Aquecimento global e seu impacto sobre o vinho: evidências e perspectivas

Last Updated on 8 de março de 2024 by Wine Fun

O impacto do aquecimento global sobre a vinicultura é inegável, sobretudo na Europa. Produtores de diversas regiões do Velho Continente seguem reportando padrões similares. A combinação entre temperaturas médias mais altas, colheitas cada ano mais precoces e crescentes dificuldades em alinhar as maturações tecnológica e fenólica das uvas deixa claro um cenário desafiador.

Mais do isso, tem aumentado a frequência de eventos climáticos extremos, como geadas e chuvas de granizo violentas. E eles podem impactar de forma dramática os vinhedos. Um exemplo foi a série de geadas que atingiu várias regiões europeias em 2021. Por conta de um inverno e início de primavera mais quentes que o normal, o deslocamento do vórtex polar no início de abril atingiu milhares de hectares de vinhedos, justamente quando os primeiros brotos surgiam. O impacto foi devastador, com várias regiões mostrando quebra de safra a níveis raramente vistos.

Safras mais precoces na Itália

Algumas vinícolas conseguem apresentar provas irrefutáveis do aquecimento global. A icônica Valentini, sediada em Loreto Aprutino, na região do Abruzzo, no centro da Itália, é um exemplo. Iniciou suas atividades em 1650 e, desde 1817, analisa e registra em seus arquivos as informações mais importantes de cada safra.

Um dado muito relevante é o que registra a data de início de cada safra. Ele pode ser comparado com as informações referentes às temperaturas médias no mesmo período, como mostra o gráfico abaixo. Os dados mostram que, por cerca de 140 anos (entre 1817 e 1980), o início da safra ocorria geralmente no meio de outubro. Porém, isso mudou de forma significativa desde então, com colheitas cada vez mais prematuras, já invadindo o mês de agosto. Em paralelo, o que se viu foi um aumento nas temperaturas médias e, também, da amplitude térmica.

Tendências de longo prazo

Transformações na Alemanha

Schloss Johannisberg é uma importante referência da histórica do vinho na Europa, sobretudo quando a Riesling é o foco. Criado em 1130 por monges beneditinos, o monastério e seus vinhedos adjacentes seguem produzindo Riesling de qualidade há séculos. A “biblioteca” de safras antigas contém um exemplar de 1748 e, durante séculos os monges foram diligentes em anotar detalhes das safras, algo que prosseguiu mesmo depois desta propriedade no Rheingau deixar de ter suas atividades ligadas às ordens religiosas.

Com uma base ampla de dados, pesquisadores conseguiram mostrar claras evidências das mudanças climática também nesta região. Em média, a colheita acontece atualmente duas a três semanas antes do que final do século XVIII e início do século XX. Boa parte da mudança se deu nas últimas décadas e deve seguir. Em 2050, espera-se que a veraison (quando as uvas mudam de cor), ocorra 30 dias antes do que em 1950.

Recordes de temperaturas na França

O aquecimento global fica claro também ao analisar os dados referentes às últimas safras na Borgonha. Se no passado esta região francesa era conhecida pela forte irregularidade de suas safras, com vários anos caracterizados por maturação insuficiente de suas uvas, este quadro mudou completamente. No passado apenas os melhores vinhedos (geralmente os Grand Cru e Premier Cru) conseguiam consistentemente dar origem a vinhos com uvas mais maduras. Atualmente o excesso de sol e calor, e não a falta deles, passou a ser um problema.

Um estudo divulgado em 2018 analisou os dados climáticos da Borgonha entre 1961 e 2015. Além de um aumento nas temperaturas médias, também os eventos extremos se tornaram mais frequentes.  O número de dias com calor acima de 35°C era, em média, apenas um por ano. Porém, em 2003 (ano mais quente até então) foram quinze dias, com 2015 vindo atrás, com nove dias.

E, desde então, o termômetro não parou de subir. 2018 quebrou novamente o recorde de ano mais quente da história na região. A temperatura média em Beaune durante o mês de janeiro foi 6,5 graus acima da média histórica. E o mesmo ocorreu em 2020, com novo recorde de temperatura média sendo batido. Desta vez, porém, foi agravado por um volume de chuvas muito abaixo do esperado, mais um problema a ser temido pelos viticultores.

Vinhos mais alcóolicos

Outra forma de analisar o impacto do aquecimento global sobre os vinhos é através da graduação alcóolica. Na Toscana, a graduação média de 13,7% dos vinhos nos anos noventa subiu para 14,1% na década seguinte e 14,2% no período entre 2010 e 2019. Isso ocorreu apesar do esforço dos produtores em conter este avanço nos últimos anos.  Na mesma linha, em Bordeaux o grau médio de álcool de seus tintos na década entre 1990 e 1999 era de 12,8%. Ele explodiu para 13,5% na primeira década deste século e para 13,7% nos dez anos até 2019.

Estas mudanças têm levado regiões e produtores a considerar experiências com outras uvas, mais adaptadas à nova realidade climática.  Em 2020 o conselho que regulamente as denominações do Bordeaux aprovou o cultivo de novas variedades na região, entre elas Touriga Nacional, Arinarnoa, Marsellan e Alvarinho. Na Borgonha, há rumores que as autoridades locais possam anunciar a inclusão de até 10% de Aligoté em alguns vinhos brancos da região.

Novos horizontes para o vinho

Mas o aquecimento global não traz apenas impactos negativos ao mundo do vinho. Áreas onde anteriormente a produção de vinhos de qualidade era apenas uma ilusão passam a contar com a possibilidade de se tornarem importantes regiões vinícolas. Um estudo publicado em 2020 mostrou que as novas condições climáticas podem abrir novos horizontes para a Pinot Noir.

A partir de meados deste século, diversas regiões europeias podem apresentar condições ideais para esta variedade. Os destaques são o norte da Alemanha, Dinamarca, Inglaterra, Irlanda, sul da Suécia, países bálticos, sul da Finlândia e Ucrânia. Fora da Europa, melhores condições na Nova Zelândia, Tasmânia, regiões do Noroeste do Pacífico, na América do Norte. Isso sem falar de locais de maior altitude, como parte dos Andes, por exemplo.

Um novo estudo, publicado em julho de 2022, parece confirmar esta tendência. Com foco no Reino Unido, os pesquisadores acreditam que, até 2040, grandes áreas no sudeste e leste da Inglaterra devem entrar em uma faixa adequada para a produção de Pinot Noir. Esta variedade já é cultivada com sucesso no Reino Unido para espumantes, mas os aumentos projetados de temperatura indicam novas oportunidades. A expectativa agora é de produção de Pinot Noir também para a elaboração de vinhos tranquilos em diversas regiões da Inglaterra e País de Gales.

Fontes: Precipitation intensity under a warming climate is threatening some Italian premium wines, Di Carlo P., Aruffo E., Brune W.H; Diversity buffers winegrowing regions from climate change losses, Morales-Castilla, Wolkovich et all,  Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS); Wine Scholar Guild; The effect of climate on Burgundy vintage quality rankings, Davies et all

Gráfico: Precipitation intensity under a warming climate is threatening some Italian premium wines, Di Carlo P., Aruffo E., Brune W.H

Imagem: Cristian Ibarra via Pixabay

4 Replies to “Aquecimento global e seu impacto sobre o vinho: evidências e perspectivas”

  1. O artigo mostra que o aquecimento global já é uma realidade para a vitivinicultura e vem modificando profundamente a produção de vinhos em diversas regiões do mundo. O aumento das temperaturas acelera o amadurecimento das uvas, altera sua composição química e pode comprometer o equilíbrio entre açúcar, acidez e aromas, características fundamentais para a qualidade do vinho. Além disso, eventos climáticos extremos, como secas, ondas de calor e chuvas intensas, tornam a produção mais difícil e imprevisível.

    Na minha percepção, o tema demonstra que as mudanças climáticas não afetam apenas o meio ambiente, mas também a economia, a cultura e a tradição de regiões produtoras de vinho. Por isso, torna-se cada vez mais importante investir em práticas agrícolas sustentáveis, preservação ambiental e novas tecnologias que permitam a adaptação dos vinhedos às condições climáticas futuras, garantindo a continuidade da produção e a qualidade dos vinhos.

  2. O aquecimento global tem causado grandes impactos na vitivinicultura. Entre as consequências negativas estão o aumento das temperaturas, secas, geadas e eventos climáticos extremos, que podem reduzir a qualidade e a produção das uvas. Por outro lado, algumas regiões antes muito frias passaram a ter condições favoráveis para o cultivo de videiras, ampliando as áreas produtoras de vinho. Mesmo com alguns benefícios pontuais, os desafios para as vinícolas são maiores e exigem constantes adaptações para manter a qualidade dos vinhos.

  3. O aquecimento global é um dos maiores desafios ambientais da atualidade.
    Ele provoca o aumento da temperatura média do planeta.
    Com isso, o clima fica mais instável em diversas regiões.
    A produção de vinho é uma das atividades afetadas por essas mudanças.
    As uvas amadurecem mais rapidamente por causa do calor excessivo.
    Isso altera o sabor, o aroma e a qualidade dos vinhos.
    Além disso, as secas reduzem a quantidade de água disponível.
    As chuvas fora de época também prejudicam as plantações.
    Ondas de calor podem danificar os parreirais.
    Com menor produção, os custos dos vinhos podem aumentar.
    Muitos produtores já buscam novas áreas mais frias para o cultivo.
    Outros investem em técnicas para enfrentar as mudanças climáticas.
    Essas adaptações ajudam a manter a qualidade das uvas.
    Por isso, combater o aquecimento global é essencial.
    Assim, será possível proteger a produção de vinho e o meio ambiente.

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