De um lado, os consumidores têm buscado aumentar a proporção de alimentos orgânicos. E de outro, alguns governos têm tomado atitudes concretas para reduzir o uso de herbicidas sintéticos na agricultura, inclusive nos vinhedos. A França é um deles, anunciando medidas de grande alcance esta semana.
O alvo é o glifosato, o mais popular herbicida no mundo. A ANSES (Agência Francesa de Alimentos, Saúde Ambiental, Ocupacional e Segurança) aprovou nova legislação, que regula o uso do herbicida nos vinhedos franceses. A regulação, que entra em efeito no início de 2021, coloca um novo teto para utilização do produto, em um patamar que representa uma queda de 80% em relação aos níveis atuais.
Além disso, a ANSES informou que está retirando a autorização para treze produtos a base de glifosato, que estão atualmente no mercado e são utilizados em viticultura. Estes se juntam aos 36 herbicidas à base de glifosato que foram banidos no ano passado, e que não estarão mais disponíveis a partir de 29 de novembro deste ano.
O herbicida mais usado no mundo
O glifosato é um campeão de vendas, mas não foi criado como herbicida. Em 1964, a Stauffer Chemical patenteou-a para uso na limpeza de tubulações industriais. Mas sua relevância veio a partir de 1970, quando a Monsanto descobriu que era um herbicida de amplo uso. Foi registrado em 1974, e, sendo barato e eficaz, viu suas vendas explodirem nas décadas seguintes.
Somente entre 1994 e 2010 as vendas mundiais cresceram mais de dez vezes e, em 2017, o glifosato representou um terço do volume de herbicidas vendidos na Europa. A estimativa é que o volume aplicado a cada ano seja equivalente a cerca de meio quilograma do produto por hectare plantado no planeta.
A patente da Monsanto expirou em 2000, e agora cerca de 50% do glifosato vendido é de outros fabricantes (a Monsanto faz parte da Bayer e sua formulação é vendida sob o nome comercial Roundup). O glifosato é amplamente utilizado em vinhedos, pois oferece um método relativamente barato de matar plantas que crescem sob as videiras. Na teoria, elas poderiam competir por água e outros recursos, reduzindo os rendimentos dos vinhedos.
Polêmica
Além de seu baixo custo e eficiência, o glifosato parecia também seguro do ponto de vista de efeito sobre os humanos. Sua forma de ação seguiria um caminho que apenas existe nas plantas, não em mamíferos. Porém, em março de 2015 a Agência Internacional de Pesquisa de Câncer (IARC) concluiu que ele provavelmente é cancerígeno. A conclusão da IARC não foi confirmada pela avaliação da UE ou pela recente avaliação conjunta da OMS/FAO, mas a polêmica foi aberta.
Isso levou à ação em diversos países. A Áustria baniu seu uso a partir de 2019 e a Alemanha propôs sua virtual proibição, a partir de 2023. Mesmo assim, o glifosato continua sendo um tema muito contestado, embora a União Europeia tenha renovado sua licença em dezembro de 2017, por mais cinco anos.
Fontes: Vitisphere; Euractiv; Glyphosate toxicity and carcinogenicity: a review of the scientific basis of the European Union assessment and its differences with IARC, Tarazona et al; Glyphosate Use in the European Agricultural Sector and a Framework for Its Further Monitoring, Antier et al
Imagem: Bertrand Borie via Unsplash