Bical: uma uva portuguesa versátil que vale a pena conhecer

A Bical é uma uva autóctone de Portugal, com um perfil associado principalmente às regiões do centro-norte do país. Embora seja tradicionalmente ligada às Beiras, é na Bairrada que a variedade encontra hoje sua expressão mais emblemática, tanto em vinhos tranquilos quanto, sobretudo, na produção de espumantes. Trata-se, portanto, de uma casta com forte identidade local, embora tenha uma presença tímida em diversas outras partes de Portugal.

Durante muito tempo, a Bical ocupou uma posição discreta no panorama das castas brancas portuguesas, frequentemente associada a vinhos simples ou a uma parte minoritária nos cortes. Porém, essa percepção vem mudando de forma consistente, especialmente na Bairrada. Foi onde alguns produtores passaram a explorar melhor seu potencial, sobretudo por meio de técnicas que privilegiam o contato com suas lias ou a passagem por madeira.

Origem e identidade

A Bical é uma variedade que ainda não tem parentesco direto reconhecido com outras castas amplamente difundidas no país. O sinônimo Borrado das Moscas, ainda encontrado na literatura antiga e em registros regionais do Dão, refere-se ao aspecto pontilhado que as bagas podem apresentar em determinadas condições de maturação. Apesar de, ocasionalmente, ser agrupada de forma genérica entre as castas “neutras” do centro de Portugal, a Bical apresenta um comportamento próprio, com um perfil estrutural que a distingue de variedades mais difundidas, como a Fernão Pires.

Implantação e distribuição regional

A Bical ocupava, em 2022, 1.135 hectares em Portugal, o que correspondia a aproximadamente 0,7% da área total de vinhedos. Entre as uvas brancas, era a 13ª com maior área de vinhedos, com menos de 10% dos plantios da uva líder, a Fernão Pires. Embora fique fora do grupo das vinte castas mais plantadas do país, sua importância qualitativa e regional é desproporcionalmente maior, sobretudo na Bairrada.

Quando analisada pela proporção em cada região, a Bical revela uma implantação claramente concentrada. Na Bairrada, era a segunda uva branca em termos de área plantada e representava cerca de 5% do total do vinhedo, desempenhando papel central na identidade regional. No Dão, correspondia a cerca de 3% dos vinhedos. Em termos absolutos, a Bairrada concentrava pouco mais de um terço de toda a Bical plantada em Portugal, totalizando 465 hectares. O Dão surgia em seguida, com cerca de 295 hectares.

Características

Do ponto de vista agronômico, a Bical é uma variedade de maturação precoce a média, com tendência a acumular açúcar de forma relativamente rápida. Esse comportamento exige atenção especial no momento da colheita, sobretudo em anos mais quentes, sob risco de perda de equilíbrio e de queda de acidez. Apresenta bom desempenho em climas moderados a frescos, especialmente quando há amplitude térmica significativa entre o dia e a noite.

A videira é naturalmente vigorosa e produtiva, o que torna o controle de rendimento um fator essencial para a obtenção de vinhos mais concentrados. Práticas como a poda criteriosa e, quando necessário, o desbaste de cachos são frequentemente empregadas para moderar a produção. Os cachos tendem a ser compactos, com cascas espessas para uma uva branca, característica que ajuda a explicar tanto seu potencial estrutural quanto sua adequação à produção de espumantes.

A Bical apresenta boa resistência geral às doenças, sendo pouco sensível ao míldio, mas sensível ao dio, aspecto já observado historicamente. Em ambientes úmidos, como na Bairrada, a compactação dos cachos pode aumentar o risco de podridão cinzenta, o que exige um manejo cuidadoso.

Vinificando a Bical

Na adega, a Bical revela uma versatilidade que nem sempre foi plenamente explorada. Apresenta sensibilidade moderada à oxidação, o que permite tanto abordagens mais redutivas, voltadas para frescor, quanto estilos com maior intervenção, desde que bem controlados. Demonstra excelente afinidade com o estágio com suas lias, ganhando textura, volume de boca e complexidade aromática.

O uso de madeira, sobretudo de barricas neutras, tende a funcionar bem quando o objetivo é reforçar a estrutura e o caráter gastronômico do vinho, sem sobrepor o perfil varietal. Em exemplos mais ambiciosos, a combinação de lias e madeira contribui significativamente para o potencial de envelhecimento.

Este perfil leva alguns enólogos a traçar uma comparação com a Chardonnay, no sentido de que é uma uva aromaticamente mais neutra, com perfil médio de acidez e excelente adaptabilidade a solos argilo-calciários.

Estilo dos vinhos

Os vinhos de Bical apresentam, em geral, coloração palha, com reflexos verdeais. No nariz, revelam notas de maçã verde, pera e cítricos quando jovens, evoluindo para frutas de caroço como pêssego e damasco, além de flores brancas. Com o tempo e em estilos mais trabalhados, podem surgir nuances de frutos tropicais, amêndoas, cereais e discretoas notas tostadas.

No palato, tendem a apresentar corpo médio, podendo alcançar maior peso de boca em versões com estágio prolongado em borras ou em madeira. A acidez é média, normalmente inferior à da Arinto, mas superior à da Fernão Pires, com graduação alcoólica média. Embora se trate de uma uva branca, pode apresentar certa sensação de estrutura fenólica, sobretudo quando submetida a prensagens mais firmes. O potencial de envelhecimento é maior nos exemplares mais concentrados e bem trabalhados, o que contraria a antiga visão de que se trata de uma variedade destinada apenas ao consumo jovem.

Papel nos cortes e nos espumantes

Nos vinhos tranquilos, a Bical é frequentemente utilizada em cortes para aportar volume de boca e textura, sendo combinada com castas de maior acidez, como a Arinto, ou com variedades mais aromáticas, como Fernão Pires ou Cercial. Cada vez mais, porém, surgem versões monovarietais, sobretudo na Bairrada e no Dão, com perfil sério e vocação gastronômica.

Na produção de espumantes, desempenha um papel particularmente importante. É uma das castas clássicas da Bairrada para vinhos base, contribuindo com corpo, estrutura fenólica e capacidade de envelhecimento, ao lado de Arinto e Fernão Pires. Sua casca mais espessa e seu equilíbrio natural fazem dela uma componente valiosa para espumantes de maior profundidade.

Presença fora de Portugal

A Bical é, na prática, uma variedade exclusivamente portuguesa. Existem apenas plantios marginais fora do país, sem relevância comercial. Na Espanha, há registros pontuais na Galícia, geralmente em parcelas experimentais ou de conservação patrimonial. No Novo Mundo, surgem apenas traços com pequenas áreas na Califórnia e na Austrália, sem produção comercial relevante estabelecida.

Fontes: Foundation Plants Services Grapes, UC Davis; Distribution of the World´s Grapevine Varieties, OIV; Instituto da Vinha e do Vinho de Portugal; Infovini

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