As discussões nas últimas semanas entre diversos órgão da União Europeia trouxeram à tona uma imensa controvérsia no mundo do vinho. Afinal de contas, é possível falar de vinhos sem álcool? Dentro dos esforços para reduzir a incidência de câncer no continente, diversas medidas vem sendo discutidas para reduzir o consumo de álcool. E o vinho acabou entrando nesta discussão.
A discussão coloca de lados opostos dois grupos de países. De um lado, aqueles do norte da Europa, que pressionam por medidas mais duras no combate ao consumo de bebidas alcóolicas. De outro, aqueles do sul, que não colocam o vinho como passível de medidas restritivas, tanto por conta de seu menor teor de álcool em relação aos destilados, como também por razões históricas e culturais.
Vinho sem álcool?
A primeira grande discussão diz respeito ao próprio conceito de vinho sem álcool. O vinho é o resultado do processo de fermentação das uvas, que é quando leveduras consomem o açúcar delas, gerando álcool e gás carbônico como resultado. Deste modo, a única forma de obter um vinho sem álcool é retirando dele o álcool. Isso pode ser feito por diversos processos, entre eles cones giratórios ou filtração.
Estes vinhos já existem e são inclusive comercializados em alguns mercados, como Nova Zelândia, por exemplo. Mas, na Europa, porém, a controvérsia é intensa, até por conta dos países produtores. Vale lembrar que os três maiores países produtores de vinho do mundo são europeus, e seus setores vinícolas têm um peso político importante.
Proposta sendo discutida
A Comissão Europeia já havia proposto há cerca de dois anos uma nova regulamentação sobre o setor vinícola na região. Agora esta proposta, como o resto da reforma da política agrícola, está sendo negociada entre a Comissão, o Conselho e o Parlamento Europeu. E mesmo esta discussão ainda não tem consenso.
Mesmo dentro os defensores dos vinhos sem álcool, há aqueles que propõe que a permissão apenas para vinhos que não façam parte de denominações de origem, em geral vinhos mais simples. Porém, há quem proponha também a elaboração de vinhos sem álcool dentro das denominações de origem. Isso significaria, por exemplo, encontrar um Barolo ou Rioja sem álcool.
Já dentre aqueles contrários à proposta, também não há consenso. Para muitos, esta prática simplesmente não é aceitável, pois não existe vinho sem álcool, fazendo a analogia como “não existe carro sem rodas”. Outros, porém, enxergam a possibilidade de um tipo de bebida diferente, que, porém, não poderia ser chamada de vinho.
Fake news e realidade política
E para quem acha que fake news em grande escala são uma exclusividade brasileira, uma série de rumores infundados circularam na Europa nas últimas semanas. Na Itália, por exemplo, circulou o boato de que a Comissão Europeia estaria propondo a inclusão de água nos vinhos, como forma de reduzir a graduação alcóolica.
De qualquer modo, parece que a discussão vai longe, pois também não existe consenso entre os vários órgãos europeus. Por exemplo, mesmo dentre aqueles que defendem a proposta dentro do Parlamento Europeu, a possibilidade de aprovação de vinhos sem álcool dentro das denominações de origem parece extremamente remota. Sendo um órgão com representação proporcional, vale lembrar que os quatro países mais populosos da UE (Alemanha, França, Itália e Espanha) ficam entre os 10 maiores produtores de vinho do mundo.
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