Kabinett, Auslese etc: entenda a classificação dos vinhos alemães de qualidade

Last Updated on 3 de maio de 2021 by Wine Fun

A classificação oficial de vinhos na Alemanha tem diversas particularidades. Uma das principais delas é a parte que segmenta os vinhos de acordo com o grau de maturação das uvas na colheita. No raciocínio adotado, uvas mais maduras produzem vinhos mais intensos e complexos. Pode parecer uma forma peculiar de classificar vinhos, mas isso até fazia sentido quando esta legislação foi lançada, em 1971.

Porém, mesmo em novos tempos isso não deve mudar. Embora uma nova legislação sobre a classificação dos vinhos alemães tenha sido aprovada em 2021 (passará a valer a partir de 2026), os níveis de Prädikat existentes, de Kabinett a Trockenbeerenauslese, como veremos a seguir, não foram alterados. Esta nova legislação, porém, ao contrário da anterior, dá mais ênfase ao conceitos de terroir.

Questão climática

Não podemos esquecer que a Alemanha é uma das regiões mais ao norte do mundo a produzir vinhos em grande escala. Como historicamente o clima foi sempre frio, a maturação total das uvas era difícil de alcançar. Em muitas regiões apenas aqueles vinhedos com orientação para sul e sudoeste conseguiam receber luz solar suficiente ao longo do ano para garantir um amadurecimento suficiente das uvas.

No entanto, com as mudanças climáticas globais (sim, aquecimento global existe) e melhor viticultura, obter a maturidade total já não é mais tão difícil. O resultado é que as distinções entre os níveis de maturação são agora menos claras, o que levou, inclusive, a um sistema paralelo de classificação e a nova legislação anunciada em 2021.

Açúcar no mosto como critério

Apesar de suas diversas deficiências, o sistema segue sendo utilizado dentre os vinhos classificados como Prädikatwein, ou  Qualitätswein mit Prädikat (QmP). São aqueles vinhos que, dentro da classificação oficial alemã, estão no topo da pirâmide. Vale lembrar que, para fazer parte deste restrito grupo, os vinhos não podem ser chapitalizados ou fortificados, ou seja, não podem sofrer elevação no grau de açúcares das uvas após a colheita.

A medição de açúcares é feita nos mostos e existem seis Prädikats (ou níveis) diferentes, cada um com peso de mosto (como é chamado na Alemanha) mínimo diferente, dependendo da variedade de uvas e região de cultivo. Por exemplo, na maioria das áreas de cultivo do sul da Alemenha, são aplicados requisitos mais elevados (dado que são regiões com maior incidência de luz solar). Em ordem crescente, os Prädikats são:

Kabinett

Podem ser traduzidos literalmente como “gabinete”. Este termo pode ter se originado da percepção que o produtor acreditava que o vinho era bom o suficiente para guardar, ou “colocar em seu próprio gabinete” em vez de oferecê-lo para venda. São vinhos mais leves, de menor teor de álcool e de acidez mais elevada, podendo ser secos ou semi-doces.

Spätlese

Significa “colheita tardia” e normalmente indica vinhos meio secos, muitas vezes mais intensos, concentrados e com mais fruta do que Kabinett, sem que isso implique que sejam necessariamente doces. É importante destacar que não são vinhos de sobremesa (uma confusão natural com vinhos denominados Late Harvest – também traduzido como colheita tardia).

As uvas, em geral, são colhidas pelo menos sete dias após a colheita normal, garantindo mais intensidade e concentração.

Auslese

Pode ser traduzido como “colheita seletiva”, são elaborados a partir de cachos muito maduros, selecionados à mão, tipicamente semi-doces ou doces, em algumas ocasiões até com uvas botritizadas, ou seja, atacadas pela “podridão nobre”. Auslese é o Prädikat que cobre a mais ampla gama de estilos de vinho, desde vinhos secos ou semi doces (menos comum atualmente) a vinhos de sobremesa.

Beerenauslese (BA)

Ao adicionar a palavra Beeren (que pode ser traduzida com grão ou fruta) o termo significa “colheita de frutas selecionadas”. Neste caso a classificação indica um vinho de sobremesa doce, feito de uvas maduras individualmente selecionadas de cachos e muitas vezes plenamente botritizadas.

Após o ataque da botrytis (ou podridão nobre), as uvas murcham, perdem água e se tornam mais concentradas, uma espécie de néctar doce. Estes vinhos não são muitos comuns, pois são necessárias condições climáticas excepcionais para que as uvas amadureçam a este ponto. São vinhos de grande capacidade de guarda, podem ser armazenados por décadas.

Eiswein

Pode ser traduzido como “vinho de gelo”, são elaborados com uvas tão maduras quanto os Beerenauslese, mas colhidas quando a temperatura é inferior a menos sete graus celsius. As uvas são espremidas enquanto congeladas, de forma que apenas o concentrado de frutas seja usado (a água da uva não vira mosto, pois está congelada). Estão se tornando cada dia mais raros, uma vez que a Alemanha experimenta invernos menos rigorosos, de forma que a temperatura mínima necessária para a colheita está ocorrendo com menos frequência.

O estilo clássico de elaboração de Eiswein considera o uso apenas de uvas que não foram afetadas pela podridão nobre. Até a década de 1980, a designação de Eiswein era usada em conjunto com outro Prädikat (que indicava o nível de maturação das uvas antes de serem congeladas), mas atualmente é considerada um Prädikat próprio.

Trockenbeerenauslese (TBA)

Bem no estilo alemão de adicionar mais uma palavra, agora Trocken (que pode ser traduzida como seco). Isso não significa que o vinho seja seco, é exatamente o contrário. O seco se refere às uvas, no sentido de uvas secas ou uvas passas. A expressão completa significa “colheita de frutas secas selecionadas” ou “seleção de frutas secas” feito de uvas sobre-maduras, na maioria das vezes afetadas pela botrytis.

Este é o vinho de sobremesa mais doce e intenso produzido na Alemanha, sendo ainda mais raro (e caro) e com maior potencial de guarda que os Beerenauslese. Quando elaborado com a Riesling, traz uma estrutura e finesse raramente vistas no mundo dos vinhos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *