De heroína a bandida: a madeira

Um dos temas mais polêmicos dos últimos anos no mundo do vinho tem sido o uso da madeira. A polarização iniciou a partir do momento em que este uso passou a ser excessivo. Era como se as barricas novas e caríssimas fossem atestado de “qualidade comprovada” para  os grandes vinhos. A moda atingiu também as linha mais baratas, que passaram a usar chips, para dar aquele toque amadeirado para lembrar o estilo dos irmãos mais caros e requintados.

Mas toda a tendência que é levada ao extremo cansa. E o uso exagerado de madeira levou os consumidores a buscarem vinhos mais leves e limpos, onde a madeira deixou de ser a primadonna. Porém, passado algum tempo, surgiu a onda que eu chamo de radicalismo reverso. Agora a madeira passou até mesmo a ser considerado um defeito por alguns apreciadores de vinho.

Defeito ou qualidade?

Particularmente, não me considero uma pessoa radical, portanto fico com a teoria de que a verdade está no equilíbrio do centro e não nos extremos. Vale, portanto, refletir um pouco mais de como a madeira participa no processo de produção do vinho. Onde se faz uso dos recipientes feitos com madeira? Em três processos, a saber: fermentação alcoólica, malolática e o envelhecimento.

O que a madeira agrega? Complexidade aromática, taninos, e na guarda, por conta de sua porosidade, para a correta maturação do vinho. É importante citar que a madeira utilizada nos processos de produção não é uma só, e que cada tipo utilizado traz diferenças no perfil do vinho. O carvalho francês costuma ser aromático, com presença da baunilha e especiarias, não aportando muito tanino e gerando vinhos mais elegantes.

Já o carvalho da Eslavônia traz maior austeridade aos vinhos que por ele passam, a madeira é mais granulosa o que permite uma maior micro oxigenação e promete maior longevidade. Para finalizar, o carvalho americano muito aromático trazendo forte presença de coco, aromas amanteigados, e maior dulçor. Cito apenas estas três alternativas que são as mais conhecidas e que melhor performam com os vinhos, mas cada país tem suas próprias madeiras e que tem diferentes características das acima citadas.

Tosta, utilização e formato

Não podemos esquecer também que a madeira pode ser usada sem tosta, ou com três diferentes níveis de tosta (leve, média, e intensa), o que impacta sobremaneira na característica do produto final. Finalmente, é também importante saber se o recipiente de madeira é de primeiro, segundo, de terceiro uso etc, e também de quanto tempo o vinho irá passar em contato com a madeira antes de ser engarrafado, e até que tipo de recipiente foi utilizado (barricas, tonneaux, botti, pipa, foudres etc ).

Enfim, é um tema que certamente daria para escrever um livro, mas espero que com poucas palavras eu tenha conseguido mostrar que o uso da madeira é muito complexo, trazendo resultados diferentes aos vinhos pelas alternativas de uso acima citadas.  Portanto, que tal evitarmos a generalização e a radicalização, afinal a guarda em recipientes de madeira faz parte da história do vinho. Gosto pessoal ou mesmo tendências devem ser respeitadas, mas nunca se tornar uma verdade única, os bons vinhos não merecem isto.

Ex-diretor da SBAV (Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho) por dois mandatos, onde também ministrava aulas sobre técnicas de degustação. Editor de vinhos da revista Go Where por 10 anos, publisher da revista Free Time por 3 anos. Já foi jurado de concursos internacionais como CatadorConcours Mondial de Bruxelles. Colaborador e degustador de diversas revistas de vinho, como Vinho Magazine, Vinho & Cia e outras. Editor do blog Tommasi no Vinho.

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Foto: Walter Tommasi, arquivo pessoal

Imagem: pansso via Pixabay

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