Barbera: menor produção, mas em busca da qualidade

Last Updated on 16 de dezembro de 2024 by Wine Fun

Para muita gente, falar em vinhos do Piemonte traz a uva Nebbiolo, principal variedade de denominações de origem como Barolo e Barbaresco, como principal destaque. Porém, no que diz respeito à área plantada na região, quem lidera é outra variedade: Barbera. Esta uva de ascendência ainda obscura é possivelmente originária do Piemonte, porém ganhou espaço em outras regiões italianas e, também, no exterior.

Embora seja virtualmente impossível tirar da Nebbiolo o título de variedade mais badalada do Piemonte, a maior atenção dada, tanto por enólogos como degustadores, às variedades autóctones, tem novamente colocado a Barbera em evidência. Quem gosta de vinhos do Piemonte, aprecia uvas diferentes e não tem orçamento para ficar somente em vinhos elaborados a partir da Nebbiolo, pode ter na Barbera uma opção interessante.

Origem e histórico

Possivelmente originária de região de Monferrato, no Piemonte, é uma variedade que tem longa história, com citações já no século XVI. Sua primeira menção oficial é de 1514, na área de Chieri, que hoje faz parte da região metropolitana de Turim. No entanto, a variedade possivelmente teve uma circulação limitada nos séculos imediatamente seguintes, de modo que não é mencionada por G.B. Croce entre as uvas da “montanha de Turim” (1606).

Somente em 1691 há uma referência relacionada ao vilarejo de Neive (próximo a Barbaresco), onde o conde Cotti Ceres plantou em sua propriedade mudas de Barbera. Em 1798, a Barbera foi relatada pelo Conde Nuvolone entre as “uvas de primeira qualidade” cultivadas nos arredores de Asti e na planície de Alessandria. Seu ápice, porém, viria somente no século XIX, talvez por causa da chegada do oídio. Gradualmente o cultivo da Barbera se tornou dominante entre as uvas tintas no Piemonte.

Na primeira metade do século XX chegou a ser a uva tinta mais plantadas na Itália, direcionada sobretudo para volume, ao invés de qualidade. Em 1970, por exemplo, tinha uma área de vinhedos maior que a Sangiovese. Mas a reputação de ser uma variedade da qual resultavam vinhos rústicos e pouco sofisticados, além de um escândalo envolvendo a uva na década de 1980, levou a uma forte redução da área plantada. Os níveis atuais de cultivo na Itália correspondem a apenas 23% daquele registrado em 1970.

Origem e parentesco genético

A origem do nome Barbera gera controvérsias até hoje, mas há duas hipóteses mais aceitas. A primeira é que seria uma derivação do nome de vinum berberis, um suco fermentado de frutos silvestres consumido no norte dos Alpes. Já outros ligam o nome Barbera à palavra latina Barberus, no sentido de agressivo ou indomável, uma alusão ao caráter forte e rude do vinho que muitas vezes é obtido a partir dessas uvas.

Já seu parentesco genético segue cercado de mistérios. Estudos científicos ainda não conseguiram identificar a árvore genealógica  da Barbera, a exemplo do que foi feito, por exemplo, com Cabernet Sauvignon ou Sangiovese. No entanto, ganhou destaque um estudo recente que, embora ainda não tenha reconhecimento oficial, teria identificado a obscura uva tinta Coccalona como um dos pais da Barbera, o que a colocaria como meia-irmã da branca Riesling Itálico.

Características e vinhos

A Barbera mostra uma grande sensibilidade ao terroir, de forma que os vinhos obtidos se apresentam com características muito diferentes, dependendo de sua origem geográfica. No entanto, é uma variedade que se adapta muito bem a diversas condições de solo e clima. Ela mostra uma boa resistência a doenças e pragas, com exceção da flavescência dourada, que representa uma grave ameaça a esta variedade.

No Piemonte, sobretudo na área de Langhe, não ocupa os melhores vinhedos (aqueles de orientação sul) e, mesmo assim, mostra boa produtividade. É uma variedade que mostra cachos compactos, de tamanho médio e formato piramidal. Seus grãos são de médio porte, de formato ovalado, com cascas finas, mas consistentes, e de coloração azulada a preta bem acentuada. Chama a atenção, porém, o fato de que, nos estágios iniciais de evolução dentro de um mesmo cacho podem ser encontrados grãos com muita heterogeneidade de coloração e patamar de evolução fenólica.  

Os vinhos elaborados a partir da Barbera geralmente mostram coloração rubi, com muita concentração. Apresentam olfativo intenso e complexo, com notas frutadas (amoras, cerejas negras, ameixas, mirtilos), florais (lavanda, violeta), especiarias ou picantes (incenso, alcaçuz, pimentão).  São vinhos, em geral, de boa estrutura, com acidez alta, taninos macios, notas de frutas negras, herbáceo e especiarias na boca.

Estilos diferentes

No Piemonte há a elaboração de vinhos de diversos estilos a partir da Barbera. Em primeiro lugar, existem diferenças entre as regiões produtoras. Além da Barbera di Monferrato DOCG, as duas principais denominações de origem que usam esta variedade na região são Barbera d’Asti DOCG e Barbera d’Alba DOC. Em termos de estilo, os vinhos da primeira são mais leves, elegantes e refinados, enquanto na última são tintos mais poderosos e complexos.

Há também diferenças em termos de processo de vinificação. A chamada Barbera Classica geralmente tem vinificação inteiramente em inox ou concreto, dando origem a vinhos mais frutados e frescos, para consumo imediato. Já Barbera Superiore são vinhos que, por conta da passagem por carvalho, se mostram mais estruturados e profundos, com excelente poder de evolução em adega.  

Área plantada e nomes alternativos

Segundo dados da OIV, em 2015 eram 21.225 hectares de Barbera plantados ao redor do mundo, dos quais 18.431 hectares (que equivale a cerca de 86,7%) na Itália, sobretudo na região do Piemonte. Em um distante segundo lugar, apareciam os Estados Unidos (2.220 hectares, 10,4%), seguidos por Argentina (454 ha, 2,1%) e Austrália (110 ha, 0,5%).

No Piemonte, a Barbera é a variedade mais plantada na região, com cerca de 30% da área total dedicada ao cultivo de uvas. Isso a torna a sexta variedade mais plantada da Itália, com uma área cerca de três vezes superior àquela cultivada com a Nebbiolo. Além do Piemonte, também se destacam na Itália as regiões de Oltrepò Pavese (Lombardia) e Colli Piacentini (Emilia-Romagna), com plantios também mais ao sul, onde geralmente a Barbera é usada em cortes.

Apesar de sua grande concentração no Piemonte, recebe diversos outros nomes, como Barbera Amaro, Barbera Raspo Rosso, Barbera a Peduncolo Rosso, Barbera a Peduncolo Verde, Barbera a Raspo Verde, Barbera Crna, Barbera d’Asti, Barbera Dolce, Barbera Fina, Barbera Forte, Barbera Grossa, Barbera Mercantile, Barbera Monferrato, Barbera Nera, Barbera Nostrana, Barbera Riccia, Barbera Rissa, Barbera Rosa, Barbera Vera, Barberone, Besagno, Cosses Barbusen, Gaietto, Lombardesca e Ughetta.

Fontes: Foundation Plants Services Grapes, UC Davis; Distribution of the World´s Grapevine Varieties, OIV; Consorzio Barbera d’Asti e vini del Monferrato; Piemonteis.org: La Barbera, tra storia e mito;  Lo Stato delle Conoscenze Viticole sul Barbera, Vittorino Novello; Quattrocalici; Italian Vitis Database; DNA‑based genealogy reconstruction of Nebbiolo, Barbera and other ancient grapevine cultivars from northwestern Italy, Raimondi et al.

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