Casa Castillo e seus vinhos posteriores aos 100 pontos

Em seu livro The New Vignerons: A New Generation of Spanish Wine Growers, Luis Gutiérrez, consagrado crítico de vinhos, destacou 14 vinhateiros que estão revolucionando o vinho espanhol. Entre os nomes salientados neste livro lançado em 2018, alguns chamaram a atenção pelo seu impacto em regiões vinícolas muitas vezes ignoradas pelos amantes de vinho. Um deles é José María Vicente, proprietário da Casa Castillo, na denominação de origem Jumilla, que fica a menos de duas horas de Valencia.

O crítico espanhol, que também avalia e pontua vinhos para a Wine Advocate, criada por Robert Parker, parece definitivamente apreciar os vinhos da Casa Castillo.  O exemplar da safra 2020 do Pie Franco, monovarietal de Monastrell, foi o primeiro vinho de Jumilla a receber 100 pontos desta publicação. Abaixo, minha avaliação desta cuvée (da safra 2022), além de dois outros vinhos do mesmo produtor, que conta com cerca de 175 hectares de vinhedos e certificação orgânica.

Monastrell 2023, 14,5%

Este é um dos vinhos de entrada do produtor, custando cerca de € 8, um preço bastante atrativo até para padrões europeus. É um 100% Monastrell (chamada de Mourvèdre na França) proveniente de diversas parcelas de vinhas mais jovens, com fermentação em inox usando leveduras indígenas. O vinho passou 12 meses em tonneaux de carvalho francês e americano. Dentro de um painel de três vinhos, foi de longe o mais simples, mas ainda um bom custo-benefício. Representou bem minhas experiências passadas com Monastrell, ainda mais sendo de uma safra quente e seca. Nariz intenso, trazendo fruta preta bem madura (ameixa seca) e especiarias. No palato, um vinho intenso, encorpado e concentrado, com boa acidez, taninos discretos e muita fruta negra, além de nota de alcaçuz.

Las Gravas 2022, 14,5%

Este corte de 94% Monastrell e 6% Garnacha provém do vinhedo de mesmo nome, com cerca de 27 hectares, orientação norte, altitude 760 metros e solos com alta concentração de seixos. Com manutenção de cerca de 25% de cachos inteiros, cada variedade fermenta de forma independente em lagares de pedra, com trasfega para foudre de 5,000 litros e tonneaux de 500 litros, onde fazem a conversão maloláctica e ficam 20 meses. O blend é feito antes do engarrafamento. Um vinho de estilo mais mediterrâneo, com aromas de frutas negras e vermelhas, além de notas vinosas, alcaçuz, especiarias, ervas verdes (tomilho e alecrim) e balsâmico. O palato trouxe muito mais equilíbrio e frescor que o anterior. Mostrou certa rusticidade, boa acidez, taninos presentes, corpo médio e menos fruta (inclusive com uma discreta salinidade). Custa cerca de € 48.

Pie Franco 2022, 14%

Duas safras após a o vinho que colocou a Casa Castillo no estrelato, o que esperar deste exemplar, que com uma produção inferior a 4 mil garrafas, custa na faixa de € 165? As uvas (100% Monastrell) provêm de uma só parcela (Pago La Solana), de face sul/sudeste e plantada em pé-franco em 1941. Vinificação em linha com o anterior (com maior proporção de cachos inteiros) e estágio de 20 meses em tonneaux e foudre. Olfativo intenso, com destaque para cerejas negras, ervas mediterrâneas, chocolate, especiarias e nota floral, com um palato mais rico, concentrado e complexo.  Porém, a alta acidez, frescor e textura crocante garantiram um excelente equilíbrio, com corpo médio, taninos finos e longa persistência. Um vinho delicioso, mediterrâneo e de múltiplas camadas. Apesar disso, não me parece justificar o seu preço de mercado.  

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