Qual o limite de envelhecimento para algumas das principais uvas italianas? De um lado, já tive diversas experiências positivas com vinhos do Piemonte da década de 1960, sobretudo de safras de alto nível como 1961, 1964 e 1967. Vale lembrar que nesta época grande parte dos vinhos desta área, sobretudo com a Nebbiolo, era elaborada com longas macerações e fermentações, o que garantia um grande potencial de guarda aos vinhos.
Já minha experiência com vinhos mais antigos da Toscana não foi tão feliz. Embora métodos tradicionais fossem a regra para a maioria dos vinhos, incluindo envelhecimento em grande botti de carvalho, minha percepção é que a Sangiovese não tem o mesmo potencial de guarda, a não ser para poucos produtores. Dois vinhos provados recentemente parecem confirmar os diagnósticos para estas duas regiões.
Brunello di Montalcino 1966, Castiglione del Bosco, 12,5%
A safra 1966 recebeu quatro estrelas (em uma escala que vai de um a cinco) em avaliação do Consorzio del Vino Brunello di Montalcino. Nesta década, apenas 1961 e 1964 receberam pontuação máxima. Esta foi a segunda garrafa deste mesmo vinho que tive a oportunidade de provar, a primeira infelizmente se mostrou prejudicada, com o nível do vinho já bem abaixo do pescoço da garrafa.
Desta vez, o vinho se mostrou mais íntegro, porém além do ponto ideal de consumo, tanto quando provado logo ao abrir a garrafa (quando estava melhor), como após decantação. No nariz, mostrou notas de rosas, romã, cacau, com um gustativo bastante curioso. Boa acidez, com corpo médio a leve, porém a quase ausência de taninos chamou a atenção. Lembrou uma infusão de rosas, ainda com discretos sabores de fruta. Uma experiência diferente, mas longe do que se esperaria para um Brunello di Montalcino.
Gattinara 1967, Cantina Sociale Cooperativa di Gattinara 12,5%
Na falta de uma avaliação mais formal do Consorzio da denominação de origem, vale a pena tomar como base a percepção de diversos produtores do Piemonte sobre a safra 1967. Muitos a descrevem com uma das melhores da década, porém não no mesmo nível de 1961 e 1964. Compartilho esta percepção, até por conta de diversos vinhos degustados desta safra.
Até por conta destas experiências, este vinho contou com um procedimento distinto. A garrafa foi mantida duas semanas na vertical, com seis horas em decanter antes da degustação. O resultado? Um vinho que parecia ter no máximo 25 anos, com muita vivacidade e estrutura tânica basicamente intacta. Olfativo intenso, com aromas de rosas secas, tabaco e fruta vermelha, com notas ferrosas e de ervas secas. No palato, um Nebbiolo de acidez cortante, corpo médio e taninos ainda presentes, porém totalmente integrados. Fresco, etéreo e elegante, um excelente cartão de visitas desta região do norte do Piemonte, conhecida por sua expressão mais leve e vertical da Nebbiolo.