Estamos todos acompanhando os eventos climáticos e a sua acelerada despadronização nos últimos 10 anos mais ou menos. Há milhares de anos, mais exatamente há 9.000 anos, somos uma civilização dependente da agricultura, das commodities agrícolas para atender a necessidade básica da fome, como também para geração de riqueza, alimentando uma balança de comércio x economia x hegemonia.
Escrevo esse texto, o terceiro da série sobre a investigação e as novas pesquisas e descobertas do caminho da Vitis Vinifera e volto-me a você leitor como uma pergunta, talvez a mais importante dessa Saga Vitis Vinífera: Porque ela teve sua origem entre o atual Oriente Médio e o Cáucaso? Porque não temos fósseis antigos, os mais antigos, na Europa onde a Vitis Vinifera se adaptou tão bem ou nas Américas?
É claro que as ciências da arqueologia, da ampelografia, da paleobiologia, da arqueobotânica, ou simplesmente, das Ciências Naturais, são como o vinho: ciências vivas. nada é absolutamente certo até novas descobertas, porém tudo é certo até a última descoberta! Para trazer as pistas, ou melhor, os resultados das pesquisas mais atuais sobre o que nomeio aqui de Saga Vitis Vinífera, temos que conhecer com atenção as eras geológicas da Terra.
Conhecendo as eras geológicas
Enquanto degustamos o nosso vinho, estudamos sobre o que está na taça, apreciamos e jubilamos, um batalhão de centenas de cientistas se debruçam em questões existenciais focando o vinho, da mesma forma como nos perguntamos sobre as maiores questões existenciais do mundo: Como surgiu o mundo? Como surgiu a videira? De onde viemos? Quando começamos a fermentar?
O surgimento do gênero videira é datado de cerca de 60 milhões de anos atrás, com raríssimas descobertas de fósseis espalhados pelo globo sem vínculo genético com qualquer espécie atual. Já quando se olha para a arqueobotânica de milhares de anos, é hipotetizado que na grande glaciação do Pleistoceno, duas subespécies de Sylvestris começaram a se diferenciar e foi nessa época que os humanos entraram em maior contato com elas. Descobertas apontam para fósseis de Vitis Sylvestris de 800.000 a 400.000 anos de idade, uma concentração de fósseis de semente mais antiga encontrada até hoje e são do Cáucaso.
A segunda maior concentração é tão antiga quanto, num range de idades de 400.000 a 150.000 anos e está localizada no Oriente Médio. Na análise de DNA, as concentrações nessas localidades apresentam entre si códigos genéticos bem diversos. Esse período que mencionei acima chamado de Pleistoceno foi o último período contido na grande era glacial. O Pleistoceno foi caracterizado por ciclos climáticos variáveis e foi testemunha da divisão populacional deduzida entre esses dois ecótipos. Ecótipo significa: variedade geográfica, populacional ou racial dentro de uma espécie que é geneticamente adaptada a um habitat em particular.

Clima, humanos e videiras
Humanos e videiras já existiam no Pleistoceno, época que durou de 2,6 milhões a 12.000 anos (aliás somente a título de informação: estamos na Era Cenozóica, na Época Holoceno desde 11.800 anos atrás – vide figura 1) e, de acordo com pesquisas, há 800.000 anos atrás, o pouco de humanidade existente quase foi extinta em decorrência da grande agressividade climática do Pleistoceno – aqui se configura a época da extinção dos Neandertais.
As temperaturas mudaram, secas severas persistiram e estima-se que cerca de 65,85% da diversidade genética atual pode ter sido perdida. É também a época mais conhecida por suas enormes camadas de gelo e geleiras que se moveram ao redor do planeta e moldaram muitas das formas de relevo que vemos na Terra hoje. É num cenário de clima desafiador que a Vitis Sylvestris, a ancestral direta da Vitis Vinifera, se subdivide, se diferencia e sobrevive. Qual seria a explicação para fazê-lo justamente entre o Cáucaso e o Oriente Médio?
Divisão populacional da Vitis Sylvestris
A lacuna de pelo menos 400.000 anos na diferenciação sugere que o processo de isolamento geográfico dos ecótipos foi gradual. Durante todo o Pleistoceno ocorreram períodos interglaciais, ora uma Era do Gelo mais agressiva, ora uma Era do Gelo mais branda. Em amostras geológicas de várias regiões do mundo, a faixa do Cáucaso e do Oriente Médio possuem uma característica de prolongamento desses períodos interglaciais comparados com o resto do planeta. Ou seja, nessa faixa a temperatura branca permaneceu por mais tempo, hipotetizando assim a sobrevivência de muitas espécies, dentre elas, a Vitis Sylvestris.
Mas não para por aí, novíssimas pesquisas apontam que o ecótipo do Oriente Médio subdividiu-se novamente há aproximadamente 56.000 anos. Equivalente ao último período interglacial, em condições mais quentes e úmidas, enquanto que todo o clima global tendia a condições mais secas e frias. É registrado um gargalo populacional dessa nova subdivisão de 40.000 amostras de fósseis.
É a partir desse último período que paleogeologia, arqueobotânica e a genética começam a andar juntas na pesquisa das origens da nossa atual Vitis Vinifera. Essas subdivisões ocorridas há centenas de milhares de anos alimentam de material genético as pesquisas explanadas no artigo do mês passado – A nova rota cartográfica da domesticação e disseminação da Vitis Vinífera Euroasiática
A Saga Vitis Vinifera
As primeiras tribos agrícolas chegaram ao Irã, Anatólia e Cáucaso vindas de lugares mais frios e esse advento resulta numa das primeiras migrações climáticas documentadas. Especificamente, há 8.200 anos atrás, o derretimento do gelo do fim da glaciação do Pleistoceno causou o derretimento da enorme calota de gelo na América do Norte que fluiu para o Lago Agassiz, o que por sua vez causou uma inundação de proporções catastróficas.
Essa água derretida derramou-se no Oceano Atlântico bloqueando a Corrente do Golfo, o que favoreceu uma “recuperação” na glaciação e levou muitas populações que habitavam as estepes siberianas e asiáticas a encontrar lugares mais hospitaleiros, como a costa do Mar Negro, Anatólia e Irã, embora ainda fossem mais frios e chuvosos do que são hoje. Essa migração conecta-se com os primeiros vestígios de produção de vinho datados entre 5.800 e 6.000 a.C., pertencentes à chamada ‘Cultura Shulaveri-Shomu Tepe’ (Geórgia). Atualmente, essas aldeias têm um clima de estepe com uma temperatura em torno de 13 °C, porém os estudos indicam que naquela época foi mais ameno, chuvoso, tropical e mais adequado para o cultivo de videiras. Essa migração em função do clima impactou profundamente e definitivamente as origens do vinho.

Durante esse período Neolítico, das origens da viticultura, o clima não permaneceu o mesmo na região, afetando todas as migrações populacionais – humanas e no nosso caso de estudo: videiras. Após 1.000 anos de adaptação em terrenos úmidos e amenos, a Terra volta a esfriar e segue-se um longo período, mais de 1.500 anos, de seca. Isso hipotetiza os estudos genéticos da Vitis Vinifera atual não terem ligação profunda com os fósseis selvagens do Cáucaso. Nesse período de seca, a migração ocorreu para regiões mais frias, que nesse período estavam mais úmidas também, principalmente os Balcãs.
Já sobre as migrações das Vitis Sylvestris do Oriente Médio, ambos os sub-ecótipos fizeram o caminho para vales e costas do Mediterrâneo, Líbano inicialmente e depois Egito, Cartago e deram início a história que já sabemos: entraram na Península Ibérica.
Uma porta aberta para novas pesquisas
Esse último parágrafo é somente um resumo muito prático para finalização deste artigo. Ele merece mais atenção, pois é no detalhamento que encontramos as relações de DNA mais antigas que temos notícia até o momento: as famílias da Moscato.
A videira tem pelo menos 60 milhões de anos sobrevivendo a todas as grandes mudanças climáticas. Estamos há pelo menos 10 anos sofrendo com as mudanças aceleradas, mas fica nítido que, quando estudamos esse passado tão remoto quanto extenso, não existem dúvidas de que ela sempre sobreviverá. O problema é que nos agarramos com afinco às características individuais conquistadas nessa época do Holoceno. Se soltarmos nossas taças, quem sabe suas próximas evoluções possam ser ainda melhores do que são hoje. Mas é isso, por mais tecnologias que tenhamos, ainda ninguém sabe!
Andrea é historiadora, pesquisadora da fermentação antiga e entusiasta de vinhos. Possui mestrado em História das Civilizações pela Universidade da Pensilvânia e atualmente, integra equipes de arqueólogos apoiados pelo Penn Museum, com estudos focados na função antropológica do vinho nas civilizações antigas (a.C.). Co-autora do livro científico Patrimonio Cultural da la Vid y el Vino. Formada sommelière pela ABS-SP e certificada WSET3 pela East London Wine School.
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Fontes: Essa é uma resenha de minha autoria à partir de um estudo de 359 páginas publicado em 02/03/2023 fruto de um trabalho em conjunto de 89 cientistas de diversas Universidades e Instituto de Pesquisas pelo Mundo, entre eles: Universidade da Pennsylvania, de Madrid, de Pádua, de Israel, de Pequim. Nome original do artigo científico: Dual domestications and origin of traits in grapevine evolution (uma parte do artigo, publicado e aberto ao público mediante registro). As amostragens genéticas da pesquisa total encontram-se no Genome Warehouse in the National Genomics Data Center, China National Center for Bioinformation.
Foto: Andrea Ramos, arquivo pessoal