Beber um bom vinho pode trazer muito prazer. Mas será que o tipo de taça a ser usado realmente faz a diferença? O uso de uma taça de cristal, no formato adequado, é realmente necessário ou apenas uma questão mais de imagem ou ideia de algum enochato de plantão? Aquele copo de requeijão dá conta do recado?
Antes de responder estas perguntas, cabe entender melhor através de quais canais os vinhos nos trazem prazer. Aliás, vale a pena ir um pouco além, compreender melhor como chegamos a sensações olfativas e gustativas.
Comida quente ou fria
Você prefere sua comida quente ou fria? Aquela picanha fica melhor quando consumida ainda quentinha ou depois de esfriar? Gosto não se discute, mas creio que a maioria acaba optando pela primeira opção. E isso tem alguns motivos que a ciência ajuda a explicar.
Em primeiro lugar, comidas ou bebidas têm sim diferentes gostos, dependendo da temperatura. Por exemplo, um café quente parece muito mais interessante que um frio, pois o calor ameniza o amargor desta bebida. Nossas papilas gustativas sentem a diferença na temperatura, e isso vale para muito do que comemos ou bebemos.
O segundo impacto é através dos aromas. Em uma comida ou bebida quente, as moléculas de aromas evaporam no aquecimento e ganham velocidade suficiente para percorrer a distância entre a comida ou bebida e nosso nariz. E isso ativa nossas células sensoriais de forma mais intensa do que se estivessem frias. A sensação de olfato funciona quando as moléculas viajam e atingem nossa cavidade nasal, onde ativam nossos receptores olfativos.
Concentração de aromas
Mas o calor não é a variável principal. O que ele faz é intensificar a percepção da concentração dos aromas, que é o mais importante. No fundo, é a concentração que faz a diferença, e ela não depende somente da temperatura. Pense em uma folha de manjericão ou alecrim, de quão cheirosa ela é, mesmo em temperatura ambiente.
Quando pensamos em um vinho, da mesma forma, a intensidade de seus aromas irá modificar a percepção que temos dele. E, dependendo do tipo de copo ou taça que estivermos usando, isso será diferente.
Formato importa
Primeiro os sabores. O formato da taça muda pouco a sensação gustativa, até porque estudos mostram que, ao contrário do que muita gente afirma, não existe tanta diferença na percepção dos gostos em partes diferentes da boca. Por outro lado, a questão da percepção de aromas muda bastante.
Vamos pensar em dois exemplos: um copo tradicional, tipo aquele de água e uma taça de vinho, conforme a imagem abaixo. Ambos foram servidos com vinho tinto, mais ou menos na mesma quantidade. Qual será aquele mais adequado, e qual o motivo para isso? A resposta é, como poderia se esperar, a taça da direita. Mas você sabe o motivo?

É relativamente simples. Enquanto o copo da esquerda vai se abrindo desde o ponto onde o vinho foi servido até a sua borda, o inverso ocorre na taça, que é mais larga onde o vinho foi servido do que na sua borda. E isso faz uma enorme diferença, uma vez que muda a concentração dos aromas, No primeiro caso eles se perdem, no segundo se concentram.
Material
Existe também a questão do material do qual o recipiente é feito. De forma geral, qualquer material inerte é adequado, ou seja, se o copo ou taça for de vidro ou cristal, pouco muda. A diferença vem se utilizarmos um copo que tenha um gosto em si ou aromas próprios, por exemplo aqueles copinhos de plástico descartáveis.
Se você consegue sentir a diferença entre um copo de plástico e de vidro quando bebe água, o mesmo ocorre quando degusta um vinho. Deste modo, evite tomar vinhos em copos de materiais que transmitam outros sabores ou aromas.
Limites na percepção
Obviamente, a sua percepção vai depender também da qualidade ou tipo do vinho e da temperatura de serviço. Porém, o fato da taça à direita permitir uma concentração maior de aromas faz com que o vinho servido nela reflita melhor suas qualidades (e defeitos, também), do que no copo da esquerda.
Não é preciso dizer que tudo depende também de quem está apreciando os vinhos. Como qualquer habilidade que temos, a de captar e identificar aromas também varia de pessoa para pessoa e pode mudar com o tempo, dependendo de quanto nos condicionamos. De qualquer forma, vale a pena fazer a experiência, teste a sua percepção de aromas, isso faz parte do conceito de apreciar melhor os vinhos.
Fontes: Equilibration Time and Glass Shape Effects on Chemical and Sensory Properties of Wine, Greg Hirson; Science ABC; SevenFiftyDaily
Imagem: Bogdan Pasevich via Pixabay