Apreciando vinhos: qual a relação entre a qualidade da rolha e do vinho?

Uma pergunta que ouço frequentemente é a respeito da relação entre a rolha e a qualidade do vinho. Será que uma rolha de baixa qualidade dá pistas de que não iremos ter um vinho à altura? Por outro lado, um vinho com uma rolha impecável é sempre um bom vinho?

Vamos focar aqui especificamente no material mais popular usado para vedar garrafas de vinhos: a rolha de cortiça. Existem outros formatos, como as rolhas sintéticas, as tampas de rosca e os fechamentos de cristal, para citar alguns exemplos, mas é muito assunto para um artigo só.

De onde vem as rolhas?

A rolha de cortiça é um produto natural, fabricado a partir das cascas do sobreiro, uma espécie de carvalho que é mais comum em países como Portugal, Espanha, Marrocos e Argélia. Os dois países da Península Ibérica produzem cerca de 80% da cortiça do mundo, aparecendo como os principais fornecedores de rolhas naturais do mundo.

Apesar de ser um produto natural, não implica na derrubada de árvores, uma vez que apenas parte da casca é removida, sem que isso mate a planta. Mas não é um processo simples ou rápido, uma vez que cada sobreiro demora 25 anos até poder ser descortiçado, que é o termo usado nesta indústria, pela primeira vez.

E não é só isso. Somente a partir do terceiro descortiçamento, ou seja, aos 43 anos, a  cortiça tem a qualidade exigida para a produção de rolhas. Antes disso, a cortiça é usada para outros fins, como matéria-prima para isolamento, pavimentos e produtos em diversas áreas.

Para que servem?

Obviamente, o principal objetivo é tampar a garrafa, mas para que o vinho envelheça bem, são necessárias algumas condições. A principal delas é que exista uma entrada controlada de oxigênio na garrafa, suficiente para que o vinho “respire” e interaja, porém não acima de um patamar que ocasione a sua oxidação .

O ideal é que a rolha seja elaborada a partir de uma peça única de cortiça, com o mínimo possível de imperfeições, para garantir o fluxo correto de oxigênio. No entanto, por serem caras, existem outros tipos de rolhas de cortiça, como por exemplo, as de compensado, feitas não com uma peça única, mas com sobras de cortiça.

Olhe a rolha de perto

Deste modo, assim como existem diferentes qualidades de vinhos, há também diferentes qualidades de rolhas. Na figura abaixo, você pode ter uma ideia melhor disso, são todas rolhas de cortiça, porém as diferenças são evidentes. Elas podem variar tanto em termos de tamanho quanto composição.

Nas duas primeiras, fica evidente que não são feitas de uma peça única, são feitas a partir de compensado. A segunda tem uma particularidade, um pequeno anel de uma peça na parte inferior, que fica em contato com o vinho. As duas seguintes são de uma peça só, mas dá para perceber que a terceira tem muito mais imperfeiçoes que a última. Resumo: a qualidade varia bastante, crescendo da primeira até a quarta.

Rolha, preço e qualidade

A rolha é um dos materiais usados para que um vinho chegue até você, e cada um destes materiais tem um custo. Quanto melhores os materiais, mais eles irão custar, e mais alto será, a princípio, o preço do vinho para você. Mas vale a pena deixar claro que toda exceção tem sua regra.

Em primeiro lugar, a rolha é apenas um dos custos. Pode ser que o produtor tenha gasto mais com a rolha do que o preço do seu vinho reflete, ou vice-versa. Temos que lembrar também que o custo da rolha varia ao redor do mundo, portanto ficaria mais fácil um produtor português ou espanhol usar uma rolha de melhor qualidade do que um australiano, por exemplo, pois a mesma rolha é mais barata para ele.

Além disso, como no caso da qualidade das garrafas, temos que entender que gastar mais não significa entregar o melhor produto. Não é porque o vinho traz uma rolha cara e de alta qualidade que isso garante que o vinho é excelente. O que podemos dizer é que este produtor gastou mais com esta parte, que investiu mais para que você tivesse um vinho com um melhor fechamento.

Elemento crítico

O fechamento usado, porém, é uma variável muito importante. Não adianta produzir um vinho ótimo e escolher um fechamento errado, que permita que vinho oxide mais do que deveria. Ou pior, seja afetado por TCA, uma contaminação que cria o que chamamos de vinho bouchonée (bouchon é rolha, em francês), possivelmente o pior defeito que um vinho pode ter.

É exatamente por conta destes riscos que o fechamento é um elemento crítico do vinho. Na maioria das vezes, é mais seguro ter um vinho com fechamento com tampa de rosca ou rolha sintética, do que com uma rolha de cortiça de baixa qualidade.

Por fim, respondendo à pergunta. A rolha pode ser um excelente indicador da qualidade do vinho, sobretudo nos casos quando são usadas rolhas de baixa qualidade. Obviamente, sempre existem exceções, mas isso funciona de forma diferente dos dois lados. Você pode ter um vinho ruim com a melhor rolha do mundo, porém a probabilidade do inverso é zero. Olho na rolha!

Fontes: Corticeria Amorim; Jancis Robinson

Imagem: DAVIDSONLUNA via Unsplash

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *