Vinhos, garrafas de vidro e rolhas de cortiça. Embora muitas novidades tenham surgido nos últimos anos, como tampas de rosca, rolhas sintéticas, bag-in-box e outros, pouca gente discorda que os melhores vinhos do mundo continuam sendo embalados e fechados da forma mais tradicional. Porém, considerando que o vinho tem mais de 8.000 anos de história, a combinação acima é muito mais recente.
Tanto a garrafa de vidro como a rolha de cortiça já eram esporadicamente usados para a armazenagem e transporte de vinhos, mas foi somente a partir do século XVII que seu uso foi difundido. E se a história da relação entre vinhos e garrafas de vinhos é longa, o mesmo pode ser dito da rolha de cortiça.
Uso em civilizações antigas
A cortiça vem sendo usada há milhares de anos, inclusive como fechamento para recipientes usados para líquidos, desde ânforas até cerâmicas e garrafas de vidro. No que diz respeito ao vinho, porém, a trajetória vem sendo marcada por altos e baixos. Os primeiros vestígios de vinificação, oriundos da Georgia, mostram que o fechamento das ânforas era feito com tampas feitas de argila.
As primeiras evidências do uso da cortiça para o fechamento de recipientes datam do Egito Antigo, mas foram efetivamente os romanos que colocaram a rolha de cortiça em evidência. Fechamentos de cortiça foram encontradas em naufrágios romanos do século quinto antes de Cristo. Ânforas da mesma época usavam tampas de cortiça, embora esse não fosse o fechamento mais comum. Na época a cortiça era usada juntamente com resinas, para garantir que o recipiente fosse efetivamente selado.
Rolhas caem em desuso
Como foi o caso de muitas de suas inovações, as rolhas caíram em desuso com a queda do Império Romano. O comércio encolheu drasticamente e os agricultores de cortiça, a maior parte deles na Península Ibérica, não encontravam compradores para seus produtos. Além disso, a posterior invasão pelos mouros a partir do século VII, somada à proibição religiosa de consumo de álcool, praticamente destruiu a indústria da cortiça.
Por quase um milênio, o vinho e outras bebidas ficaram sem a rolha de cortiça, e, neste período, muitas alternativas foram adotadas para evitar os perigos da oxidação. Essas soluções variavam, desde uma pequena quantidade de azeite sendo derramado em cima do vinho, atuando como uma barreira ao oxigênio, até panos, couro ou mesmo rolhas de vidro.
Renascimento com a popularização das garrafas
Mas a rolha de cortiça acabou retornando, conquistando sua posição como a companheira ideal para proteger o vinho. O seu retorno, porém, dependeu da popularização do uso das garrafas de vidro. Foi somente a partir da década de 1620 que a tecnologia permitiu a fabricação de garrafas de vidro mais duráveis, que pudessem ser usadas para o transporte e armazenamento de vinhos. Liderando esta tendência estavam os ingleses, que dominaram a tecnologia e colocaram em xeque os outros produtores de vidro do mundo, sobretudo os venezianos.
No entanto, a escolha da rolha de cortiça não foi imediata. Apesar de ser um material flexível, leve, durável e praticamente impermeável, o uso da cortiça da época era criticado. Pesava a falta de um padrão de qualidade, que garantisse um fechamento eficiente das garrafas. Em seu Treatise of Cider, publicado em 1676, John Worlidge deixou claro que escolher boas rolhas era fundamental. “Muita bebida estraga irremediavelmente por causa de um único defeito da rolha. Por isso, são preferíveis as tampas de vidro”
Crescimento e domínio
Porém, por conta de sua praticidade e, sobretudo após a invenção do saca-rolha, a rolha ganhou maior popularidade, aparecendo como o fechamento ideal para as garrafas de vinho. Outro impulso importante veio a partir da popularização dos espumantes elaborados de acordo com o método tradicional, para os quais a rolha de cortiça é indispensável.
Na época, o grande fornecedor de cortiça era a Espanha, especialmente a Catalunha. Foi somente a partir do século XIX que Portugal assumiu um importante papel, culminando com a situação atual, produzindo mais do que 50% da cortiça consumida no mundo. Foi também a partir do século XIX que tecnologias mais modernas impulsionaram e baratearam a produção de rolhas, aumentando seu domínio no fechamento de vinhos.
Este domínio quase absoluto somente foi minimizado nas últimas décadas, com o rápido crescimento das tampas de rosca ou rolhas de materiais sintéticos. Porém, as rolhas de cortiça ainda seguem dominando o mundo do vinho, tanto pela sua praticidade como pelo inesquecível estampido quando uma garrafa de vinho é aberta. Afinal de contas, o que seria do ritual de abrir uma boa garrafa de vinho sem uma rolha de cortiça?
Fontes: A História do Vinho, Hugh Johnson; Amorim; A economia do sector da cortiça em Portugal. Evolução das actividades de produção e de transformação ao longo dos séculos XIX e XX, Américo Mendes; Corkway; Word on the Grapevine