Etna Rosso: a face mais conhecida dos vinhos do maior vulcão da Europa

Com uma parcela superior a 50% da produção, os vinhos tintos são a face mais conhecida da denominação de origem Etna. Tendo a uva autóctone Nerello Mascalese como protagonista, a região em torno do maior vulcão ativo da Europa tem um longo histórico na produção de vinhos, mas ganhou maior evidência pela qualidade de seus vinhos somente nas últimas décadas.

São vinhos tintos que encantam muita gente, pela finesse e equilíbrio. Apesar de o Etna estar situado na Sicília, extremo sul da Itália, são vinhos frescos e elegantes, sem renunciar à profundidade e estrutura. O principal segredo por trás deste perfil é a altitude dos vinhedos, que pode chegar a quase 1.000 metros em algumas partes da denominação de origem.

Produção em alta

Embora criada em 1968 (uma das primeiras da Itália), a denominação de origem Etna demorou para ganhar o reconhecimento merecido. Desde o “renascimento” desta região no início dos anos 2000, a produção de vinhos na região cresceu de forma acelerada. No caso dos vinhos tintos, por exemplo, em 2022 foram produzidos 23,3 mil hectolitros de vinho, o que equivale a cerca de 3,1 milhões de garrafas.

Embora tenham registrado um impressionante crescimento nos últimos anos, os tintos perderam parcela de produção em relação às demais tipologias, sobretudo os brancos e rosés. Em 2012, os vinhos tintos representavam cerca de 70% da produção da Etna DOC, parcela que caiu para pouco mais de 53% em 2022. Porém, isso não implicou em perda de qualidade.

Na comparação com outras regiões produtoras de vinhos tintos na Itália, o Etna, mesmo apesar do crescimento, é pequeno. Barolo, por exemplo, produz cerca de 15 milhões de garrafas ao ano, enquanto a vizinha Barbaresco fica na casa de 4,2 milhões. Números ainda distantes de outros centros do vinho tinto italiano, como Chianti (93 milhões) e Chianti Classico (37 milhões de garrafas).

Uvas e regras de produção

Para poder carregar em seu rótulo a expressão Etna Rosso, o vinho deve conter ao menos 80% de Nerello Mascalese. Já a também tinta Nerello Capuccio pode responder por até 20%. Vale lembrar que a regulamentação da Etna DOC permite também a utilização de até 10% de uvas brancas não aromáticas com longa presença na região, como Trebbiano, Minnella Bianca e Carricante.

A zona de cultivo das uvas para produção de vinhos com denominação de origem Etna deve pertencer à província de Catânia, com vinhedos situados municípios de Biancavilia, S. Maria di Licodia, Paternò, Belpasso, Nicolosi, Pedara, Trecastagni, Viagrande, Aci S. Antonio, Acireale, S. Venerina, Giarre, Mascali, Zafferana, Milo, S. Alfio, Piedimonte, Linguaglossa, Castiglione e Randazzo. Existe uma limitação para a altitude máxima dos vinhedos, que varia entre as sub-regiões, com um máximo de 1.000 metros em algumas áreas, embora a maioria tenha o nível de 600 metros como limite. Em termos de rendimento, o máximo permitido é de 9 toneladas de uva por hectare, enquanto há também uma graduação alcoólica mínima, fixada em 12%.

Etna Rosso Riserva

Em 2011 houve uma modificação no regulamento da Etna DOC, criando uma nova tipologia de vinhos: Etna Rosso Riserva. De forma geral, são três diferenças principais em relação aos demais vinhos tintos desta denominação de origem. Buscando garantir uvas com maior concentração, o rendimento máximo é de 8 toneladas de uva por hectare. O teor alcoólico mínimo, por sua vez, é de 12,5%.

A principal mudança, porém, é o tempo de envelhecimento dos vinhos. Para ser classificado como Etna Rosso Riserva, o vinho deve passar por um período de envelhecimento de quatro anos, dos quais pelo menos doze meses em madeira. É, dentre as sete tipologias de vinho da Etna DOC (que inclui também brancos, rosés e espumantes), a menor, com uma produção de pouco menos de 20 mil garrafas em 2022.

Outros vinhos tintos

Vale lembrar que na região em torno do vulcão são elaborados também outros vinhos tintos. Porém, por conta de sua composição de uvas e/ou localização, não se adequam às regras da Etna DOC. A face oeste do vulcão (área que não faz parte da denominação de origem) tem extensas áreas plantadas com Grenache. Chamada localmente de Alicante, representa uma herança da época na qual a Sicília era um domínio espanhol.

Seja por conta do uso de uvas não autorizadas ou fora da área regulamentada pela denominação de origem, estes vinhos recebem classificações distintas.  As mais comuns são Sicilia DOC (denominação de origem regional, que inclui praticamente toda a Sicília) ou IGP Terre Siciliane (indicação geográfica, também cobrindo vastas áreas da maior ilha italiana).

Características dos vinhos

Como descrever os vinhos tintos do Etna? Em geral, são vinhos elegantes e equilibrados, com taninos envolventes e uma pitada da típica “rusticidade” dos tintos italianos. O perfil pode mudar de acordo com os métodos de produção de cada vinícola, porém dois fatores relacionados ao terroir e vinhedos podem, também, fazer a diferença.

Vinhos elaborados a partir de vinhedos de maior altitude costumam ser mais leves e frescos. Trazem acidez mais alta e um perfil menos frutado, com mais mineralidade. Por outro lado, por conta de solos geralmente mais férteis nas partes mais baixas das encostas do vulcão, outros vinhos tendem a mostrar mais corpo e fruta mais presente.

Pesa também no perfil dos vinhos a proporção de Nerello Capuccio. Esta variedade mostra aromas mais abundantes de frutas negras, como blueberry e amoras, na comparação com as notas mais presentes de frutas vermelhas nos monovarietais de Nerello Mascalese. Além disso, a Nerello Capuccio traz mais cor aos vinhos, por conta da maior presença de antocianinas nas suas cascas, além de taninos mais sedosos.

Fontes: Consorzio Etna DOC; Etna: I Vini del Vulcano, Salvo Foti; The New Wines of Mount Etna: An Insider’s Guide to the History and Rebirth of a Wine Region, Benjamin Spencer; Entrevistas com diversos produtores; Focusicilia; Disciplinare di Produzione dei Vini a Denominazione di Origine Controllata Etna

Imagem: Arquivo pessoal

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