Vinícolas da Armênia e Israel: um olhar antropológico do vinho na história da civilização

O marco da importância do vinho antigo na nossa história do presente foi realizado em 2007. Foi quando uma equipe de arqueólogos descobriu na caverna de ARENI-1, situada em Vayots Dzor, Armênia, uma vinícola com restos de uvas e vestígios de fermentação datado de 6.100 anos atrás. Essa descoberta deu o start para tantas outras pesquisas importantes de como o passado da civilização é apoiado na evolução e revolução que o vinho causou nessas antigas civilizações.

Recentemente, em 2022 foi descoberta outra vinícola considerada de grande porte vinda da Era do Bronze – 3.500 anos atrás, no Vale de Jezreel, região situada ao norte de Israel e ao sul da Galiléia. Havia vestígios completos de vinhedos, técnicas de produção vinícolas, lagares, fósseis de sementes, vestígios de vinhos, ânforas e romaneios do comércio desse vinho.

Em agosto de 2024 foi realizada outra grande descoberta, retornando às datas de 6.100 anos, na mesma região de Vayots Dzor (Armênia), de uma segunda vinícola em caverna próxima a ARENI-1. Essas aberturas na história constituem momentos-chaves da vitivinicultura e sua relação com as sociedades humanas. Não podemos excluir também a grande descoberta de vestígio do vinho mais antigo de Vitis Sylvestris, na Geórgia, de 8.000 anos atrás.

Apesar da distância temporal e geográfica entre esses sítios arqueológicos, todos revelam aspectos fundamentais sobre o papel do vinho na organização social, econômica e religiosa das civilizações antigas. Sob a ótica da antropologia, essas descobertas permitem compreender a transição do consumo ritualizado para a comercialização em larga escala e o impacto cultural do vinho na construção das sociedades.

A vinícola de Areni-1: domesticação e a origem do simbolismo do vinho

A vinícola de Areni-1 marca o início do vinho em um produto cultural essencial. O local sugere que a produção vinícola já estava organizada dentro de um contexto social e religioso há 6.000 anos. A presença de lagares, qvévris e sementes de uva confirmam o domínio técnico da fermentação alcoólica, enquanto a localização da vinícola dentro de uma caverna pode indicar que o vinho era armazenado em um ambiente protegido, possivelmente com um propósito ritualístico.

(a) Lagar para pisa da uva; (b) tanque fermentador; (c) armazenamento. Imagens do banco de imagem do site MDPI.com

Do ponto de vista antropológico, essa descoberta reforça a ideia de que o vinho era um elemento estruturante da vida social e espiritual, atuando como um mediador entre os humanos e o divino. O consumo de vinho em ritos funerários e cerimônias pode ter simbolizado a transição entre a vida e a morte, uma prática que se manteria em várias culturas ao longo dos milênios.

A descoberta de Areni-1 e 2 também evidencia o papel da viticultura na formação das primeiras sociedades complexas. A domesticação da videira exigiu observação geracional, conhecimento acumulado e cooperação, o que fortaleceu laços comunitários e ajudou a consolidar redes sociais e comerciais. Isso sugere que o vinho não era apenas uma bebida, mas um elemento fundamental na construção da identidade cultural.

A vinícola de Jezreel: expansão comercial e papel econômico do vinho

Já a vinícola descoberta no Vale de Jezreel, representa um estágio mais avançado na história da vinificação. Diferentemente de Areni-1 e 2, onde a produção de vinho estava ligada ao contexto ritual e simbólico, a vinícola de Jezreel revela um processo de produção em larga escala, voltado para o comércio. A estrutura encontrada inclui grandes lagares e um sistema eficiente para prensagem e escoamento do mosto, indicando que o vinho produzido ali não se destinava apenas ao consumo local. Ele também era exportado.

Na Antiguidade, Israel fazia parte de importantes rotas comerciais do Mediterrâneo e do Oriente Próximo. O vinho de Jezreel pode ter sido exportado para o Egito, a Mesopotâmia e outras regiões. Nessa altura, a bebida já se mostrava um item de alto valor econômico. Essa transição do vinho de um elemento ritual para mercadoria também reflete mudanças na estrutura das sociedades, onde a especialização da produção e o comércio começaram a desempenhar papéis centrais na economia.

Site de Jezreel com lagares e os locais escavados em rocha calcária para armazenamento de até 5.000 litros de vinho. Imagem do Banco de Imagem do site MDPI.com

Além do aspecto econômico, o vinho nesse local continuava a desempenhar funções religiosas e sociais importantes. No contexto da cultura israelita e cananéia, o vinho era utilizado em oferendas, celebrações e em práticas associadas ao culto a Yahweh e a antigos deuses locais. A antropologia analisa essa presença do vinho como uma relação sócio x econômica e de relevância nos rituais religiosos e na coesão social.

Comparação antropológica: do ritual à mercadoria

A relação entre as duas vinícolas revela a evolução do papel do vinho na sociedade. Em Areni-1 e 2, o vinho como já visto acima, estava intimamente ligado ao sagrado, simbolizando conexões espirituais e sendo possivelmente usado em cerimônias funerárias ou rituais de passagem. O vinho era um produto valioso, mas seu significado ia além da materialidade, estando associado à identidade cultural e ao conhecimento técnico necessário para todo o início da história sobre agricultura, enologia e vinificação.

Em Jezreel, vemos o vinho como um produto consolidado, com uma cadeia produtiva mais avançada e um sistema comercial estabelecido. Ele continuava presente na religião, mas sua produção em larga escala demonstra que a vitivinicultura havia se tornado um elemento estruturante da economia, refletindo a complexidade das sociedades do Mediterrâneo Oriental na Idade do Ferro.

Essa transição do vinho, de sagrado para mercadoria de alto valor econômico, é reflexo da própria evolução das civilizações humanas. Existe uma beleza intrínseca interelacionada na evolução do vinho e na nossa própria. Essas descobertas arqueológicas, separadas por 3.000 anos, demonstram como essa bebida antecessora pelo menos 1.000 anos de Dionísio e de Baco acompanhou o desenvolvimento humano, moldando não apenas a forma como as sociedades se organizavam como também suas crenças, rituais e estruturas econômicas e de lifestyle. O vinho não era apenas uma bebida: era um catalisador cultural e um espelho da complexidade das primeiras civilizações da nossa história ao longo do tempo.

São 6.000 anos de história para concluirmos a perenidade da função primordial do vinho: ele ainda é um catalisador cultural e, claro, social.

Andrea é historiadora, pesquisadora da fermentação antiga e entusiasta de vinhos. Possui mestrado em História das Civilizações pela Universidade da Pensilvânia e atualmente, integra equipes de arqueólogos apoiados pelo Penn Museum, com estudos focados na função antropológica do vinho nas civilizações antigas (a.C.). Co-autora do livro científico Patrimonio Cultural da la Vid y el Vino. Formada sommelière pela ABS-SP e certificada WSET3 pela East London Wine School.

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Fontes: The rise of wine among ancient civilizations across the Mediterranean Basin; McGovern, Patrick Uncorking the Past: The Quest for Wine, Beer and Other Alcoholic Beverages; Wine Enthusiast

Foto: Andrea Ramos, arquivo pessoal

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