As ilhas Canárias e seus vinhos

Las Islas Canarias” é um arquipélago localizado no oceano Atlântico e que faz parte do território espanhol. Tenerife é a capital e a cidade mais conhecida. A região é um destino turístico famoso, afinal abriga paisagens naturais únicas, além de um clima subtropical que serve de refúgio aos habitantes do hemisfério Norte ao longo do ano.

A região possui um longo histórico de produção de vinhos. A partiu do século XV serviu de entreposto logístico para as embarcações que buscavam rotas para o Oriente através do Atlântico. Atualmente possui uma interessante produção de vinhos, majoritariamente consumidos localmente e pelos turistas. Apesar de pouco conhecido fora de lá, inclusive na Espanha continental, os vinhos locais vêm despertando atenção da crítica, sommeliers e enófilos.

Uma breve história

Quando os Europeus começaram a navegar nas costas africanas, no século 15, depararam-se com o arquipélago na costa do Marrocos, a cerca de mil quilômetros da Espanha, “Las Islas Canarias”.  Em 1479, Portugal e Castilla assinaram o Tratado de Alcáçovas que deu o controle da região para a Espanha (Portugal ficou o Açores, Madeiras e Cabo Verde).

Os espanhóis introduziram o cultivo de uvas. Aproveitando a posição estratégica, rapidamente a região se tornou um grande exportador a partir do século XVI. Malmsey, um vinho doce, branco e não fortificado, rapidamente tornou-se popular na Inglaterra, chegando até a receber uma citação na obra de William Sheakspeare, que disse que o vinho “cheers the senses and perfumes the blood”.

É curioso que o termo Malmsey se refere a forma que os ingleses pronunciam o nome da uva utilizada na elaboração do vinho, Malvasia. Esse vinho é ainda hoje produzido, em pequena escala.

O terroir das Ilhas Canárias

O clima é subtropical e muitos dizem ser “o melhor clima do mundo”, com temperaturas médias de 22°C no inverno e 28°C no inverno. Fica fácil entender a atratividade do turismo. Chove 350-500 mm por ano. Por fim, uma série de correntes marítimas regulam o clima da região. Com isso tudo, as condições são muito adequadas à viticultura. A região foi criada em decorrência de erupções vulcânicas que influenciaram a topografia, marcado por altitude e terrenos acidentados.

Imagem: Wine Scholar Guild

O solo é o grande diferencial da ilha. Nas regiões intermediárias, com altitude ao redor de 800 m encontra-se um solo de origem vulcânica único, o Lapilli (também conhecido como picón). Esse solo filtra a água da chuva e armazena nutrientes, protegendo-os dos intensos ventos. Também ajuda a diminuir a evaporação da água.

Uvas da Região

A filoxera nunca alcançou a área. Las Islas Canarias abrigam algumas das vinhas mais antigas da Espanha e do mundo. A produção de brancos é ligeiramente superior à de tintos.

Dentre as uvas brancas, três se destacam:

Malvasía Aromática: originária da Grécia/Chipre é utilizada na produção do histórico vinho Malmsey.

Malvasía Volcánica: também conhecida como Malvasía de Lanzarote é a grande estrela das brancas. Cruzamento natural entre a Malvasía Aromática e a autóctone da área, Marmajuelo. Expressa-se particularmente bem no solo local e produze vinhos famosos pela mineralidade e frescor.

Listán Blanco: que é sinônimo da Palomino, utilizada em Jerez. Adapta-se particularmente bem nas condições de  pouca chuva e abundância de sol

Com relação às tintas, a Listán Negro, também conhecida como Almuñeco reina. Autóctone da região, é utilizada na elaboração de vários estilos, incluindo o elaboado a base de maceração carbônica. Os melhores vinhos são leve, frutados, frescos e com baixos taninos.

As principais denominações de origem

Há 11 Denominações de Origem na região. Dentre elas, quatro se destacam:

DO Lanzarote – criada em 1993, produz majoritariamente brancos (80%), com a uva Malvasía Volcánica que deve compor pelo menos 75% do blend. Os vinhos são minerais, cítricos, frescos e ideias para harmonizar com a gastronomia local.

DO Ycoden-Daute-Isora – criada em 1996, os brancos representam 78% da produção. Vinhedos são cultivados nos terraços do Monte Teide, cuja elevação alcança 1.400 metros.  Os vinhos brancos costumam ser “easy-drinking”, cítricos, frescos e marcados pela mineralidade.

DO Valle de la Orotava – Criada em 1996, é a maior e mais antiga DO das Ilhas Canárias. Brancos representam 60% da produção. É lá que se localiza o Puerto de la Orotava (hoje chamado de Puerto de la Cruz) que era o ponto de conexão com o mundo exterior. Listán Negro é a uva tinta que domina a região. Há, porém, uma tendência de produtores menores produzirem vinhos interessantes a partir de uvas como a Vijariego Negro e a  Tintilla. No campo dos brancos, destaque para os vinhos produzidos a partir da Marmajuelo e Vijariego Blanco.

DO Tacoronte-Acentejo – criada em 1992. Localizada no nordeste de Tenerife, diferencia-se por produzir majoritariamente tintos (83%). A maioria é elaborada exclusivamente com a uva Listán Negro. A maceração carbônica é utilizada no processo de produção, o que resulta em vinhos leves, frescos, taninos macios e com notas de frutas vermelhas frescas, ervas.

Principais produtores das Ilhas Canárias

DO Lanzarote (https://dolanzarote.com): El Grifo, Los Bermejos e Rubicó

DO Tacoronte-Acentejo (http://www.tacovin.com): Carbajales, Cráter e Domínguez Cuarta Generción

DO Valle de la Orotava (https://www.dovalleorotava.com): La Araucaria, Suertes del Marqués e Tajinaste

DO Ycoden-Daute-Isora (http://ycoden.com) : Borja Pérez, Viñatigo e Envínate

Num mundo em que as denominações de regiões mais badaladas atingem preços estratosféricos, que tal explorar algumas menos conhecidas e que podem entregar boas surpresas. Quando tiver oportunidade, não deixe de provar os vinhos das “Las Islas Canarias

Renato Nahas é Professor da ABS-Campinas. Concluiu a certificação de Bourgogne Master Level da WSG, é Formador homologado pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS, pela WSG. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWE e CWS, este último pela Society Wine Educators.

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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal

Imagems: Pixhere

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