição nos Estados Unidos movimentou o mundo nas últimas semanas, ela pode ter implicações também para o mundo do vinho. Por exemplo: o que a nova administração democrata irá fazer com as sobretaxas impostas pelo governo atual sobre vinhos franceses, alemães e espanhóis?

Mas o envolvimento dos presidentes norte-americanos com o vinho tem uma longa história. Um livro lançado nos Estados Unidos recentemente, chamado Wine and the White House, traz um interessante histórico das práticas relacionadas aos vinhos dos predecessores de Joe Biden.

Falência por causa de tanto vinho?

Talvez tenha sido Thomas Jefferson, o terceiro presidente dos Estados Unidos, aquele mais entusiasta com vinho. Construiu uma adega na Ala Oeste da Casa Branca, que comportava até 20.000 garrafas de sua coleção pessoal. Suas viagens diplomáticas em 1787 para a Itália e França incutiram nele uma enorme paixão pelos vinhos europeus.

Os vinhos favoritos de Jefferson parecem ter sido safras de alta qualidade de Bordeaux, Borgonha e Sauternes. O terceiro presidente também elogiou o Hermitage branco, que supostamente chamou de “o vinho favorito do mundo, sem exceções”. Infelizmente, porém, a obsessão por vinhos afundou Jefferson em dívidas enormes, deixando-o quase falido na hora de sua morte.

Agradando convidados

O livro traz mais de 100 menus de jantares presidenciais das últimas seis décadas, o que mostra a preferência dos ocupantes do cargo. E, muitas vezes, eles traziam combinações curiosas para agradar seus convidados. Em um jantar para Winston Churchill, a Casa Branca harmonizou costela com Champanhe, ao invés de um tinto encorpado, como seria de se esperar. O primeiro-ministro britânico era um grande apreciador das borbulhas francesas e seria autor da frase “No sucesso você merece Champagne, e na derrota você precisa dele”.

Foi Bill Clinton, porém, quem contratou o primeiro profissional de vinho da Casa Branca. E também buscou agradar a seus convidados. Em um jantar em 1996 para a presidente irlandesa Mary Robinson, o cardápio destacava somente vinícolas cujos ancestrais dos proprietários haviam emigrado da Irlanda.

Preferências ao longo das décadas

O vinho francês era a norma para os presidentes Dwight Eisenhower, John F. Kennedy e Richard Nixon. Mesmo quando os vinhos da Califórnia ganharam a atenção do público no início da década de 1960, Kennedy não se arriscou quando recebeu o primeiro-ministro soviético Nikita Khrushchev, em Viena, servindo um Mouton Rothschild 1953.

Mas nos últimos anos, porém, os vinhos norte-americanos vêm dominando a seleção. Se esta decisão, de um lado, evidencia uma valorização do produtor dos Estados Unidos, por outro, não é isenta de críticas. Quando Barrack Obama serviu um Cabernet Sauvignon Quilceda Creek em um jantar em 2011 para o presidente chinês Hu Jintao, a questão foi o valor gasto. Na época, o vinho era vendido por US$ 400, o que alguns consideraram extravagante durante uma recessão.

E o primeiro presidente dono de vinícola?

Curiosamente, o primeiro presidente dos Estados Unidos de posse de uma vinícola durante seu mandato foi Donald Trump. Embora tenha um histórico de promover seus diversos hotéis e clubes de golfe quando na Presidência, o livro indica que ele ainda não serviu nenhum de seus vinhos, produzidos na Virgínia, em um evento oficial da Casa Branca.

E, mesmo no encontro com um mandatário estrangeiro com o qual não divide simpatias, o presidente francês Emmanuel Macron, Trump seguiu normas diplomáticas. Foi servido um Pinot Noir da safra  2014 da Domaine Drouhin Laurene, uma vinícola do Oregon fundada pela famosa família da Borgonha. Seria ótimo se este padrão de educação e cavalheirismo fosse também repetido em outras ocasiões pelo controvertido presidente dos Estados Unidos.

Fontes: Wine and the White House, Frederick Ryan Jr.; Bloomberg

Imagem: RGY23 via Pixabay

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