Alemanha aperfeiçoa sua classificação de vinhos: entenda as mudanças

Last Updated on 15 de maio de 2024 by Wine Fun

Talvez não seja exagero dizer que a classificação de vinhos na Alemanha seja a mais complexa do mundo. Enquanto na maior parte dos países produtores a classificação de vinhos leve em conta sobretudo questões geográficas e de origem, na Alemanha são adotados diversos critérios. Na França, por exemplo, o ponto central se refere à qualidade dos vinhedos, ou seja, localidades ou vinhedos que apresentam terroir melhor acabam, em geral, ocupando um ponto mais alto na hierarquia de classificação.

Já na Alemanha, a classificação oficial leva em conta aspectos geográficos, porém com pouco detalhamento a nível de vinhedo. Outros critérios servem para diferenciar os vinhos, como grau de açúcar no mosto ou dulçor dos vinhos. Por conta disso, um grupo de produtores criou a VDP, uma associação que lançou uma classificação alternativa, valorizando os vinhos dos melhores vinhedos.

Mudança na legislação

Mas a postura das autoridades alemãs finalmente está mudando. Em 27 de janeiro de 2021 entrou em vigor uma emenda à lei dos vinhos alemães, com o objetivo de melhor diferenciar os vinhos de acordo com sua origem, ou seja, dar uma maior valorização ao terroir. Os detalhes completos foram disponibilizados no final de março, e, embora ainda faltem algumas aprovações a nível governamental, as medidas terão efeito a partir da safra 2026.

As mudanças seguem um princípio básico: quanto mais específica a designação de origem, maior a promessa de qualidade. Assim, saber de qual vinhedo ou sub-região vêm as uvas será decisivo para definir a qualidade dos vinhos alemães no futuro.  A lógica é que as características de um vinho são determinadas por sua origem, pelo terroir no qual as videiras crescem. E, nesta definição, o termo terroir abrange a interação de muitos fatores, incluindo clima, solo e localização, bem como a ação do produtor.

As “três pirâmides” da nova legislação alemã

Mexendo no topo da pirâmide

De forma geral, a nova resolução não elimina a classificação anterior, apenas redefine o topo da pirâmide, ou seja, os vinhos de melhor qualidade. A base da pirâmide de qualidade (que seria a “primeira” pirâmide) continua sendo composta pelos vinhos sem uma definição de origem regional específica, os Deutscher Wein, um conceito que equivale ao francês Vin de France.

O nível seguinte da hierarquia já inclui uma indicação geográfica regional, em linha com os Vin de Pays na França. Assim, os Landwein requerem uma Indicação Geográfica Protegida (IGP), que é chamada de g.g.A. (geschützten geografischer Angabe) em alemão. São vinhos regionais de uma determinada área, por exemplo Landwein der MoselPfälzer etc, mas que não fazem parte de uma denominação de origem.

Já os vinhos que fazem parte de uma denominação de origem são classificados como Qualitätswein, ou seja, vinhos de qualidade. E é exatamente nesta parte da pirâmide de hierarquia de qualidade que o impacto da nova regulamentação será sentido.

A primeira pirâmide

Uma nova pirâmide de origem

Os vinhos dentro da categoria Qualitätswein passam agora a ser dividido em quatro sub-grupos (que podem também formar uma “segunda” pirâmide, só que agora de origem). A categoria básica dentre os Qualitätswein inclui os vinhos produzidos a partir de uvas cultivadas em toda uma área vinícola específica. Por exemplo, nos vinhos de uma das 13 regiões vinícolas alemãs (Mosel, Rheingau, Pfalz etc.) a expressão Qualitätswein pode ser substituída por uma indicação “vinho de denominação de origem protegida”, seguida pelo nome da região. Em alemão, esta base da pirâmide dos Qualitätswein é chamada de Anbaugebiete (traduzida como “área”).

O nível seguinte traz os chamados vinhos de uma sub-região específica, já que as uvas devem vir de uma área vinícola ou de um local maior que abrange distritos ou vinhedos coletivos. Este nível de classificação abarca dois termos usados na classificação anterior: Bereich (distritos) e Großlagen (vinhedos coletivos), e deve declarar “região” no rótulo. Por exemplo, um vinho produzido no distrito de Johannisberg (dentro da região Rheingau), poderá imprimir o nome do distrito, seguido pela região, em seu rótulo.

O nível seguinte, Ortswein, inclui os vinhos produzidos a partir de uvas provenientes de vinhedos plantados em um vilarejo específico, em linha com a classificação de Village, da França. Por fim, o topo dos Qualitätswein são os vinhos de vinhedos específicos, os Einzellage, dando ao produtor o direito de incluir o nome deste vinhedo em seu rótulo.

Segunda e terceira pirâmides

Hierarquia de vinhedos

A grande novidade desta nova legislação, porém, fica exatamente nos Einzellage. A partir de agora, e pela primeira vez a nível oficial, estes podem ser segmentados de acordo com sua qualidade, em linha com o que é feito da classificação da VDP. Existem três níveis de vinhedos nesta nova classificação (que seria “terceira” pirâmide), em um modelo que também lembra o modo de segmentação da França.

A base desta nova pirâmide (uma nova pirâmide de qualidade) é composta pelos vinhedos que não receberam uma classificação de qualidade específica, dando ao produtor o direito de colocar o nome deste vinhedo no rótulo. A seguir, dentro desta hierarquia de vinhedos, vêm os vinhedos classificados como Erstes Gewächs, equivalente aos Premier Cru franceses. Por fim, os melhores vinhedos, que correspondem aos Grand Cru da França, recebem o nome de Großes Gewächs. Para atingir esta classificação, os vinhedos têm que passar por um criterioso conjunto de pré-requisitos.

Outra novidade é que o produtor pode também incluir no rótulo, caso ache necessário, também de que parcela de vinhedo vêm as uvas. Este termo é chamado de Gewann em alemão, e permite ao consumidor informações ainda mais detalhadas sobre a origem das uvas.

Ajuste necessário

A nova legislação, deste modo, pode ser vista como um avanço importante em relação às normas anteriores. De forma geral, manteve a estrutura já existente em boa parte da pirâmide, mas incorporou critérios muito mais claros na parte mais alta da hierarquia, em linha com o que os produtores da VDP já vinham realizando.

Ao mesmo tempo que trouxe novidades, porém, não alterou a classificação dos Qualitätswein mit Prëdikat. Assim, os níveis de Prädikat existentes, que são medidos pelo nível de açúcar do mosto e variam de Kabinett a Trockenbeerenauslese, não foram afetados pela nova regulamentação.

Fontes: Wines of Germany; Germany Introduces A New Wine Hierarchy Based On Geography, Forbes

Diagramas: Wines of Germany

Imagem: Brigitte makes custom works from your photos, thanks a lot via Pixabay

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