Durante décadas, a produção vitivinícola de relevância internacional esteve concentrada em um conjunto relativamente restrito de regiões, cuja legitimidade foi construída ao longo de séculos, e não por campanhas de marketing ou por selos oportunistas. Hoje, o cenário é outro — e nem sempre para melhor.
Centenas de novas origens passaram a ostentar “um vinho para chamar de seu”, seja para consumo doméstico, seja para disputar atenção em um comércio global claramente saturado, no qual a visibilidade passou a ser confundida com qualidade. Essa proliferação de regiões produtoras ocorre justamente em um momento de inflexão estrutural do consumo. Enquanto a oferta de produtores — e não necessariamente de volume — cresce quase exponencialmente, a demanda mundial por vinho apresenta sinais consistentes de retração. O resultado é uma competição predatória, travada não apenas entre rótulos, mas também entre narrativas artificiais, símbolos de prestígio fabricados e promessas genéricas de excelência, todos disputando o coração, a mente e, sobretudo, o bolso do consumidor.
Em um ambiente de excesso estrutural de oferta, rankings, concursos, guias e sistemas de pontuação se multiplicam com entusiasmo inversamente proporcional à sua credibilidade. Avaliações de toda sorte, frequentemente sustentadas por metodologias opacas, critérios elásticos e conflitos de interesse mal disfarçados, passaram a desempenhar um papel central na construção de reputações tão rápidas quanto frágeis.
Proliferação de prêmios
Qualquer visitante de vinícolas, em praticamente qualquer latitude (até no sertão nordestino), reconhece o ritual: paredes e rótulos cobertos de medalhas, selos e diplomas oriundos de concursos pouco conhecidos, realizados em escala industrial e movidos por um apetite voraz por taxas de inscrição. O excesso de distinções, longe de informar, confunde; longe de orientar, banaliza; e, no limite, esvazia o próprio conceito de qualidade.
Os enófilos mais atentos já aprenderam a filtrar esse ruído. Sabem que a inflação de prêmios revela muito mais sobre a engrenagem do marketing do que sobre o conteúdo da garrafa. Ainda assim, o fato de esse expediente não apenas sobreviver, mas também se expandir ano após ano, indica que continua sendo eficaz junto a uma parcela relevante — e pouco exigente — do mercado. Se não funcionasse, já teria desaparecido.
Na coluna de janeiro de 2024, publicada aqui no WineFun, comentamos o caráter francamente risível de um ranking dos “melhores vinhos de 2023” divulgado por uma suposta publicação de prestígio. O episódio ilustra como a obsessão por listas, posições e selos transformou parte da crítica especializada em um instrumento promocional, esvaziando seu papel informativo e corroendo, de dentro para fora, sua credibilidade.
A importância da Inglaterra no mundo do vinho
Embora já não seja, há muito tempo, o maior mercado consumidor de vinhos do mundo, a Inglaterra segue ocupando o centro do tabuleiro como principal formadora de opinião do setor. Não por produzir grandes vinhos — a produção local continua marginal —, mas por concentrar poder simbólico, educacional e editorial.
A despeito do surgimento recente de espumantes ingleses tecnicamente corretos e de alguns brancos competitivos, os volumes são irrelevantes. O mercado britânico continua sendo, em essência, um mercado de importação. E é justamente essa condição — paradoxalmente — que lhe confere poder. Tendo sido, por séculos, a maior consumidora e importadora do mundo, a Inglaterra moldou estilos, padrões e expectativas tanto no Velho Mundo quanto em suas antigas colônias, especialmente na Austrália, na Nova Zelândia e na África do Sul. Durante décadas, produziu-se vinho pensando, antes de tudo, no paladar e no julgamento do mercado inglês.
Comparação e competição
Sem o viés da autoproteção regional, típico de países produtores, o mercado britânico sempre foi mais aberto à comparação, à experimentação e ao julgamento cruzado. Em regiões como a França e a Itália, o consumo de vinhos locais domina cartas e prateleiras. Na Borgonha, por exemplo, a presença de vinhos de fora da região em restaurantes é frequentemente protocolar. No Reino Unido, ao contrário, a diversidade e o contraste sempre foram a regra, não a exceção.
Foi também nesse ambiente que se desenvolveu, de forma sistemática, a educação formal do serviço do vinho. Enquanto a enologia prosperou nas regiões produtoras, o serviço e a crítica floresceram onde o vinho era objeto de escolha, comparação e avaliação contínua. Não por acaso, a Inglaterra tornou-se o principal berço da crítica moderna e da educação estruturada do vinho.
O dado é eloquente: dos cerca de 420 Masters of Wine no mundo, aproximadamente 200 são britânicos. A distância para os Estados Unidos vem diminuindo, mas o fato permanece — nenhuma outra nação concentra tanto capital simbólico e técnico no campo da avaliação do vinho. A esse poder educacional soma-se o editorial. Algumas das publicações mais influentes do setor são britânicas. E é a partir do ranking de uma delas, a Decanter Magazine, que se torna possível entender como o “mercado que julga” enxerga e hierarquiza o mundo do vinho.
Ranking dos melhores vinhos de 2025 – Decanter Magazine
Na edição de janeiro de 2026, a Decanter Magazine publicou seu ranking dos melhores vinhos de 2025. Não interessa aqui discutir rótulos específicos — exercício fútil e pouco instrutivo —, mas sim analisar como o ranking é estruturado, pois é nessa arquitetura que se revelam as premissas, vieses e hierarquias implícitas do mercado mais influente do mundo.
O primeiro ponto é metodológico: não se trata de um ranking global de rótulos. O que a Decanter apresenta é, na prática, um ranking de regiões, cuidadosamente compartimentado. O mercado foi segmentado em grandes blocos geográficos, e dentro de cada bloco foram selecionados cinco vinhos, sem hierarquia explícita entre eles — uma solução conveniente para evitar comparações diretas e, portanto, controvérsias.
A publicação não explicita uma ordem de importância entre as regiões, mas a sequência em que são apresentadas deixa pouco margem para dúvidas. A hierarquia está lá, ainda que não seja assumida. Bordeaux vem primeiro. Borgonha logo atrás. O resto segue, em círculos cada vez mais amplos, até desembocar em um genérico e revelador “Resto do Mundo”.
A lista inclui:
Bordeaux – 1 Saint-Émilion, 1 Pomerol e 3 da Margem Esquerda (2 Médoc e 1 Pessac-Léognan). Uma ligeira vantagem para a Margem Esquerda.
Bourgogne – 4 Grands Crus (Chablis, Corton-Charlemagne, Chambertin Clos de Bèze) e uma surpresa relevante: um Beaujolais (Antoine Sunier, Régnié 2022). Seria uma concessão simbólica?
Rhône – 2 do Rhône Norte (Cornas e Hermitage) e 3 do Sul (Châteauneuf-du-Pape, Tavel e Gigondas)
Champagne & resto da França – 2 Champagnes, além de Bandol, Sancerre e um surpreendente rótulo da Córsega
Piemonte & Norte da Itália – Barolo, Barbaresco, Franciacorta, Alto Adige e Amarone
Toscana & Sul da Itália – 2 Super Toscanos, além de rótulos da Sardenha, Brunello di Montalcino e Etna
Rioja – 2 brancos e 3 tintos
Portugal & resto da Espanha – Jerez, Porto, Douro, Ribera del Duero e Cava
Antigas Colônias – 3 vinhos australianos, 1 da Nova Zelândia e 1 da África do Sul
Napa & Sonoma (Califórnia) – 3 de Napa e 2 de Sonoma
Outras regiões dos Estados Unidos – 2 do Oregon, além de Washington, Santa Barbara e Santa Cruz
América do Sul – 3 do Chile e 2 da Argentina
Resto do Mundo – onde países inteiros são comprimidos em uma única categoria residual e incluiu rótulos da Inglaterra (espumante), Grécia, Alemanha, Áustria e Hungria
A avaliação foi conduzida pelos editores regionais da Decanter, em sua maioria, Masters of Wine, com base na compilação das maiores pontuações atribuídas ao longo do ano. Ou seja, trata-se menos de um exercício crítico comparativo e mais de uma curadoria editorial baseada em avaliações previamente publicadas.
Ainda assim, o ranking cumpre uma função reveladora. Ele não nos diz quais são os “melhores vinhos do mundo”, pretensão que beira o absurdo . Expõe com clareza como o mercado que concentra influência, capital simbólico e poder de prescrição enxerga, organiza e hierarquiza o universo do vinho. E, nesse sentido, diz muito mais sobre quem julga do que sobre o que é julgado.
Renato Nahas é um grande apreciador de vinhos que adora aprofundar-se no tema. Concluiu as certificações de Bourgogne Master Level da WSG, e também de Bordeaux ML. É formador com homologação pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS e Spanish Wine Specialist – SWS. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWS e CWS, este último pela Society Wine Educators.
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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal