Champagne sem bolhas: ganha força o resgate da tradição de vinhos tranquilos na região

O aquecimento global tem mudado a forma de elaborar vinhos ao redor do mundo. Por conta das temperaturas mais altas e menos chuvas em diversas regiões, muitos produtores começaram a mudar suas práticas agrícolas e métodos de vinificação, para garantir vinhos mais frescos e menos extraídos. Isso sem falar na busca de novas regiões, mais frias e/ou de maior altitude, que possam garantir uvas de melhor perfil.

Por outro lado, as mudanças climáticas acabaram favorecendo outras regiões. E uma delas é a Champagne, a mais setentrional área de elaboração de vinhos da França. Até hoje a região é conhecida pela elaboração dos espumantes que viraram sinônimo desta denominação de origem. Na Champagne, o clima mais frio permite o cultivo de uvas com o perfil de acidez necessário para espumantes de altíssima qualidade. Mas, por conta do aquecimento global, os espumantes já começam a ganhar a companhia de vinhos tranquilos.

Denominação Coteaux Champenois

Embora muita gente acredite que a elaboração de vinhos tranquilos na Champagne seja novidade, isso não é verdade. Muito antes das borbulhas conquistarem o mundo, a região de Champagne era uma grande região produtora de vinhos tintos (clairets), além de brancos e rosés. Foi somente com a enorme reputação que os espumantes ganharam a partir do século XIX que a elaboração de vinhos tranquilos despencou.

Por conta do sucesso mundial dos espumantes, os vinhos tranquilos ficaram praticamente restritos ao consumo local durante grande parte do século XX. Porém, para evitar a competição com a poderosa denominação que representa os espumantes, foi decidido agregar os vinhos tranquilos em uma nova denominação, a Coteaux Champenois, criada em 1974.

Forte queda começa a se reverter

É difícil avaliar qual foi a tendência da produção da região, até por falta de estatísticas mais completas, como informou Brigitte Batonnet, que trabalha na parte de estatísticas do Committee Champagne. Os poucos dados, porém, mostram um quadro interessante. Em 1974 as vendas dos vinhos da denominação Coteaux Champenois foram de 1,2 milhão de garrafas, para atingir 4,2 milhões de garrafas em 1978.

Depois disso, o declínio foi rápido. Em 2000 foram apenas 234.955 garrafas, e os números dos últimos anos variaram entre 50 a 150 mil garrafas, dependendo das condições da safra, com uma média em torno de 75 mil garrafas por ano. A grande maioria (cerca de 95%) se refere a vinhos tintos. Mas a expectativa é que este número comece a subir rapidamente, tanto pela entrada de uma nova geração de produtores como pelo interesse também por parte das grandes maisons produtoras de Champagne.

Nomes novos e tradicionais

De um lado, novos produtores, com uma maior presença de vinhateiros de menor intervenção. Além do resgate das tradições do passado, outro fator certamente atraindo novos produtores é a questão preço. Por conta dos baixos volumes produzidos, os vinhos de Coteaux Champenois são caros. Há vinhos que atingem entre € 50 a 70 por garrafa na França, com a justificativa de que representam oportunidades quase únicas de provar vinhos deste terroir tão diferenciado.

De outro lado, há interesse crescente por parte dos grandes produtores de Champagne. No último mês de fevereiro a Louis Roederer lançou dois cuvées tranquilos, um tinto e um branco. Embora a escala de produção seja pequena, este lançamento sinaliza que as maisons da região não devem passar alheias ao renascimento dos vinhos tranquilos. Como citado em entrevista exclusiva para a WineFun no ano passado, o CEO da Deutz indicou estudos neste sentido.

Em resumo, ainda há muito trabalho a fazer para que a produção de vinhos tranquilos na Champagne atinja uma escala maior. Porém, as sementes estão sendo plantadas e, caso realmente se confirmem os cenários em relação ao aquecimento global, parece haver pouca dúvida que a região poderá se tornar também um centro de produção de vinhos tranquilos de alta qualidade nas próximas décadas.

Fonte: Vitisphere

Imagem: KING LI via Pixabay

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