Last Updated on 19 de agosto de 2023 by Wine Fun
Anna Galisa é a enóloga-chefe da Casa Gran del Siurana, uma vinícola do Priorato, de ótima reputação, sobretudo por conta de seus vinhos monovarietais. Além de vinificar na Catalunha, Anna acumula diversas experiências em outros projetos, já tendo elaborado vinhos em outras regiões da Espanha, entre elas a Rioja, e também fora da Europa, incluindo um projeto no Egito.
Confira abaixo os principais trechos da entrevista exclusiva para o WineFun:
Wine Fun (WF): Qual é a sua filosofia de vinificação, o que você mais busca ao produzir um vinho?
Anna Galisa (AG): Não gosto de protocolos, gosto de ter liberdade de aplicar diversas técnicas de enologia nos vinhos que elaboro. Gosto de um conceito distinto de não intervencionismo, sem radicalismos. Por exemplo, quero ter a liberdade de acrescentar leveduras selecionadas ou algo para fazer as leveduras trabalharem, de fazer quantas pigeáge ou remontagens quiser, se achar necessário. Meu vinho deve mostrar o terroir, mostrar a safra, mas também tem que mostrar a minha sensibilidade como enóloga.
Não me agrada o radicalismo do “não tenho que fazer nada”, pois o enólogo possui conhecimento de um conjunto de técnicas e deve agir. Comparo a relação entre o enólogo e o vinho como aquela dos pais acompanhando o desenvolvimento dos filhos, indicando o melhor caminho. Enologia parte de técnicas e conhecimentos, que devem ser usados. Um vinho deve refletir também o estilo adotado pela vinícola. Por exemplo, a Casa Gran é uma vinícola muito sensata e sóbria, e os vinhos que elaboramos aqui procuram seguir este perfil.
WF: Qual o momento mais crítico para você, como enóloga, durante o longo processo de elaboração de um vinho?
AG: O dia mais crítico é quando faço a coupage, reunindo e combinando os vinhos das diversas parcelas, para a obtenção do corte final, aquele que vai definir o vinho da safra em questão. Penso no processo de elaboração de um vinho como o de um desenho ou pintura. Inicialmente, tenho um esboço do conceito de vinho que quero criar. Através do acompanhamento da evolução das uvas, de seus açúcares e taninos, vou criando minha paleta de cores: cada vinhedo ou variedade distinta seria como uma cor.
Quando tenho todas as cores prontas, chega a hora de transformar o esboço em obra final. Este é o momento do corte, a coupage é aquele ponto onde se unem as cores. Porém, mais do que somente selecionar vinhedos, também tenho à disposição diferentes perfis de barricas, o que só aumenta minha paleta de cores.
Na hora de fazer o corte final, procuro fazê-lo às cegas, degustando cada amostra sem saber sua origem, para eliminar qualquer pré-conceito que tenha sobre um vinhedo ou intensidade de barrica. Como não manipulo os vinhos, minha ferramenta para criar o melhor vinho possível é a coupage.
WF: Quais as características podemos esperar dos vinhos que você elabora?
AG: Vinhos que mostrem personalidade e complexidade. Não pode faltar equilíbrio de boca, com taninos maduros e presentes. Esta questão do tanino, por exemplo, é fundamental. Estamos no Mediterrâneo, o vinho deve refletir, inclusive através de um perfil de taninos mais maduros, o sol que banha esta região. Este perfil de tanino deve estar presente nas garrafas, é como se este sol estivesse dentro delas.
Busco sempre o equilíbrio. Por exemplo, elaboro diversos monovarietais, mas com uvas de vários vinhedos. Isso me permite mesclar as características de cada vinhedo, as uvas de um podem aportar notas mais florais, as de outro toques mais maduros.
WF: Um bom vinho começa com uma boa uva, portanto a viticultura tem um peso significativo. Como vocês trabalham com os vinhedos na Casa Gran del Siurana?
AG: Posso dizer que a qualidade da uva, consequência do duro trabalho nas videiras, corresponde a mais do que 50% do vinho que produzo. Podemos definir nossa agricultura como sustentável, já que, por conta das condições metereológicas do Priorato, podemos trabalhar apenas com enxofre e cobre na maioria dos anos, sem pesticidas.
Porém, temos que ter flexibilidade. Em um ano difícil como 2020, que choveu muito mais que a média, outros insumos foram usados nos vinhedos, pois havia o risco de perda da colheita, caso isso não fosse feito.
WF: Que variedade ou corte lhe dá mais satisfação em produzir? Por que isso?
AG: Posso pensar em duas respostas. A Carignan é uma variedade que eu gosto muito, é muito austera, sóbria, elegante. Uma uva de perfil mais estável, fonte de vinhos de grande complexidade e qualidade.
Por outro lado, temos a Garnacha, que é certamente mais divertida para vinificar. Você deve trabalhar mais, pois ela varia muito de acordo com a safra, mas te entrega perfis aromáticos distintos. Dependendo do vinhedo ou da safra, pode trazer notas florais, ou, por outro lado, pode aportar aromas de perfil mais maduro, mais para frutas negras. Podemos elaborar um vinho com o perfil que chamo de “festa”, muito floral, frutas vermelhas, fresco e de boa acidez, ou um vinho completamente distinto, que chamo de perfil “mediterrâneo”.
WF: Cite uma safra especial para você e o porquê
AG: Gosto muito de 2004, a primeira safra da Casa Gran del Siurana, sobretudo o Gran Cruor Syrah, que foi eleito como o melhor Syrah da Espanha. Abri uma garrafa no ano passado e estava impressionantemente jovem, fresco e vivo.
A safra de 2014 também foi especial, foi quando nasceu minha filha. Foi uma experiência única, lidando com duas criações minhas simultaneamente, um grande desafio
WF: Mencione, dentre os que você elaborou, um que poderá ser bebido em sua plenitude por muitos anos.
AG: Certamente os Gran Cuor, seja o Carignan ou o Syrah. Foram feitos para durar muitos anos, com grande estrutura e concentração, embora possam ser bebidos também jovens. Na elaboração destes vinhos, tivemos uma espécie de casamento, unindo um grande vinho, muito potente, com barricas novas, também muito potentes, que ficaram 18 meses interagindo. E a safra seria 2004.
WF: Quais são os maiores desafios para a vinificação na região onde você trabalha? Qual é a sua resposta para isso?
AG: Obter vinhos equilibrados. E isso vem do trabalho que fazemos com as uvas, para obter simultaneamente a maturação fenólica e a maturação alcóolica, que resulte em um vinho tanicamente maduro, sem que a fruta esteja sobremadura, com acidez e grau de álcool corretos.
E isso tem a ver com a questão climática, com o aquecimento global e a maior quantidade de ondas de calor. Para evitar vinhos de perfil menos maduro, poderíamos simplesmente colher as uvas antes, por exemplo quando o perfil de álcool atingisse 14%. Porém, como mencionei anteriormente, ao fazer isso é improvável que o perfil de taninos seja o correto, ou seja, o desafio é chegar ao equilíbrio
WF: Mencione três de suas músicas favoritas.
AG: A primeira é What a Wonderful World, de Louis Armstrong. Gosto de pensar que o mundo é muito bonito, de que não são necessárias grandes histórias, gestos simples como a frase “amigos apertando as mãos”, que faz parte da letra da música, me tocam. Além disso, uso com muita frequência a expressão “que bonito!”, muitas vezes para descrever situações ou locais que fazem parte do nosso dia-a-dia.
A segunda é Hallelujah de Leonard Cohen, pela mensagem de que temos que agradecer as pessoas que cooperam e participam de nossas vidas. Por fim, gosto muito também de Bona Nit, do grupo catalão Els Pets, que uso para fazer minha filha ninar todas as noites. É uma música simples, de letra fácil, que as crianças entendem. Muy bonita!
WF: Dois livros que você recomenda: um sobre vinho e outro sobre qualquer assunto.
AG: Estou lendo agora o livro Historia Naturalis, de Plinio, o Velho, pois sempre se pode aprender do passado, ver o que foi feito e o porquê destas decisões. Outro livro que gosto muito é O Nome da Rosa, de Umberto Eco. Apesar da parte obscura desta época, me fascina ver o conhecimento que as pessoas criavam e acumulavam nesta torre. Parte deste conhecimento estava oculto, não podia ser dividido, algo que ainda ocorre hoje, pois não nos ensinam tudo o que é conhecido, apenas o que mais interessa.
WF: Mencione algum aspecto da sua atividade que gostaria de destacar.
AG: Eu já viajei muito pelo mundo na minha carreira de enóloga e cheguei a uma conclusão: o mundo do vinho é um prazer, uma coisa espetacular. Embora muitas vezes se adote uma postura mais regionalista, com foco em destacar as qualidades da região que moramos ou vinificamos, a verdade é que há vários lugares no mundo onde se fazem vinhos sensacionais. É excelente trabalhar no Priorato, mas também foi ótimo trabalhar, por exemplo, em La Mancha, ou mesmo no Egito, onde fizemos vinhos a partir de solos arenosos. Todas as regiões são incríveis e sempre cheias de pessoas encantadoras. Por fim, o importante é provar, degustar e deixar-se levar pelos sentimentos, pois, no final, vinho é emoção. Os vinhos, assim como os livros e a música, alimentam a alma.