Last Updated on 19 de junho de 2020 by Wine Fun
Mais um tiro no pé! O documento assinado pela União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra), Associação Gaúcha de Vinicultores (Agavi) e Federação das Cooperativas Vinícolas do Rio Grande do Sul (Fecovinho) solicitando uma série de medidas prejudiciais ao consumidor brasileiro de vinho só podia gerar revolta e consternação.
Tentando esclarecer melhor os pontos (que pode ser traduzido também como “notamos a bobagem que fizemos e voltamos atrás”), as mesmas entidades enviaram carta ao Ministro Paulo Guedes solicitando atenção a “apenas” quatro pontos: subsídios para equiparação de custos, equiparação de alguns subsídios com o que é praticado pela Comunidade Européia, regularização do fundo Modervitis (para a modernização do setor) e maior combate ao contrabando (ver o pedido completo no final da matéria).
Foram retirados os pontos mais controversos, inclusive a absurda sugestão de aumento nos impostos de importação de vinhos (com foco no Chile) e barreiras não alfandegárias (que poderiam levar à criação de cotas de vinhos importados). Mas ainda seguem insistindo em subsídios, o que chega a ser quase patético em um país como o Brasil.
Subsídio significa usar recursos públicos (que, no fundo, são da sociedade), para subvencionar um setor em detrimento de outros. Em um país que mal consegue investir em escolas e hospitais, pedir para usar dinheiro público para sustentar um setor inteiramente sob controle privado me soa quase uma ofensa, ainda mais no meio de uma pandemia. Coisas de setores mal acostumados no Brasil: quando a coisa vai bem o lucro é deles, quando não, o governo tem que ajudar com recursos públicos.
Já as duas outras solicitações soam muito mais razoáveis. Combater o contrabando é bastante válido, embora seja claro que boa parte do contrabando se deve exatamente ao enorme diferencial de preços entre um produto importado aqui e fora do Brasil. Se houvesse livre comércio, este diferencial seria muito pequeno, desincentivando, portanto, o contrabando. A própria existência de contrabando em grande escala já evidencia que este setor é muito protegido e que a carga tributária é alta demais no Brasil.
Por fim, a questão de um fundo para modernização do setor talvez seja a mais relevante. Aumentar a produtividade é o segredo por trás do crescimento futuro. As vinícolas brasileiras precisam investir mais, se modernizar, olhar para frente. Não são muitas aquelas que buscam inspiração no exterior para soluções mais modernas, aquelas que investem em P&D de forma intensa, as que trabalham duro para ampliar sua eficiência.
A “ira” contra o Chile, no fundo, é muito também sobre as diferenças nos modelos adotados lá e cá. O Chile adota um modelo econômico de foco em poucos setores, para ganhar escala e produtividade e competir nos mercados internacionais, onde a briga é de cachorro grande. Suas vinícolas são eficientes, disputam e ganham mercado de players de todas as partes do mundo.
Já no Brasil, com seu foco no mercado interno, a pressão é menor, a busca por eficiência também. O empresário brasileiro, de forma geral (sim, temos também empresas de padrão de eficiência global), precisa aprender a trabalhar com olho em eficiência, em padrões globais, em criar soluções para ser competitivo aqui e lá fora. E não ficar reclamando o tempo todo e passando o chapéu para que o governo banque sua ineficiência, sua falta de inovação e sua aversão a um mercado livre e de concorrência saudável, onde o consumidor acaba sendo premiado.
