O conceito de denominação de origem está cada dia mais difundido no mundo. Ele permite que uma região proteja os produtos que elabora, contra produtores de outras regiões, que muitas vezes tentam usar o nome original para se beneficiar. No mundo do vinho, um exemplo é o uso da expressão Port em vinhos produzidos da mesma forma que na região portuguesa do vinho do Porto.
Quando não existia a proteção deste termo, era comum ver vinhos produzidos em outras regiões, por exemplo, a África do Sul, com o nome Port. Se o consumidor não prestasse atenção, poderia achar que estava consumindo um vinho português. Na verdade, porém, estaria bebendo um vinho sul-africano, que adotava técnicas de produção similares ao português.
Champagne ou… Champagne?
O exemplo mais claro, porém, diz respeito ao uso do termo Champagne. Esta região francesa é a principal referência no mundo na elaboração de espumantes e, dado o sucesso, não foram poucas os produtores de outras regiões que tentaram se beneficiar disso. Por conta disso, o nome Champagne é de uso exclusivo para vinhos produzidos nesta região e de acordo com suas normas.
Porém, no caso deste nome, existe uma peculiaridade. A Champagne francesa não é única região com este nome na Europa a produzir vinhos. Embora não haja comparação entre os volumes produzidos, existe na Suíça, especificamente no cantão de Vaud, um vilarejo com este nome. A Champagne suíça tem pouco mais de 1.000 habitantes, teve sua primeira menção histórica no ano de 885 e produz vinhos ao menos desde 1657. Mas ela não pode usar seu nome nos vinhos que produz.
Disputa pelo nome
Por conta de um acordo entre a União Europeia e a Suíça em 1998, este vilarejo não pode, desde 2004, usar o seu nome nos seus vinhos. Quando vendidos na Suíça, seus vinhos podem levar no rótulo a expressão C-Ampagne, já quando vendidos no resto da Europa são chamados Bonvillars ou Libre-Champ. Mas os pequenos produtores suíços seguem brigando pelos seus direitos.
Desde 2002, várias solicitações formais foram feitas para abrir uma exceção e permitir que este vilarejo com mais de 1.200 anos de história possa colocar seu nome nos rótulos dos vinhos que produz. E na semana passada, saiu mais uma decisão da Justiça. E, novamente, foi negado o pedido dos viticultores do pequeno vilarejo, que cultivam somente 28 hectares de vinhedos.
Nova derrota após pequena vitória
Em janeiro, o governo de Vaud solicitou a criação de uma nova Designação Controlada de Origem para seus vinhos brancos. Eles poderiam ser chamados de Commune de Champagne, ou município de Champagne. Para as autoridades suíças, não haveria risco de o público confundir um vinho branco, vendido em uma garrafa rotulada de Commune de Champagne e ‘vinho suíço’, com um espumante da região francesa de Champagne.
Porém, o Comitê Interprofissional de Vinhos de Champanhe (CIVC) da França, que protege o interesse dos 34.000 hectares de vinhedos da região, rapidamente entrou com um recurso, pedindo que a nova denominação fosse cancelada. Em resposta, o tribunal constitucional de Vaud decidiu a favor da região francesa, em julgamento realizado em 1º de abril, mas anunciado apenas nos últimos dias. O tribunal decidiu que a criação da denominação pelo governo local era contrária ao acordo firmado entre a Suíça e a União Europeia.
Mais uma batalha foi perdida, mas os pequenos produtores suíços não desistem. Resta saber quais serão os próximos capítulos desta guerra entre Davi e Golias. Porém, considerando o peso dos interesses econômicos de 28 hectares contra 34.000 hectares, não é difícil prever qual dos lados deverá prevalecer.
Fonte: France Presse
Imagem: SofieLayla Thal via Pixabay