Last Updated on 25 de abril de 2021 by Wine Fun
Vinho tinto ou vinho branco? De forma crescente, o consumo de vinho branco vem crescendo ao redor do mundo, tomando espaço anteriormente ocupado pelo vinho tinto. Mas por que isso não acontece no Brasil? Até por conta de nossas características climáticas e pela nossa culinária, o vinho branco deveria ocupar um espaço maior nas taças dos brasileiros.
Vários fatores ajudam a explicar este paradoxo. Eles vão desde questões de produção (se produz muito mais vinho tinto que branco no Brasil, sobretudo no Rio Grande do Sul), culturais (influência da imigração a partir de países com maior tradição de tintos, como Portugal e Espanha) ou modismos (Bordeaux, Borgonha e outros – quase sempre tintos – como sinônimo de qualidade).
Porém, um fator que deve ser levado em conta é um certo preconceito que ainda existe com vinhos brancos. Quantas vezes não ouvi gente deixar claro que “vinho de verdade é tinto”, ou “só bebe vinho branco quem não entende de vinhos”, ou ainda pior, o duplo preconceito que “vinho branco é coisa de mulher”. Mas por que isso acontece?
Colocando as coisas em contexto
Antes de mais nada, vale a pena entender como é a distribuição do consumo de vinhos por cor no Brasil. Segundo dados referentes a 2020 da Ideal Consulting, os vinhos tintos correspondiam a nada menos que 74% dos vinhos tranquilos consumidos (que exclui os espumantes) no Brasil. Aos brancos cabia uma parcela de 19%, com os rosés ficando com os 7% restantes. Mas como isso se compara com o resto do mundo?
A proporção de vinhos brancos varia bastante de país para país, mas uma tendência é clara: sua parcela vem crescendo. Para isso, vários fatores contribuem, como a preferência por vinhos mais leve e frescos das novas gerações, a queda do interesse por vinhos de guarda (geralmente tintos) e o aquecimento global, com verões mais quentes e secos em boa parte do mundo, aumentando a demanda por bebidas mais frescas.
Clima e cerveja
A questão climática influencia bastante, com uma outra variável também aparecendo de forma muito clara: o consumo de cerveja. Assim, em países mais quentes e/ou no qual a cerveja é uma das bebidas favoritas e mais consumidas, a parcela dos vinhos brancos em relação aos tintos é maior. Por exemplo, os países que mais consomem brancos proporcionalmente são a Austrália e a República Checa, com uma fatia de cerca de 60% para os brancos.
A seguir, nesta estatística que considera os países com um consumo per capita de vinho superior a 7 litros por ano, apareciam Nova Zelândia (56%), Luxemburgo (53%), Finlândia (50%), Reino Unido (47%), Áustria (46%), Irlanda (44%), Estados Unidos e Alemanha (40%). Na outra ponta da tabela, apareciam a França, com os brancos respondendo por apenas 21%, com Portugal e Chile na faixa de 25%.
Brasil precisa evoluir
Independentemente de gostos pessoais, o baixo consumo de vinhos brancos no Brasil chama a atenção. Mas para mudar isso, primeiro é necessário eliminar o preconceito que ainda existe com vinhos brancos. De uma vez por todas, é preciso deixar claro que vinhos brancos não são inferiores. Aliás, considerando que a grande maioria dos consumidores bebe vinhos jovens, os brancos, em geral, são até mais adequados. Por conta da ausência de taninos, eles ficam prontos para consumo mais rapidamente.
Além disso, nossas condições climáticas e nossa culinária são mais adequadas para bebidas frescas e refrescantes, como o caso dos vinhos brancos. Se o brasileiro bebe tanta cerveja e prefere destilados que possam ser gelados ou receber pedrinhas de gelo (pense naquele scotch on ice) por que a proporção de vinhos brancos é tão baixa?
Um ponto importante é a participação das mulheres no consumo. Em boa parte do mundo os homens vão ao boteco ou pub e preferem cerveja. As mulheres, por sua vez, frequentam cada dia mais wine bars e se deliciam mais com vinhos brancos e espumantes. Felizmente, esta tendência já está crescendo no Brasil, representando um excelente exemplo de maior inclusão das mulheres na força de trabalho e na determinação de padrões próprios de consumo.
Gosto não se discute e cada um pode exercer suas preferências pessoais. E isso vale também para o vinho. Porém, é importante que muita gente deixe os preconceitos de lado, como ainda ocorre com os vinhos brancos. Eles são, ao lado dos rosés, uma das sensações ao redor do mundo e, cedo ou tarde, isso irá chegar também ao Brasil.