Last Updated on 14 de julho de 2024 by Wine Fun
Uma região que mostrou enorme evolução na qualidade de seus vinhos nas últimas décadas foi o Piemonte. Existe uma opinião quase unânime entre produtores e críticos de que o cultivo mais cuidadoso das videiras e os padrões criteriosos adotados na vinificação colocaram os vinhos da região, sobretudo Barolo e Barbaresco, em um patamar inédito de qualidade.
Porém, como tantas outras regiões europeias, ainda existe uma significativa variação entre safras. A combinação destes dois fenômenos resultou em um quadro interessante: é evidente que nos últimos 15 anos o nível dos vinhos foi mais elevado e homogêneo do que no passado. Isso é verdade sobretudo na comparação com as décadas de 1970 e 1980, uma expressão clara de uma mudança climática em curso, mas também da adoção de técnicas e seleção de uvas mais criteriosas.
Por tudo isso, vale a pena conhecer melhor como foram as condições nas safras desde 2005 do Piemonte, com foco em Barolo e Barbaresco. Para uma avaliação qualitativa mais detalhada dos vinhos destas safras, vale a pena também consultar a compilação exclusiva da WineFun para as safras de Barolo e Barbaresco.
2021: condições próximas do ideal e safra a ser lembrada
Opinião quase unânime entre os produtores de Barolo e Barbaresco: 2021 foi uma safra de excepcional qualidade. O inverno não foi tão frio, mas bastante nevado, nesse garantiu a criação de uma reserva hídrica importante. Já a partir da primavera, iniciou-se um longo período de bom tempo que durou todo o verão, com temperaturas em linha com as médias do período e sem excessos, principalmente à noite. Na primeira parte de julho, porém, ocorreram fortes tempestades, afetando a produção em algumas áreas.
A colheita do Nebbiolo começou nos últimos dias de setembro, terminando na segunda semana de outubro. Os cachos se mostraram saudáveis, com ótima maturação fenólica, facilitada pela queda de temperatura e variações de temperatura que puderam ser observadas a partir da segunda quinzena de setembro. O resultado? Vinhos com alta acidez, muito equilíbrio e profundidade, possivelmente com grande potencial de guarda.
2020: safra quente, mas com vinhos agradáveis e prontos para consumo
Repetindo o padrão da safra 2018, 2020 caracterizou-se por um ciclo vegetativo quente e ligeiramente mais precoce do que o normal. Apesar do calor (sobretudo no verão), os níveis de acidez mantiveram-se altos. Vale lembrar que, em termos de temperaturas médias, 2020 lembrou safras como 2013 e 2017. Já a acumulação de antocianinas e polifenóis foi ideal, até por conta das condições climáticas de setembro, caracterizadas por noites mais frescas.
Os vinhos da safra 2020 parecem ser quase uma unanimidade. São vinhos mais prontos para consumo, porém, mesmo em uma safra quente, sem excesso de álcool ou presença dominante de frutas sobre maduras. De forma geral, assim, a característica dos vinhos é diferente do que se poderia esperar de uma safra tão quente. E isso se deveu a duas razões: a falta de estresse hídrico nas videiras; e a ausência de picos de calor.
2019: condições ideais e safra de referência
Uma safra de alta gama. Para Antonio Galloni, da Vinous, Barolo está de volta aos trilhos depois de um 2018 problemático, com uma safra “estelar” que, em sua opinião, pode representar o início de um novo ciclo de safras excelentes. Embora 2019 tenha sido historicamente quente, foi mais fria na média que as safras anteriores. Ao contrário de outros anos, não houve “condições climáticas de choque”, com uma colheita tardia ideal. Segundo o relatório do Consorzio di Tutela Barolo Barbaresco Alba Langhe e Dogliani, 2019 está ao lado de vindimas de referência, como 2016, 2005 e 1999.
O inverno correu sem grandes excessos, com uma primavera chuvosa. Porém, a chegada de um verão quente, todavia mais ameno e sem eventos extremos como em safras anteriores, garantiu uma evolução ideal das uvas. A colheita da Nebbiolo ocorreu no final de setembro e outubro, mais longa que o padrão da última década, gerando condições fenólicas ideais.
2018: vinhos leves e prontos para consumo
Se 2017 foi uma safra quente e seca, 2018 foi quase o oposto, com uma primavera muito chuvosa, verão ameno e setembro quente. O inverno foi longo e com muitas chuvas, que seguiram ao menos até maio, gerando problemas com doenças fúngicas em muitos vinhedos. Foi somente em meados de julho que as temperaturas voltaram a níveis normais, sem excessos.
De forma geral, a safra 2018 gerou vinhos mais leves e frescos, que rapidamente se mostraram adequados para consumo. Em artigo publicado na Decanter, isso é evidente “Em suma, 2018 obviamente não foi uma safra de ponta, como vários produtores admitem abertamente. Fabio Alessandria, da GB Burlotto, define a safra de 2018 como mais convidativa para beber em comparação com 2017: “Talvez 2017 seja mais duradoura, enquanto 2018 estará pronta para beber nos próximos 10 anos”.
2017: calor e seca geram uma safra precoce
A safra foi 2017 foi bastante distinta de 2016, pois foi um ano consistentemente bem mais quente e seco. Antonio Galloni deixa isso bem claro: “não, 2017 não é uma repetição de 2016. Sejamos claros sobre isso. Ao mesmo tempo, parece que hoje em dia a reação instintiva a uma safra quente e seca costuma ser “é outro 2003”. Ele ressalta, porém, que isso também não foi o caso, pois os produtores aprenderam muito com safras quentes como 2003.
O inverno foi ameno e com pouca neve, seguido por uma primavera fria. Porém, as temperaturas subiram rapidamente, com poucas chuvas. Somente em setembro, o clima se tornou um pouco mais ameno, com algumas chuvas. O resultado foi uma colheita mais precoce, cerca de duas semans abaixo do média. Quanto aos principais componentes do vinho, o teor alcóolico foi mais elevado, especialmente para Dolcetto e Nebbiolo. Isso ocorreu, porém, porque as videiras interromperam seus processos metabólicos no período mais quente. Além disso, a acidez total foi menor e o perfil de frutas foi bastante maduro. Foi uma safra que recebeu 3 taças no agregador WineFun.
2016: safra longa, com vinhos clássicos e equilibrados
Realmente uma safra especial. O descritivo desta safra, elaborado pelo Consorzio di Tutela Barolo Barbaresco Alba Langhe e Dogliani começa assim: “a vindima de 2016 foi certamente uma das mais longas, em termos de duração, dos últimos anos.”. E, quando se fala de Piemonte, isso acaba quase sempre se refletindo em uma safra de alta qualidade. Após um inverno ameno, a primavera teve temperaturas noturnas baixas e muita chuva.
Por conta de um verão de tempo bom, porém sem excessos, este atraso na maturação fenólica acabou resultando em uma safra longa. A colheita das uvas tintas começou em 20 de setembro com a Dolcetto e continuou sem parar até meados de outubro, com a Nebbiolo. Por conta deste período longo, houve grande acúmulo de compostos fenólicos nas uvas, gerando vinhos clássicos, com excelente equilíbrio, finesse, profundidade e estrutura, além de menor teor alcoólico que em 2015. Kerin O’Keefe, uma das críticas mais conceituadas de Barolo, descreveu 2016 em uma só palavra: “fantástica”.
2015: calor extremo e vinhos mais encorpados
O inverno trouxe bastante neve, fator importante para criar reservas hídricas nos solos da região, porém com temperaturas mais amenas, com uma antecipação no ciclo vegetativo das videiras. Se a primavera foi com temperaturas em torno da média, no verão o cenário foi diferente. As temperaturas bateram recordes (40°C, com médias acima de 30°C). Embora o calor não tenha trazido estresse hídrico, garantiu um amadurecimento das uvas muito maior que no ano anterior.
A consequência foi uma safra de vinhos bastante encorpados, onde a fruta se mostrou mais madura e o teor alcoólico mais elevado. Porém, por conta dos meses de setembro e outubro terem sido um pouco mais amenos, os vinhos de 2015 não têm o perfil característico de safra quente como em 2003, 2007 ou 2011.
2014: safra difícil, com vinhos mais austeros
Ao contrário da safra anterior, 2014 foi uma safra extremamente complicada. Se o inverno e a primavera não trouxeram grandes surpresas, o verão teve temperaturas bastante abaixo da média e muitas chuvas, afetando o desenvolvimento fenólico das uvas. As chuvas chamaram a atenção, com forte pressão de doenças fúngicas e consequente queda da produção.
Foi também uma safra de contrastes regionais. Barbaresco, por exemplo, recebeu menos chuva, com menor impacto, enquanto em diversas áreas de Barolo sofreram bastante. O resultado foi que muitos vinhos mostraram um perfil de acidez mais elevado, menos estrutura e fruta mais verde. Se as primeiras impressões sobre os vinhos não foram positivas, diversos produtores ressaltaram que, após 10 anos da safra, a percepção mudou. Por conta da alta acidez, muitos vinhos evoluíram muito bem, lembrando os Barolos do passado. No fundo, tudo depende um pouco do estilo preferido de cada um, já que não são vinhos intensos ou frutados, tendendo mais para um perfil onde a austeridade assume o protagonismo.
2013: classicismo, com vinhos elegantes e longevos
Uma safra mais clássica: a colheita terminou somente no início de novembro, como era comum no passado. A causa foi uma primavera mais fria e chuvosa, que atrasou bastante o ciclo vegetativo das videiras. As temperaturas no verão ficaram um pouco abaixo da média e somente a partir de setembro houve mais calor para acelerar a maturação das uvas, favorecendo variedades tardias, sobretudo a Nebbiolo.
Na comparação com safras anteriores, mais frescor que 2011 e mais estrutura que 2012, com taninos delicados e finos. De forma geral, foi considerada uma safra mais clássica e de ótima qualidade, para muitos produtores uma das melhores da década. São vinhos elegantes, de alta acidez e com excelente potencial de evolução.
2012: extremos climáticos e muita variabilidade
O inverno foi gelado e com muita neve, com uma primavera fria e chuvosa entre março e abril, porém com rápido aumento das temperaturas em maio. Não faltou chuva (em média 55 mm). Esta situação de abundância de água, aliada a altas temperaturas, permitiu uma aceleração do desenvolvimento vegetativo. Se o início do verão foi ameno, agosto foi extremamente quente, com máximas de 38 °C e pouca chuva
As chuvas vieram e as temperaturas se tornaram mais amenas em setembro, resultando em muita variabilidade entre produtores e sub-regiões. É uma safra de vinhos com personalidades distintas, muitos deles mais leves, com menos álcool e de menor maturação fenólica que 2011, outros com mais intensidade e taninos bem presentes.
2011: calor extremo, mas vinhos acima do esperado
Após um inverno regular, as altas temperaturas de abril, com máximas acima de 20 °C e uma média mensal de 16 °C em comparação com 13 °C no ano anterior, causaram uma evolução precoce. Os meses seguintes mostraram temperaturas em linha com a média, porém agosto foi tórrido. Neste contexto climático, a maturação das uvas foi bastante desigual, em algumas áreas houve inclusive a sobreposição da colheita entre diferentes castas.
Para as variedades de ciclo mais longo, como Barbera e especialmente Nebbiolo, a chuva que caiu durante o início de setembro foi providencial. Aliada a uma queda nas temperaturas noturnas na segunda parte do mês, evitou o temor de uvas sobre maduras e álcool excessivo, permitindo alcançar equilíbrio dos componentes fenólicos das uvas. Uma safra peculiar, que gerou vinhos não no patamar de 2010, mas melhores que as expectativas iniciais.
2010: uma safra clássica, entre as melhores
Uma safra “de antigamente”. Inverno rígido e com muita neve, além de primavera fria. O verão começou chuvoso, inclusive com alguns eventos de granizo. O início de agosto foi marcado por temperaturas amenas e mais baixas, sugerindo uma maturação das uvas mais tardia do que nos últimos anos, mas na média quando comparadas com safras “clássicas”.
A Nebbiolo aproveitou ao máximo o mês de setembro, quando o bom tempo compensou um ligeiro atraso na maturação devido ao período chuvoso entre julho e agosto. Também na segunda quinzena do mês, o acúmulo de açúcares foi crescente e constante, com a acidez, inicialmente muito alta, também se ajustando. A maturação dos componentes fenólicos, essencial para garantir o corpo e a aptidão para guarda, foi excelente. Resumo: uma safra excepcional, com vinhos clássicos, equilibrados e elegantes.
2009: muita variabilidade entre os vinhos
A safra 2009 começou com um inverno com nevascas abundantes e um início de primavera chuvoso, que garantiu uma excelente reserva hídrica para as videiras. O verão foi ensolarado e quente, porém com muita variabilidade dependendo da região. Por conta disso, houve uma tendência de maturação irregular, determinada mais por características do local do que varietais. Por exemplo, em algumas áreas as uvas de Barbera atingiram a maturação mais cedo do que as de Dolcetto. Do ponto de vista da maturação tecnológica, é uma safra que se coloca entre 2003 e 2007 com muitos açúcares e boa acidez.
Foi uma safra difícil de definir, com muita variabilidade entre os vinhos. De forma geral, Barbaresco teve um desempenho mais uniforme, com alguns vilarejos de Barolo mostrando mais consistência, como La Morra, Barolo e Serralunga d’Alba. Há vinhos excelentes, porém, muitos não apresentam grande potencial de evolução.
2008: problemas com quantidade, mas boa qualidade
Por conta de chuvas intensas na primavera, a safra 2008 foi muito difícil do ponto de vista sanitário, com problemas de míldio e oídio a partir de meados de maio até junho e julho, com algumas consequências também em agosto. Os danos, especialmente do ponto de vista quantitativo, foram consideráveis, com perda de cerca de 15% em relação à safra anterior.
Foi uma safra marcada pela variabilidade. Além das doenças fúngicas, algumas vinhas sofreram sérios danos causados pelo granizo e vento, de forma que a variabilidade de exposições pesou bastante. Do ponto de vista da qualidade dos vinhos, porém, o cenário foi diferente, com vinhos clássicos e classudos, com bom equilíbrio e taninos firmes. São vinhos com ótimo potencial de guarda, sobretudo os Barolos de La Morra.
2007: safra precoce e quente, com vinhos maduros e alcoólicos
A safra 2007 mostrou um padrão climático muito particular, com uma brotação precoce devido a um inverno particularmente ameno. A floração começou cerca de vinte dias antes do que em 2006. O início do verão foi bastante quente e seco, com alguns eventos de granizo em julho. Em agosto, as temperaturas foram ligeiramente inferiores à média e isso levou a uma redução no ritmo de maturação das uvas. Porém, apesar disso, a colheita começou cerca de dez dias antes do que em 2006.
Para a Dolcetto, o teor médio de açúcar foi igual ou, em alguns casos, ligeiramente inferior ao de 2006, mas com uma boa estrutura ácida. Também para as uvas de maturação mais tardia, como Barbera, Freisa, Nebbiolo e Pelaverga, manteve-se uma maturação precoce com uma elevada concentração de açúcares, capazes de produzir vinhos com excelente corpo e estrutura, cor e aromas. De forma geral, os Barbarescos sofreram menos com esta safra bastante quente. Já em Barolo houve problemas com estresse hídrico, afetando a maturação fenólica e resultando em alguns vinhos com frutas bem maduras, álcool elevado e notas verdes.
2006: vinhos intensos e tânicos, com muito potencial de guarda
O inverno foi bastante frio e nevado (em linha com 2000), com chuvas mais intensas em fevereiro. Após um março também frio, a primavera chegou em abril, com temperaturas abaixo da média até meados de maio, quando uma onda de calor elevou a temperatura a níveis superiores ao normal. A seca e o calor seguiram em julho, com pequeno alívio nas temperaturas em agosto, porém sem chuvas. À exceção de alguns eventos isolados, foi um ano bastante seco até que fortes chuvas atingissem a região em meados de setembro.
A tendência climática de 2006 afetou diretamente as vinhas, que alternaram momentos de rápido desenvolvimento vegetativo com outros de relativa quietude. 2006 premiou todas as uvas de maturação precoce (variedades brancas) com excelentes níveis de maturação, teor alcoólico médio-alto e aromas muito intensos. Para a Dolcetto, deu origem a vinhos de grande potencial.
Para as variedades de maturação mais tardia (Barbera, Freisa e Nebbiolo) as chuvas em meados de setembro causaram muita apreensão entre os viticultores. Em sua maioria, porém, os vinhos se mostraram poderosos e tânicos, com aromas complexos, acidez na medida e teor alcoólico adequado.
2005: clima variável, menor volume e bons vinhos
O ano de 2005 teve um inverno de temperaturas amenas, com poucas chuvas. Foi seguido, porém, por uma primavera bastante variável, com temperaturas frescas e chuvas intensas. Já o início do verão teve temperaturas mais altas que o normal, sobretudo em junho e na segunda metade de julho. Agosto foi mais fresco que o normal, com as temperaturas de mantendo elevadas em setembro. O início de outubro trouxe alguns dias de chuva, mas nas áreas de Barbaresco e Roero a colheita já estava concluída. Já em Barolo, cerca de metade das uvas ainda estava nas videiras quando chuvas mais intensas foram registradas.
Em termos de quantidade, 2005 foi menos produtiva do que 2004, com uma redução de cerca de 10% da produção. Já no que diz respeito à qualidade, safra recebeu 4 taças no agregador WineFun, com uma variabilidade maior entre produtores, sobretudo aqueles de Barolo. Pesou bastante o ponto de colheita (se antes ou depois da intensificação das chuvas de outono), mas, de forma geral, foram vinhos com menor poder de evolução.
Algumas safras espetaculares
O Piemonte, sobretudo Barolo, dá origem a alguns dos vinhos tintos com maior potencial de guarda do mundo. Deste modo, vale a pena saber quais são as safras de alta qualidade de um passado mais distante. Entre os principais destaques, safras como 1947, 1961, 1964, 1967, 1970, 1971, 1978, 1982, 1989, 1996, 1999 e 2001 geraram vinhos de alta gama e potencial para muitos anos de adega.
Fontes: Consorzio di Tutela Barolo Barbaresco Alba Langhe e Dogliani; Barolo and Barbaresco: The King and Queen of Italian Wine, Kerin O’Keefe; Barolo MGA; Vinous; Decanter; Kerin O’Keefe.; Entrevistas com produtores
Imagem: Arquivo pessoal