Conheça a Touriga Nacional, uma das pérolas dos vinhedos portugueses

A Touriga Nacional é um dos principais símbolos do vinho português. Além de ser a terceira variedade mais plantada em Portugal, também no que diz respeito à qualidade elas se destaca. Faz parte de alguns dos mais conceituados vinhos tintos da “terrinha”, entre eles o mítico Barca Velha. Porém, esta uva com tanta história passou momentos difíceis durante boa parte do século XX, por conta de seus relativamente baixos rendimentos.

Felizmente, isso mudou. Desde o final do século passado, por conta da tendência de substituir uvas mais produtivas por aquelas perfil mais qualitativo, a Touriga Nacional registrou impressionante crescimento em Portugal. Além disso, começa também a ganhar presença em outras regiões do mundo, favorecida pelas pressões decorrentes do aquecimento global. Por exemplo, a partir de 2021 ela pode fazer parte do corte dos tintos produzidos nas denominações de origem Bordeaux e Bordeaux Supérieur, na França.

Origem, ascensão e queda

Ainda não existe comprovação científica sobre as origens precisas da Touriga Nacional, embora exista grande probabilidade que tenha surgido no norte de Portugal. Suas primeiras menções datam do início do século XIX, e a possibilidade mais aceita atualmente é que tenha surgido na região do Dão, embora o Douro também seja um potencial candidato. Em ambas as regiões, esta variedade mostra ampla variedade genética, sinal de uma presença de longo prazo.

Seu nome teria origem no vilarejo de Tourigo, situado no concelho de Tondela, no Dão. Foi nesta parte de Portugal que a Touriga Nacional atingiu seu ápice no final do século XIX. Ela chegou a responder por mais de 90% dos vinhedos do Dão. Mesmo em uma região tão rica em variedades, este domínio teve uma causa: sua resistência ao oídio, que atacou a região em meados do século.

Porém, a Touriga Nacional viu o outro lado da moeda, também em função de outra epidemia. A filoxera destruiu grande parte dos vinhedos locais e, por conta de sua adaptação ruim aos porta-enxertos usados e menores rendimentos, ela foi substituída por outras uvas.  No final da década de 1980, a Touriga Nacional representava somente 5% dos vinhedos do Dão, tendo perdido importância também no Douro.

Renascimento

Nas últimas décadas, todavia, a Touriga Nacional viveu um impressionante renascimento em Portugal. Ela recuperou espaço no Dão e Douro, mas também ganhou importância em outras regiões portuguesas. E isso tem a ver com sua qualidade, já reconhecida no passado. Em 1881 o Visconde de Villa Maior associou as castas de determinadas regiões à fama e reputação dos seus vinhos: “Na Borgonha os Pinots, no Medoc os Cabernets e o Petit-Verdot, no Tokay o Furmint, no Xeres o Pedro-Ximenes, em Hermitage o Syrah, no Douro, entre o Tua e o Corgo, a Touriga”.

A busca por vinhos de maior qualidade nas últimas décadas, ao invés de um foco puramente quantitativo, fez crescer a área de vinhedos, parte em detrimento da Touriga Franca. Vale lembrar que esta última uva, de maior rendimento, é resultado do cruzamento natural entre a Touriga Nacional e Marufo.  

Dentre os responsáveis pela volta da Touriga Nacional ao protagonismo, vale citar os nomes de José António Rosas e seu sobrinho João Nicolau de Almeida. Foi o estudo e seleção de castas para a produção de vinho do Porto desenvolvidos por eles no Douro na década de 1970 que abriu as portas para que muitos viticultores voltassem a cultivar esta variedade no final do século passado

Características e vinhos

A Touriga Nacional apresenta cachos pequenos e alongados, com grãos diminutos, arredondados e não uniformes, com coloração negro-azulada e cascas grossas, trazendo alta concentração de antocianinas. A sua polpa é rija, suculenta e de sabor peculiar. É uma variedade de maturação média, com produção mediana a elevada em condições adequadas, porém baixas nos casos de solos mais pobres

Dá origem a vinhos retintos de coloração púrpura, com tonalidades violáceas, quando novos. Os aromas são intensos, com destaque para notas de frutas negras maduras (amoras e groselha preta), florais (violeta e alfazema) e toques de alcaçuz, menta e ervas verdes. No palato, são vinhos encorpados e robustos, com acidez média/alta, taninos bem presentes e notas muito frutadas quando jovens. Possuem ótimo potencial de guarda, ganhando mais elegância e taninos mais aveludados.

Boa parte dos vinhos elaborados são cortes (sobretudo no Douro), em conjunto com outras variedades locais, tanto para vinhos secos como fortificados (Vinho do Porto). Porém, sua utilização como monovarietal segue em crescimento, sobretudo por conta do seu reconhecimento como uma das mais complexas e longevas variedades portuguesas.

Área plantada e nome alternativos

Segundo dados da OIV, a área plantada de Touriga Nacional ao redor do mundo, em 2015, era de 12.590 hectares. Destes, 98% concentravam-se em Portugal, com o restante distribuído na África do Sul (106 ha) e Estados Unidos (104 ha). Dados mais recentes (2022) divulgados pelo Instituto da Vinha e do Vinho de Portugal, indicam 13.543 hectares de videiras, o que a colocava como a terceira variedade mais plantada em vinhedos portugueses.

Deste total, aproximadamente 5.042 hectares (37% do total em Portugal) se localizam no Douro, onde a Touriga Nacional correspondia a cerca de 11,6% da área de videiras. Outras regiões com plantio significativo desta variedade eram o Dão (2.846 hectares, ou 21% dos vinhedos locais) e Alentejo (1.607 ha, porém apenas 6% da área plantada na região). Somadas, estas três áreas respondiam por cerca de 70% dos vinhedos de Touriga Nacional em Portugal.

Apesar de sua grande diversidade geográfica, distribuída por quase todas as regiões portuguesas, a Touriga Nacional recebe relativamente poucos nomes alternativos. São eles: Bical Tinto, Mortagua, Mortagua Preto, Preto Mortagua, Touriga, Touriga Fina, Tourigao, Tourigo Antigo, Tourigo do Dao e Turiga.

Fontes: Foundation Plants Services Grapes, UC Davis; Distribution of the World´s Grapevine Varieties, OIV; Estratégias de Gestão do Coberto Vegetal e da Produção na Casta Touriga Nacional na Região do Dão, Costa Rodrigues et al; Instituto da Vinha e do Vinho; Wines of Portugal; Varietal discrimination and genetic relationships of Vitis vinifera L. cultivars from two major Controlled Appellation (DOC) regions in Portugal, Castro et al; Comissão Vitivinícola Regional do Dão; ADVID.

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