A relação entre consumo de vinho e saúde parece difícil de entender, mesmo para quem segue o assunto de perto. Por muitos anos, diversos estudos indicaram uma relação saudável entre o consumo moderado de vinho, em particular o tinto, com a saúde. Porém, nos últimos cinco anos, a percepção mudou completamente, indicando que mesmo o consumo moderado de qualquer bebida alcóolica prejudica a saúde.
Qual das versões é a correta? Será que existe um ponto intermediário? Existem estudos mais recentes analisando este assunto em maiores detalhes? Estas e outras perguntas foram o tópico de um seminário realizado recentemente na Bélgica, chamado Moderate Wine Consumption & Mediterranean Diet, que pode ser traduzido como “Consumo Moderado de Vinho e a Dieta Mediterrânea”
A visão de um especialista italiano
Realizado em fevereiro, o seminário contou com a presença de diversos especialistas internacionais. Um dos destaques foi Attilio Giacosa, professor de Gastroenterologia e Endoscopia Digestiva e Gastroenterologista do Centro Italiano de Diagnóstico (CDI) em Milão. Também membro do comitê científico do Instituto de Pesquisa do Vinho, Alimentação e Saúde (IRVAS), ele deu seu depoimento sobre a relação entre consumo de vinho e saúde. Além disso, destacou também como a literatura científica trata o assunto.
O vinho é uma bebida alcoólica e, como tal, recomenda-se consumi-lo de forma moderada e responsável. Neste contexto, o IRVAS recomenda moderação, com no máximo duas taças de vinho por dia para homens e uma taça para mulheres. Para Giacosa, “com base em estudos epidemiológicos italianos e internacionais, já foi amplamente enfatizado que o consumo habitual e moderado de vinho ao longo da vida adulta, e combinado com hábitos alimentares corretos, não é prejudicial”
Ele foi além. “Levando em consideração, especificamente, a relação de causa-efeito entre ingestão moderada de vinho e saúde, é absolutamente correto referir-se ao conceito da “Curva J”, em relação à ciência. De fato, em vários estudos internacionais, a relação entre consumo de álcool e mortalidade se mostra como uma curva em forma de “J”. Essa curva mostra que beber vinho com moderação reduz a mortalidade em comparação com a abstenção (a curva mais baixa do “J”). A mortalidade aumenta dramaticamente, porém, à medida que o consumo de álcool aumenta (a seção vertical do “J”). Essa curva tem uso para doenças doenças cardiovasculares e distúrbios cognitivos.
Analisando a literatura científica
Giacosa pontuou alguns aspectos bastante relevantes da literatura científica sobre o tema. Muitos estudos tomaram como base somente a comparação entre abstinência e abuso. Por conta disso, a validade da “Curva J” vem sendo questionada ao longo dos anos. Nas palavras de Giacosa, “a pesquisa científica sofre atualizações com base em novas evidências e, portanto, é capaz de modificar suas certezas”.
Em 2018, um amplo estudo foi divulgado na Lancet, servindo até hoje como base para as diretivas da Organização Mundial da Saúde (OMS). Este estudo, realizado pelo Global Burden of Diseases (GBD) indicou que não havia uma dose diária de álcool que reduzisse o risco de doenças. Portanto, o consumo zero seria o ideal. Vale lembrar que o GBD é um programa de pesquisa regional e global de doenças, que avalia a mortalidade e a incapacidade causadas pelas principais doenças, lesões e fatores de risco. O GBD inclui em seus quadros mais de 3.600 pesquisadores de 145 países.
Em julho de 2022, porém, a mesma revista Lancet publicou um novo estudo, também envolvendo o grupo GBD. Ao comparar um grupo de consumidores e um grupo de abstêmios mostrou que em adultos com 40 anos ou mais a relação causa-efeito entre a ingestão moderada de álcool e o risco de doença não é linear. Ela seria, ao contrário, uma curva em J. Os estudiosos do GBD confirmaram, neste caso, os benefícios do consumo moderado de álcool, em relação ao risco de incorrer nas 22 patologias examinadas pela pesquisa.
O quadro atual
Giacosa lembra que, apesar do novo estudo, a diretiva da OMS não mudou. “A posição da OMS, segundo a qual “nenhum nível de álcool é seguro para nossa saúde”, se baseia na pesquisa de 2018, não considerando as conclusões subsequentes do GBD. Não quero alimentar o debate, que demoniza o consumo moderado de vinho, equiparando-o a destilados e tabaco devido aos seus perigos para a saúde. Agora está claro, em vez disso, que promove a longevidade e reduz o risco de doenças cardiovasculares, diabetes e distúrbios cognitivos”
Mas o pesquisador traz um alerta. “Isso não significa dizer que os abstêmios devem começar a beber para reduzir o risco de doenças cardiovasculares ou diabetes, ou mesmo para reduzir a degeneração cognitiva relacionada à idade e reduzir o risco de mortalidade. No entanto, as evidências epidemiológicas indicam que não há razão para sugerir a quem bebe vinho com moderação que pare”.
Fontes: Moderate Wine Consumption & Mediterranean Diet, WineNews
Imagem: Montagem a partir de imagem de Gordon Johnson via Pixabay